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Acidentes domésticos

Dentro de casa, o perigo mora nos detalhes

Casos recentes em Sorocaba e região reforçam riscos que atingem principalmente crianças e idosos

24 de Janeiro de 2026 às 18:30
Cruzeiro do Sul [email protected]
Produtos de limpeza coloridos, perfumados e visualmente atrativos são um convite à curiosidade infantil
Produtos de limpeza coloridos, perfumados e visualmente atrativos são um convite à curiosidade infantil (Crédito: DIVULGAÇÃO)


Uma sequência de ocorrências recentes na região reforça um risco que, muitas vezes, passa despercebido no dia a dia. Em dezembro do ano passado, um incêndio em um apartamento no Jardim Itanguá, em Sorocaba, deixou sete pessoas feridas — quatro com queimaduras e três por inalação de fumaça. Em novembro de 2024, um recém-nascido de 11 dias precisou ser salvo após se engasgar com leite, também em Sorocaba. Já em janeiro deste ano, um incêndio atingiu uma residência em Mairinque, na Vila Sorocabana, mobilizando equipes de emergência e deixando famílias desalojadas.

Casos como esses chamam atenção, mas não são exceção. Acidentes domésticos — que vão de quedas a intoxicações, de queimaduras a engasgos — acontecem com frequência dentro de casa e atingem, principalmente, crianças e idosos, considerados os grupos mais vulneráveis. Para orientar famílias e cuidadores, especialistas ouvidos pelo Cruzeiro do Sul explicam quais situações são mais comuns, por que ocorrem e quais medidas simples ajudam a reduzir os riscos.

O pediatra e onco-hematologista infantil André Viu Matheus, diretor clínico do Hospital Gpaci, lembra que o período de férias altera a rotina familiar e aumenta o risco de acidentes. “A criança acorda com muita energia e passa o dia inteiro procurando o que fazer. Quanto mais difícil ou perigosa é a situação, mais aquilo chama a atenção dela”, explica.

Quando há visitas de primos e outras crianças, a movimentação aumenta e a vigilância, muitas vezes, se torna mais difícil. Entre os acidentes domésticos mais comuns nesse período, o médico cita quedas, com risco de traumatismo craniano; intoxicações por produtos de limpeza e medicamentos; afogamentos; e queimaduras, especialmente na cozinha e em churrasqueiras. “São situações que, na maioria das vezes, poderiam ser evitadas com medidas simples e supervisão constante”, destaca. Segundo ele, a prevenção passa pela criação de barreiras físicas, organização da casa e atenção redobrada dos adultos durante as atividades das crianças.

Engasgos

Para o pediatra André Viu Matheus, dois gatilhos aparecem com frequência nos casos de engasgo: peças pequenas, como partes de brinquedos que se soltam, e alimentos capazes de obstruir as vias aéreas. “A criança experimenta o mundo pela boca. Tudo o que desperta curiosidade, a primeira reação é colocar na boca”, atesta. Por isso, qualquer objeto que caiba na boca exige atenção redobrada.

O médico alerta especialmente para alimentos como uva e azeitona em crianças pequenas, sobretudo abaixo dos dois anos, devido ao alto risco de aspiração. Outro item que costuma passar despercebido são as baterias tipo moeda e pilhas pequenas. “Se ingeridas, exigem retirada urgente, geralmente por endoscopia, porque podem causar lesões graves no trato digestivo”, ressalta.

Intoxicação

Produtos de limpeza coloridos, perfumados e visualmente atrativos — assim como medicamentos que lembram balas — são um convite à curiosidade infantil. A recomendação do pediatra é clara. “Esses produtos precisam ficar trancados, de preferência com chave. Apenas colocar em local alto não resolve, porque a criança sobe em cadeira, mesa e até na pia para alcançar o que quer”, alerta.

Em caso de intoxicação, o médico orienta que não se provoque vômito em casa. “Sem saber qual substância foi ingerida, induzir o vômito pode agravar as lesões, principalmente se for um produto corrosivo, como soda cáustica”. Ele também desaconselha o uso de leite ou receitas caseiras. A conduta mais segura é levar a criança imediatamente a uma unidade de saúde para avaliação médica.

Quedas e queimaduras

Dentro de casa, alguns cenários se repetem: pisos lisos e molhados, camas altas, sofás usados como trampolim, quinas de móveis e o uso de bicicleta, patinete e patins sem supervisão adequada. Para reduzir os riscos, o pediatra recomenda medidas simples, como o uso de protetores de quina, evitar pisos escorregadios e manter vigilância constante. “As quedas podem provocar traumatismos graves, principalmente na cabeça”, ressalta.

Na cozinha, um erro comum é deixar o cabo da panela voltado para fora do fogão. “A criança puxa o cabo ou esbarra e acaba derrubando o conteúdo quente sobre o corpo”, explica. A orientação é manter os cabos sempre voltados para dentro. Criança na cozinha, segundo o médico, apenas com supervisão de um adulto.

Em churrasqueiras, o risco aumenta com a presença de fogo e álcool. “A chama desperta a atenção da criança, que não consegue dimensionar o perigo”, destaca. Até durante o banho é preciso cuidado: água muito quente pode causar queimaduras, inclusive no couro cabeludo, especialmente se o chuveiro tiver sido deixado em temperatura elevada.

