Saúde
Médicos destacam importância de acompanhamento e procedência no uso de canetas emagrecedoras
Especialistas alertam para riscos do uso sem orientação e reforçam necessidade de tratamento médico no combate à obesidade
A luta contra a balança é uma realidade para grande parte da população. Não são apenas os impactos estéticos: a saúde, a partir de determinado momento, passa a apresentar sintomas relacionados ao peso elevado. A obesidade é uma doença e, como tal, precisa de tratamento. O clássico é a reeducação alimentar e a prática de exercícios físicos, mas não é tão simples assim.
Segundo a médica endocrinologista Larissa Teles Sanches, 85% da população herda genes que favorecem o ganho de peso ao longo da vida. “A gente foi geneticamente selecionado ao longo das décadas. Os nossos ancestrais, mesmo quem é descendente europeu, veja, a nossa história é o quê? A gente é sobrevivente de privação. Então, os nossos descendentes todos que passaram por períodos de fome, pobreza, doenças, guerras, pestes, várias pandemias. E hoje nós estamos aqui vivos porque nós somos poupadores. Então, 85% da população tem esses genes e 15% meio que são aqueles que são aquelas pessoas queimadoras demais, extremamente aceleradas, come, come, come não engorda. Então, hoje a gente tem uma prevalência de 60% da população brasileira com sobrepeso e mais de 20% com obesidade. Isso não é só estilo de vida, isso também é uma seleção de genes poupadores”, explica.
O empresário Luciano Antoneli Ribeiro, de 39 anos, sofreu com sobrepeso desde a adolescência. Sempre esteve acima do peso e, conforme foi crescendo, o peso aumentava e a dificuldade para perder se tornava cada vez maior. Com aproximadamente 24 anos de idade, atingiu o maior peso de toda a sua vida: 145 quilos. “Eu estava em um peso muito elevado, na época, em 2010, estamos falando de 15, 16 anos atrás, eu me submeti à cirurgia bariátrica. Então, eu sou um paciente bariátrico, fiz a cirurgia e cheguei a pesar 100 quilos. Depois da cirurgia bariátrica eu perdi 45 quilos e passei a ter uma condição de vida melhor, mais saudável”, conta.
No entanto, sem mudanças de hábito, os resultados não permanecem. “Se você não tiver uma mudança de hábito alimentar, uma mudança saudável nos seus costumes, você volta a engordar. Não tão rápido como sem a bariátrica, mas volta. Assim eu atingi 126 quilos ao longo de todos esses anos. Então, mesmo eu perdendo 45 quilos com a bariátrica, eu voltei a engordar 26 quilos”, enaltece.
Segundo Larissa, a região do cérebro chamada hipotálamo é responsável por diversas funções inconscientes, como a regulação da temperatura corporal, a respiração e os batimentos cardíacos. Além dessas funções, essa parte do cérebro também regula o peso corporal.
De acordo com a médica endocrinologista Cíntia Aparecida Prestes de Barros, o corpo possui memória. “O corpo fica com a memória, ele sempre vai tentar voltar para o maior peso que a pessoa já atingiu”, pontua. Por isso, uma pessoa que já atingiu 150 quilos tem mais dificuldade de manter o peso do que alguém cujo maior peso já alcançado foi 80 quilos.
Portanto, a perda de peso é um processo dificultado. Muitas pessoas começam dieta e atividades físicas, perdem alguns quilos e, com um deslize, retornam ao peso inicial. “A gente tem um controle hormonal extremamente complexo manter esse peso máximo. Por isso que hoje a gente enxerga a obesidade como uma doença crônica. Ou seja, é algo que a gente tem esse 60% da população com sobrepeso e obesidade, não vai ser do dia para noite que vamos resolver isso”, observa Larissa.
Depois da bariátrica, Luciano perdeu 45 quilos, mas recuperou 26 quilos, atingindo 126 quilos, o que o levou a reflexões mais profundas e a buscar ajuda. “Eu tenho dois filhos, um de 13 anos e uma de 16 anos e eu perdi meu pai muito novo, com 53 anos, eu tenho certeza que se eu não mudasse os hábitos alimentares, o meu caminho seria o mesmo. Eu perdi o meu pai aos 13 anos e foi muito difícil para mim. Então, eu não gostaria que os meus filhos passassem pela mesma dor. Eu não gostaria que a minha esposa passasse o que a minha mãe passou. Minha mãe ficou viúva aos 38 anos, e a minha esposa tem 39. Então, mais do que me olhar no espelho e me sentir bem, eu saber que eu tenho pessoas que dependem de mim, que me amam, não seria justo da minha parte”, relata.
Luciano procurou ajuda médica e começou o tratamento com canetas emagrecedoras, com receita médica, laboratório adequado, dosagens controladas, acompanhamento nutricional e exercícios físicos. O tratamento começou em outubro de 2025. Em fevereiro de 2026, ele atingiu 82 quilos. No total, foram 44 quilos eliminados.
No entanto, com perdas de peso muito rápidas, o risco é a perda também de massa magra, ou seja, dos músculos. Segundo a especialista Larissa, “nosso corpo precisa de um tempo para se adaptar de forma saudável quando você perde peso. A grande preocupação que a gente tem hoje com o paciente que perde rápido é uma condição que se chama sarcopenia, que é a perda de massa muscular. Por isso que é importante o paciente ser orientado pelo endocrinologista, pelo nutricionista, a fazer atividade física. De preferência, quem estiver usando caneta, fazer musculação e entender a quantidade de proteína que tem que comer no dia”, informa.
