Buscar no Cruzeiro

Buscar

Conflitos

Projeto leva técnicas de conciliação para 32 escolas

Iniciativa da Justiça começa a ser implantada em Sorocaba e aposta na mediação como ferramenta de resolução de conflitos

19 de Fevereiro de 2026 às 21:00
João Frizo [email protected]
Metodologia é baseada em 12 ferramentas de conciliação e mediação, aplicadas 
de forma lúdica às crianças; professores municipais e gestores terão a formação
Metodologia é baseada em 12 ferramentas de conciliação e mediação, aplicadas de forma lúdica às crianças; professores municipais e gestores terão a formação (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO)

Em um cenário em que conflitos fazem parte da rotina escolar e refletem desafios mais amplos da convivência em sociedade, iniciativas que estimulam o diálogo e a escuta ganham espaço como ferramentas educativas. Em Sorocaba, uma proposta voltada à mediação de conflitos entre crianças começou a ser implantada na rede municipal de ensino, com foco na formação de uma cultura de conciliação desde os primeiros anos escolares.

O projeto “De Pequeno É que se Aprende a Conciliar”, idealizado pela conciliadora Rosane Sanches Antunes, foi premiado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como prática de destaque. A iniciativa reúne o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) - Subseção de Sorocaba e a Prefeitura de Sorocaba, e já conta com a adesão de 32 escolas municipais do Ensino Fundamental.

Nesta primeira etapa, diretores, vice-diretores e orientadores pedagógicos das 32 escolas que aderiram voluntariamente ao projeto participam da capacitação. Eles atuarão como multiplicadores nas unidades.

A advogada Fabiana Guilherme, presidente da Comissão OAB Vai à Escola, explica que o projeto já foi aplicado anteriormente em Itaquaquecetuba. “Esse projeto já teve aplicação em Itaquaquecetuba, onde conseguiram verificar que o conflito nas escolas diminuiu significativamente.”

Segundo ela, a metodologia é baseada em 12 ferramentas de conciliação e mediação, aplicadas de forma lúdica às crianças. “O projeto visa levar ferramentas de conciliação e mediação para que as crianças desenvolvam habilidades socioemocionais e capacidade de resolução de conflito.” A implementação ocorre em etapas: primeiro a formação dos gestores e professores, para depois chegar aos alunos.

Crianças como protagonistas da mediação

O juiz federal Luiz Antônio Zanluca, do Juizado Especial Federal em Sorocaba, afirma que o objetivo é estimular o diálogo desde a infância. “Ensina a criança não apenas a ouvir, mas a escutar o outro.”

De acordo com ele, o diferencial do projeto é colocar os próprios alunos como agentes da resolução de conflitos. “As próprias crianças é que vão resolver os conflitos. Não é o professor.”

Nas salas participantes, os estudantes elegem um colega conciliador, responsável por auxiliar na mediação dos desentendimentos.

Zanluca destaca que a aprendizagem pode ultrapassar os muros da escola. “Isso não serve apenas para a sala de aula, vai servir para o futuro da criança, em todas as relações que ela tiver.”

Ele citou ainda relatos da experiência anterior. “Há relatos de criança que aprendeu a conciliar na escola e conseguiu reconciliar os pais no Natal. É algo que muda a vida.”

Sorocaba é o segundo município a receber o projeto. A proposta, segundo o magistrado, pode ser levada a outras cidades da jurisdição federal, como Itapetininga, Tatuí, Votorantim, Tapiraí e Itu.

Articulação institucional

A implantação em Sorocaba contou com articulação da OAB local. O presidente da subseção, João Paulo Milano da Silva, afirmou que a entidade atuou como ponte entre o Judiciário e o município. “A OAB tem funcionado como ponte entre o Poder Judiciário e o Poder Público Municipal.”

Para ele, a iniciativa surge em um contexto de intolerância social. “Estamos vivendo um momento de grande intolerância. A ideia é plantar uma semente para as novas gerações.”
Em nota, a Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria da Educação (Sedu), informou que o projeto é uma iniciativa da OAB e que não há custos ao Poder Público Municipal. A pasta destacou que o acompanhamento será feito pela equipe da rede de proteção da educação, recém-implantada, responsável por sistematizar instrumentos de avaliação.

Sobre casos de bullying e conflitos escolares, a Sedu informou que os registros são feitos pelas unidades escolares e que apenas situações mais críticas são encaminhadas à Secretaria, correndo em sigilo por envolver menores de idade.