Idosos

Se para as crianças o risco cresce com a curiosidade e a falta de noção do perigo, entre os idosos ele aumenta devido a limitações de equilíbrio, visão, força e reflexos. A professora da Faculda de Medicina Afya Vitória, Karoline Fiorotti, afirma que as quedas são o principal acidente doméstico nessa faixa etária. “Elas são responsáveis pela maior parte das fraturas em idosos e estão entre as principais causas de internação e perda de autonomia.”

Segundo a especialista, as consequências vão além das lesões físicas. “Após uma queda, muitos idosos passam a depender de ajuda para atividades básicas, o que pode gerar isolamento social, tristeza e até quadros de depressão”, destaca.

Além das quedas, a geriatra aponta outros acidentes frequentes, como queimaduras, sobretudo na cozinha, intoxicação por medicamentos, causada por erro de dose ou confusão de horários, cortes e ferimentos no manuseio de objetos perfurocortantes, engasgos e choques elétricos provocados por fios expostos ou instalações inadequadas.

Os vilões dentro de casa

Segundo Karoline Fiorotti, alguns ambientes concentram riscos importantes para os idosos, especialmente o banheiro. “Piso liso e molhado, ausência de barras de apoio, banheiras altas e a falta de tapetes antiderrapantes aumentam muito o risco de quedas”, explica.

Ela alerta ainda para tapetes soltos ou com bordas levantadas, que funcionam como verdadeiras armadilhas, e para as escadas, onde a combinação de falta de corrimão, degraus irregulares e pouca iluminação eleva significativamente o perigo. “Móveis instáveis no caminho e fios soltos pelo chão completam esse mapa de risco dentro de casa”, conclui a especialista. (João Frizo)

 

 

Adaptações simples que evitam acidentes graves

 

A geriatra Karoline Fiorotti destaca que pequenas mudanças no ambiente doméstico podem reduzir de forma significativa o risco de acidentes envolvendo idosos. “Instalar barras de apoio no banheiro, usar tapetes antiderrapantes ou, de preferência, eliminá-los, além de garantir boa iluminação, faz muita diferença na prevenção de quedas”, afirma.

Ela recomenda reforçar a iluminação nos ambientes mais utilizados, incluindo luz noturna no trajeto até o banheiro, além da instalação de corrimãos em escadas e corredores. “Eliminar desníveis e obstáculos no chão e ajustar a altura de cadeiras e camas facilita o sentar e levantar, reduzindo o risco de desequilíbrio”.

Outro ponto importante, segundo a especialista, é a organização da rotina. “Os objetos de uso comum precisam estar sempre ao alcance do idoso, para evitar que ele suba em cadeiras ou bancos”, orienta. A geriatra também ressalta a importância de organizar os medicamentos em dosadores semanais, o que ajuda a evitar confusão de horários e erros de dose.

Um detalhe fundamental é garantir que o idoso consiga pedir ajuda em caso de necessidade. Manter um telefone ou dispositivo de chamada de emergência sempre ao alcance, especialmente durante a noite, pode ser decisivo para reduzir complicações após um acidente.

Os especialistas reforçam que, em algumas situações, não é hora de “esperar para ver”. No caso das crianças, o pediatra André Viu Matheus orienta procurar atendimento urgente ou acionar o Samu sempre que houver sinais de gravidade. “Quedas com desmaio, perda de consciência, alteração da marcha ou dificuldade respiratória exigem avaliação imediata”, diz. Segundo ele, dor persistente e intensa em algum membro também não deve ser ignorada.

Nos casos de intoxicação, o pediatra é categórico. “A criança precisa ser avaliada por um médico, porque a gravidade depende do tipo de substância ingerida e da quantidade. A família não tem como saber se é grave ou não”, explica. Em situações de afogamento, a conduta deve ser imediata. “Afogamento geralmente é grave. O correto é chamar o Samu na hora”, orienta. O médico também inclui mordeduras de cães entre os casos que devem ser encaminhados ao pronto-socorro, para avaliação do ferimento e da necessidade de vacinação.

Para os idosos, a geriatra Karoline Fiorotti recomenda buscar atendimento médico imediato após quedas com perda de consciência, confusão mental ou suspeita de trauma craniano. “Dor intensa, especialmente em quadril e coluna, incapacidade de movimentar um membro ou sangramentos que não cessam com compressão são sinais de alerta”.

Ela acrescenta que dificuldade respiratória, dor no peito, queimaduras extensas ou profundas e suspeita de intoxicação ou overdose medicamentosa também exigem atendimento de urgência. “Sinais de AVC, como assimetria facial, dificuldade para falar ou fraqueza súbita, são emergência médica e precisam de socorro imediato”, reforça.

Prevenção é rotina

Apesar de os acidentes domésticos chamarem atenção quando ganham repercussão, eles geralmente nascem de pequenas distrações: uma porta destrancada, o cabo da panela voltado para fora, um medicamento deixado sobre a mesa ou um tapete sem antiderrapante. O caminho, segundo os especialistas, é transformar a prevenção em hábito — organizar a casa com foco na redução de riscos, adaptar os ambientes e manter supervisão compatível com a fase da criança e as condições de saúde do idoso. (J.F.)

 

 

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