Acidentes
Sorocaba registra 112 mortes no trânsito em 12 meses
Em um ano, município tem a quarta maior taxa proporcional de São Paulo, mesmo com queda nos óbitos em janeiro
Sorocaba registrou 112 mortes no trânsito nos últimos 12 meses, o que representa uma taxa de 15,07 óbitos por 100 mil habitantes — a quarta maior proporcional do São Paulo, segundo dados do Infosiga. Apesar da redução de 27% nas mortes em janeiro deste ano, quando foram contabilizados oito óbitos, contra 11 no mesmo mês de 2025, o cenário ainda é considerado preocupante por especialistas.
Na Região Administrativa de Sorocaba, a queda foi de 38,1% em janeiro: 26 mortes, frente a 42 no mesmo período do ano passado. Ainda assim, no acumulado de 12 meses, o município permanece entre as maiores taxas proporcionais do Estado.
Para o arquiteto e urbanista Tiago da Guia Oliveira, especialista em gestão de cidades, os números refletem um problema estrutural. “Esses dados demonstram uma situação alarmante no tocante à mobilidade urbana e exigem medidas emergenciais para mitigar a mortalidade no trânsito”, afirma.
Segundo ele, a forma como Sorocaba cresceu nas últimas décadas influencia diretamente o cenário atual. O especialista aponta que o município passou por um processo de expansão horizontal, com espraiamento urbano e dependência crescente do transporte motorizado, sem reordenamento modal. “Quando a cidade se estrutura de forma que a população depende do carro ou da motocicleta para praticamente todos os deslocamentos, a pressão sobre o sistema viário aumenta significativamente”, explica.
Ele observa que, ao mesmo tempo em que houve incentivo ao adensamento construtivo em determinadas regiões, como previsto no Plano Diretor de 2014, o sistema de transporte coletivo permaneceu concentrado no modelo rodoviário, o que ampliou o volume de veículos em áreas que não foram originalmente projetadas para alta densidade.
Regiões como o Campolim, segundo o urbanista, ilustram esse processo, com aumento progressivo do fluxo e formação de pontos de estrangulamento nos horários de pico. Por isso, acrescenta, medidas estruturais de desenho urbano podem contribuir para a redução de mortes.
Tiago da Guia cita estratégias como traffic calming e urbanismo tático — intervenções que reorganizam o espaço viário com foco na redução de velocidade, ampliação de calçadas, melhoria da visibilidade e priorização do pedestre. “São intervenções de baixo custo, que utilizam elementos físicos e visuais para induzir comportamento mais seguro, sem depender exclusivamente de radares ou lombadas”, afirma.
Segundo ele, experiências internacionais demonstram que ajustes no desenho das vias, arborização adequada, melhor iluminação e reorganização de fluxos podem impactar diretamente a segurança viária.
Modelo de mobilidade
Para o arquiteto, o fato de Sorocaba estar entre as maiores taxas proporcionais do Estado indica a necessidade de revisão do modelo de mobilidade adotado. “Os pontos de estrangulamento e a elevada taxa de mortalidade mostram a urgência de repensar o modelo de conexão modal, a acessibilidade das calçadas e as possibilidades de integração entre diferentes meios de transporte”, diz.
Ele acrescenta que o ambiente urbano também influencia o comportamento das pessoas no trânsito. Deslocamentos longos, congestionamentos frequentes e excesso de veículos podem aumentar o estresse e favorecer decisões impulsivas ao volante.
Embora ressalte que a responsabilidade individual no respeito às normas de trânsito seja fundamental, o especialista defende que planejamento urbano e segurança viária devem caminhar de forma integrada.
Enquanto isso, a Prefeitura de Sorocaba afirma manter atuação contínua em fiscalização, engenharia de tráfego e educação para o trânsito, com expectativa de redução dos acidentes.
Programa estadual e adesão ao Sistran
Sorocaba ficou fora da primeira fase do Programa Respeito à Vida (PRaVida), iniciativa do Detran-SP voltada à redução de mortes no trânsito por meio de ações integradas de engenharia, educação e fiscalização.
O Detran informou que o processo seletivo segue critérios técnicos definidos em edital público e prioriza municípios com maiores taxas de óbitos por habitante, considerando a média de 2022 a 2024. Segundo o órgão, cidades que não constaram nesta etapa não efetuaram manifestação no período regulamentar ou não atenderam às exigências estabelecidas.
Após a divulgação da lista, a Prefeitura de Sorocaba informou que assinou, na sexta-feira (20), o termo de adesão ao Sistema Estadual de Trânsito de São Paulo (Sistran) e recebeu confirmação de habilitação. Com isso, o município passa a estar apto a prosseguir com os trâmites para participação em ciclos futuros do PRaVida. O programa integra o Plano de Segurança Viária do Estado de São Paulo, que tem como meta reduzir em 50% as mortes e lesões no trânsito até 2030.
Fiscalização e pontos críticos
De acordo com a Secretaria de Mobilidade (Semob), Sorocaba conta atualmente com 160 equipamentos ativos de fiscalização eletrônica de velocidade. Em 2025, foram registradas 120.352 autuações por excesso de velocidade. Em janeiro deste ano, foram 13.417 infrações — a maioria na faixa de até 20% acima do limite permitido. O município possui cerca de 80 agentes de trânsito em atividade e prepara concurso público para ampliar o efetivo.
As vias com maior número de registros de acidentes entre janeiro e outubro de 2025 foram a avenida Itavuvu (112 casos), avenida Ipanema (111) e avenida Dom Aguirre (75), todas monitoradas por radar e câmeras, segundo a prefeitura. (J.F.)