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Pneu e asfalto

Chuva e calor elevam risco de aquaplanagem nas rodovias

Polícia Rodoviária aponta combinação de pista molhada, velocidade inadequada e pneus desgastados como fatores determinantes em acidentes

24 de Fevereiro de 2026 às 21:10
Murilo Aguiar [email protected]
Estado da pista também interfere no perigo e permite 
identificar pontos com maior probabilidade de perda de aderência
Estado da pista também interfere no perigo e permite identificar pontos com maior probabilidade de perda de aderência (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO)

O aumento de chuva e das temperaturas é uma combinação que altera as condições das rodovias e eleva o número de ocorrências relacionadas à perda de contato entre pneu e asfalto. A aquaplanagem — fenômeno em que a lâmina de água impede a aderência do veículo à pista — aparece com frequência nos atendimentos da Polícia Militar Rodoviária do Estado de São Paulo e integra o conjunto de fatores analisados em sinistros de trânsito.

Um caso recente na Rodovia Raposo Tavares, em Sorocaba, reforçou o alerta. Um carro capotou no quilômetro 84 após passar por um trecho com água acumulada durante chuva. Segundo relato do motorista às autoridades, o veículo perdeu aderência, saiu da faixa, atingiu um barranco e, na sequência, a defensa metálica. Três ocupantes do banco traseiro foram lançados para fora do veículo; dois morreram no local e um foi socorrido pelo helicóptero Águia, da Polícia Militar.

A Polícia Militar Rodoviária informa que, em períodos chuvosos, os registros mais comuns envolvem saída de pista, colisão traseira, capotamento e choque contra estrutura fixa. Já em fases de temperatura elevada, aumentam as ocorrências por falha mecânica, com destaque para problemas em pneus e sistemas do veículo.

Segundo o capitão Alexandre Teruel de Melo, comandante da 1ª Companhia do 5º Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv), em Sorocaba, a aquaplanagem não deve ser analisada de forma isolada nas estatísticas. “Quando a equipe analisa os atendimentos, o que aparece é um conjunto de fatores: velocidade acima do que a pista permite naquele momento, pneu sem condição de uso e decisão incorreta do condutor. A perda de contato com o solo vem como efeito disso”, afirma.

Ele explica que não existe uma velocidade fixa que garanta o controle do veículo sob chuva. “O limite da via é uma referência para pista seca. Com água, o motorista precisa ler o cenário: volume de água, visibilidade e distância entre veículos. A condução precisa mudar”, ressalta, destacando que pequenos detalhes fazem diferença em situações de risco.

De acordo com o oficial, o estado da pista também interfere diretamente no perigo e permite identificar pontos com maior probabilidade de perda de aderência. “Desgaste do asfalto, falhas de drenagem e formação de poças aumentam a lâmina de água. O motorista consegue identificar trechos com mais risco ao observar brilho excessivo no pavimento, acúmulo recorrente de água e pontos de curva ou sombra”, declara.

Entre os comportamentos mais registrados em dias de chuva estão manter o padrão de velocidade de pista seca, não ampliar a distância de segurança, realizar frenagens bruscas e trocar de faixa com movimentos rápidos. A corporação também alerta para o uso incorreto do pisca-alerta. “Muita gente liga o alerta com o veículo em movimento durante a chuva, o que não é previsto para essa situação. O alerta é para emergência ou veículo parado. Em deslocamento, o correto é manter o farol baixo aceso”, ensina Teruel.

O capitão detalha ainda o procedimento recomendado em caso de aquaplanagem. “A orientação é retirar o pé do acelerador, manter o volante estável e evitar frear bruscamente. É preciso aguardar o pneu retomar o contato com o solo. Depois disso, a velocidade deve ser reduzida ainda mais”, explica.

Além das orientações de condução, a Polícia Militar Rodoviária recomenda medidas preventivas, como revisão de pneus e limpadores, verificação de freios e iluminação, aumento da distância entre veículos, uso de farol baixo e planejamento da viagem conforme as condições climáticas.

Na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), um ponto citado por motoristas é um trecho da Rodovia da Convenção, em Salto. Em dias de chuva, o segmento no bairro Salto de São José, nas proximidades de um atacadista, registra acúmulo de água sobre a pista, o que interfere na condução dos veículos.

Procurado, o Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo (DER-SP) informou, em nota, que monitora as condições do pavimento e o escoamento de águas pluviais na

SP-079 por meio de vistorias técnicas periódicas e que uma nova inspeção no trecho citado está prevista para os próximos dias.

O órgão acrescentou que, por meio de contrato de conservação de rotina, equipes executam serviços de recuperação de pavimento, limpeza de áreas lindeiras e reforço da sinalização. O DER-SP orienta motoristas a reduzir a velocidade em dias de chuva, ampliar a distância do veículo à frente, manter o farol baixo aceso e respeitar a sinalização.

Dificuldades

Quem dirige profissionalmente relata mudança de procedimento em dias de pista molhada. O motorista de aplicativo Carlos Eduardo Menezes, que circula diariamente entre bairros e acessos rodoviários, afirma que a adaptação passou a fazer parte da rotina. “Depois que senti o carro perder resposta ao passar por água na pista, mudei o jeito de dirigir na chuva. Reduzo antes de trechos onde costuma acumular água e evito qualquer manobra brusca”, diz.

Ele também ampliou a distância de seguimento. “Se na pista seca trabalho com um espaço menor, na chuva eu aumento. Isso evita precisar frear bruscamente quando o carro da frente reduz”, relata. Carlos Eduardo já enfrentou uma situação de aquaplanagem, mas conseguiu retomar o controle do veículo sem se envolver em acidente.

No transporte de cargas fracionadas, o ajuste atinge o planejamento das rotas. O motorista de van Roberto Alves, 49 anos, afirma que o cronograma sofre alterações sempre que há chuva no trajeto. “Quando o volume de água aumenta, recalculo o tempo de entrega e a ordem das paradas. Não mantenho a mesma velocidade de pista seca e evito faixas onde a água fica acumulada”, explica.

Segundo ele, a checagem do veículo se tornou prioridade antes das saídas. “Conferir pneus, limpadores e luzes virou regra antes de rodar. Pneu desgastado facilita a perda de contato quando encontra lâmina de água”, afirma. Para Roberto, esses detalhes fazem diferença e podem evitar acidentes.

Para a Polícia Militar Rodoviária, a combinação entre condição da pista, estado do veículo e decisão do condutor define o risco em períodos de chuva e calor. A orientação é clara: adaptar a condução ao cenário encontrado na rodovia é fundamental para reduzir as chances de perda de controle.