Dia Internacional da Mulher
Os caminhos que levam ao empreendedorismo feminino
Em Sorocaba, quatro empreendedoras transformaram dificuldades pessoais em oportunidades e construíram histórias de autonomia e superação
Desemprego, maternidade, violência doméstica, jornadas exaustivas e recomeços inesperados. Para muitas mulheres, abrir o próprio negócio não começa com um plano estruturado, mas com a necessidade de seguir em frente. Em Sorocaba, quatro empreendedoras transformaram dificuldades pessoais em oportunidades e construíram histórias de autonomia e superação — trajetórias que ganham ainda mais significado às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março.
O caminho para o empreendedorismo raramente foi simples. Entre incertezas financeiras, responsabilidades familiares e a busca por independência, cada uma delas encontrou na própria força a motivação para começar — muitas vezes dentro da própria casa.
Recomeço após a demissão
A história de Margarete Corrêa de Araújo começou em um momento de profunda instabilidade. Após anos trabalhando em uma empresa de estacionamento em Sorocaba, onde chegou a ocupar cargos de confiança e cumprir jornadas exaustivas, ela foi demitida pouco depois de assumir o financiamento da própria casa.
Responsável pelo sustento da família e mãe de dois filhos na época, Margarete enfrentou um período de desespero diante da incerteza sobre como pagaria as contas e manteria a estabilidade da casa.
Foi nesse cenário que decidiu apostar em uma habilidade que vinha desde a infância: a culinária. Filha de cozinheira, começou a estudar e aperfeiçoar receitas de massas artesanais. Antes de vender os produtos, fazia testes em casa. Produzia as receitas e chamava as vizinhas para provar. “Eu fazia e chamava as vizinhas para comer e dar opinião. Assim fui acertando o ponto da massa”, lembra.
Com o tempo, formalizou um pequeno negócio e chegou a abrir um espaço para vender massas, pães e assados. A pandemia, no entanto, obrigou o fechamento do ponto físico. Hoje, ela continua produzindo sob encomenda e estuda gastronomia para ampliar o cardápio.
A meta agora é recomeçar novamente. “Empreender exige foco, persistência e vontade. Você precisa se reinventar o tempo todo”, diz a dona da Massaria Manjericão Massas e Molhos.
A beleza como forma de reconstrução
Para Thaís da Silva Ferreira, empreender também foi uma forma de reconstruir a própria vida. Ela saiu da cidade natal em busca de oportunidades e chegou a enfrentar situações extremas para se manter em São Paulo, como abrir mão de refeições para garantir dinheiro para o transporte até o trabalho.
Começou como recepcionista em um salão de beleza e, observando o trabalho dos profissionais, decidiu se arriscar na área. Tornou-se auxiliar de cabeleireiro e passou a se dedicar ao universo da beleza.
A maior dificuldade, porém, viria na vida pessoal. Thaís enfrentou um relacionamento marcado por violência psicológica e doméstica e precisou se separar. Sem apoio familiar naquele momento, acabou se afastando do filho temporariamente. “Foi um balde de água fria”, recorda. A vontade de reconstruir a vida e manter o vínculo com o filho motivou uma nova decisão: montar um pequeno espaço de atendimento dentro da própria casa. Assim poderia organizar os horários de trabalho e continuar viajando para vê-lo.
Com o tempo, o atendimento personalizado se tornou o diferencial e virou "Studio Thaís Hairdresser". “Percebi que o que muitas mulheres querem é ser ouvidas e respeitadas.” Hoje, ela vê o trabalho como uma forma de transformar autoestima e confiança. “A beleza muda o emocional das pessoas. Quando a cliente se olha no espelho e sorri, aquilo muda o dia dela.”
O negócio que nasceu com a maternidade
A maternidade também foi o ponto de virada para Nathália Freitas, de 35 anos. Após perder o emprego e descobrir a gravidez, ela decidiu buscar uma alternativa para trabalhar de casa e acompanhar o crescimento do filho.
A ideia começou de forma simples: preparar pães caseiros para consumo próprio e dividir com vizinhas. Foi uma delas quem sugeriu que Nathália começasse a vender.
O primeiro produto comercializado foi justamente o pão caseiro tradicional que continua sendo o mais procurado pelos clientes até hoje. As vendas cresceram principalmente por indicação. “Um cliente indicava para outro, que indicava para outro”, conta. Trabalhando sozinha, Nathália enfrentou desafios para conciliar produção, maternidade e tarefas domésticas. Em alguns momentos pensou em voltar ao emprego formal pela segurança financeira.
Mas a liberdade conquistada pesou na decisão. Hoje o "Caseiros da Nathy" trabalha apenas com encomendas, ajustando a produção à rotina da casa e à criação do filho. Após nove anos empreendendo, planeja dar um novo passo: abrir um café no futuro.
Da cozinha de casa a duas cozinhas industriais
O empreendedorismo de Aline Tavares, de 36 anos, começou quase por acaso. Formada em Direito, ela buscava uma renda extra quando recebeu da mãe uma sugestão: produzir doces para serem vendidos em festas organizadas pelo buffet da família.
Sem experiência na confeitaria, começou aprendendo pela internet. Testava receitas, aperfeiçoava técnicas e produzia os doces em casa.
O que começou como complemento de renda acabou se tornando um negócio em crescimento. Durante anos, Aline conciliou três rotinas: trabalho administrativo durante o dia, produção de doces à noite e a vida familiar.
O ponto de virada veio quando percebeu que a confeitaria já rendia mais que o salário formal. Hoje, o negócio cresceu a ponto de transformar a própria casa. A família construiu duas cozinhas industriais no imóvel para atender a demanda crescente de pedidos.
O "Brigadeiros Gourmet" se tornou o carro-chefe e o nome da empresa, que atende encomendas diárias, inclusive de última hora. Além da produção, Aline também passou a ensinar outras confeiteiras por meio de cursos e conteúdos nas redes sociais. “Tudo pode começar na cozinha da sua casa. O que faz a diferença é dedicação, constância e acreditar no que você está construindo.”
Apesar das trajetórias distintas, as quatro histórias compartilham um ponto em comum: o empreendedorismo surgiu, em grande parte, como resposta a momentos difíceis. Entre demissões inesperadas, maternidade, violência doméstica ou instabilidade financeira, essas mulheres encontraram no próprio trabalho uma forma de reconstruir caminhos.
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