Com a conquista da perda de peso, a academia nunca foi grande aliada de Luciano, mas ele aprendeu que é necessária, além de praticar outros esportes de que realmente gosta. “Eu nunca gostei do exercício físico, da musculação. Hoje, eu gosto de jogar futebol. Eu jogo três vezes por semana, faço treinos, mas na musculação eu não sou muito adepto. Porém, é uma coisa que os médicos têm falado, porque se você tiver um emagrecimento muito rápido, porque o Mounjaro proporciona um emagrecimento muito rápido, mas se você não tiver um acompanhamento médico e também um acompanhamento físico, com profissionais de educação física, você acaba tendo muita sobra, excesso de pele e perde muita massa magra, que acaba te causando fraqueza”, diz.
A medicação auxilia no processo, mas ainda há a luta com a alimentação correta, com os exercícios físicos e com a constância para atingir os resultados desejados. Mas, uma vez lá, são diversos benefícios. “Eu acho que a mudança de quando eu pesava acima dos 130 quilos foi a pressão alta, que é uma doença silenciosa e é um fator determinante para infarto. A minha pressão girava em torno de 17 por 14, 17 por 13. Hoje, minha pressão é 12 por 8. A pressão teve uma queda absurda, saiu de 17 por 12 para 12 por 8, que é uma pressão considerada normal. Tomava Losartana, não tomo mais. Não tenho mais as dores de cabeça, gordura no fígado. Colesterol era na faixa de 400, hoje também está normal”, compartilha.
Era para diabetes
As canetas emagrecedoras existem há alguns anos. O tratamento inicial era voltado para pessoas com diabetes. Segundo a médica Larissa, “o paciente diabético é um paciente muito difícil de tratar. A gente tinha poucas opções de medicação. Então, tinha lá algumas insulinas, alguns comprimidos e a gente precisa fazer com que o paciente diabético perca peso. E muitos dos medicamentos para diabetes, a própria insulina dá ganho de peso. Então, a gente precisava de alguma coisa que melhorasse a glicose e reduzisse o peso”.
Foram realizados estudos com o uso das canetas ao longo do tempo. “Os pacientes estavam fazendo modificação de estilo de vida, acompanhamento nutricional, atividade física regular, e aí foram testados versus placebo. Testou placebo num grupo e o remédio no outro. Sabemos que mesmo super motivados, fazendo atividade física regular, controle nutricional, a perda de peso no grupo que injeta placebo é tipo 3%. E no grupo tratamento, dependendo da medicação chega a perder 15%, 17% de peso, até 23% de peso. A medicação atua lá no hipotálamo. Então, não é que a caneta emagrecedora é um tratamento, mas se o paciente não estiver fazendo atividade física, controle alimentar, não temos dados sobre quanto é possível perder de peso”, explica a endocrinologista.
Anvisa alerta sobre riscos
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de farmacovigilância, em fevereiro, para ressaltar os riscos do uso indevido de medicamentos agonistas do receptor GLP-1 ù classe que inclui a dulaglutida, a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida. Nas bulas desses medicamentos já consta o risco de pancreatite aguda, mas os casos têm aumentado.
Segundo o órgão, a utilização deve ocorrer mediante receita médica e acompanhamento profissional.
Segundo a médica Cíntia, “o risco de pancreatite a gente já sabe desde os primeiros GLP-1 que aconteceram. Pancreatite é uma doença grave, a gente trata em UTI, mas também é super raro. Mas quando a gente assina uma receita, é um documento falando que o paciente pode, se ele tiver qualquer efeito colateral, qualquer complicação do tratamento, é a gente que vai manejar isso. Então, assim, tá banalizado isso, mas o médico sempre vai ser o responsável”, destaca.
Outro risco são os medicamentos sem receita médica e falsificados. “O que está acontecendo é que tem muita gente que está tomando aleatório. Vai saber o que está usando, que também tem muita falsificação, a gente sabe”, diz Cíntia.
Larissa reforça os riscos. “Acho muito importante falar sobre essa questão dessas medicações que são frutos de contrabando, que não têm registro no Brasil. Essas medicações paraguaias, ou mesmo manipuladas, ou de fonte desconhecida, que a gente vê, parece que virou festa. Isso é caracterizado como um crime contra a saúde pública, previsto isso no Código Penal”, observa.
Utilizar medicamentos sem conhecer a procedência representa risco à saúde. “Não sei se essa informação não chega ou, se as pessoas são muito inocentes de achar que tudo bem injetar um medicamento que você não tem noção nenhuma da procedência. E no consultório, como eu trabalho muito com obesidade, acabo pegando casos graves. Eu atendi um caso gravíssimo de uma menina jovem que acreditou que tudo bem, que ofereceram pra ela. Ela foi usar um medicamento manipulado e ficou internada por mais de 15 dias. Fez um quadro gravíssimo por conta de medicamento falsificado”, descreve Larissa.
Os medicamentos utilizados nesses tratamentos precisam de refrigeração e podem sofrer alterações com manejo e armazenamento inadequados. Por isso, é necessária a utilização consciente e responsável, sempre com acompanhamento médico e com procedência garantida do produto.
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