Feminicídio
Risco começa antes da agressão: violência contra a mulher em Sorocaba
"Basta que a vítima se sinta em risco", afirma a delegada Renata Zanin
Em poucos dias, 2026 já igualou o número de feminicídios registrados até novembro de 2025 em Sorocaba. Foram três casos neste ano, todos cometidos com arma branca. Em 2025, dois dos crimes também ocorreram com objetos cortantes, e o outro com arma de fogo.
No Brasil, o ano de 2025 registrou cerca de 1.197 feminicídios, além de 1.815 homicídios. O Mapa Nacional da Violência de Gênero aponta que, ao longo do último ano, quatro mulheres foram assassinadas por dia no País, em sua maioria por parceiros ou ex-parceiros.
Os relatos de agressões e os pedidos de medidas protetivas acontecem diariamente. Durante parte da tarde de terça-feira (20), a reportagem esteve na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e acompanhou a chegada contínua de mulheres em busca de atendimento.
A delegada Renata Zanin, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), afirmou que o número de pedidos de medidas protetivas é alto. “Está constante. Sofre oscilações, mas, ao longo do ano, não vemos nada muito discrepante. É importante ressaltar que se trata de uma impressão minha, da DDM de Sorocaba”.
No fim de 2025, a cidade de Sorocaba recebeu 250 tornozeleiras eletrônicas. O primeiro uso foi registrado na segunda-feira (19), em um caso de violência doméstica. O foco, em Sorocaba, para a utilização do equipamento são os casos de violência contra a mulher. No entanto, as tornozeleiras também podem ser usadas, ocasionalmente, em outros crimes.
Renata explica: “a vítima vai receber um aparelhinho. A partir daí, conseguimos identificar tanto onde ela está quanto onde o acusado está. Conseguimos identificar a quebra da medida quando ele ultrapassa o limite prefixado pelo juiz”.
Ainda de acordo com a delegada, a tornozeleira emite avisos, por som ou vibração, quando a distância determinada não é respeitada. Ao perceber o alerta, o usuário deve se afastar imediatamente.
Sobre os casos violentos registrados no início do ano, a delegada afirma que um dos possíveis motivos são as pressões advindas das festas de fim de ano, como contas, falta de dinheiro e outros problemas comuns desse período.
“Podemos suspeitar de questões relacionadas ao fim de ano, quando as pessoas estão mais cansadas e ansiosas. É um momento de compras, de gastos, e às vezes esse dinheiro não existe. Muitas festas e comemorações também elevam o consumo de bebida alcoólica, que é comprovadamente um fator que torna as pessoas mais agressivas”.
Em 2025, até novembro, além das três mortes registradas, houve oito tentativas de feminicídio. Em três casos, a arma utilizada foi um objeto cortante, como facas. Em outros três, foram usados objetos contundentes, que causam lesão, mas não cortam. Em um caso, foi utilizada força física e, no último, as consequências de um incêndio criminoso.
A psicóloga Ariane Teixeira Toubia explica que o uso de facas pode ser explicado pela praticidade. “Todas as casas possuem facas ou tesouras; no momento da impulsividade, elas são facilmente encontradas”. Há também um fundamento psicológico: “exige proximidade, é pessoal, permite ‘punição’ direta no corpo. Diferente do tiro, que é distante, a faca intensifica o controle e a fúria acumulada. Muitos agressores têm dificuldade em controlar impulsos e lidam com traumas não resolvidos, o que amplifica o ato”.
O estupro também apresentou números alarmantes em Sorocaba em 2025. Foram registrados 284 casos até novembro, dos quais 224 eram estupros de vulnerável. Em comparação, durante todo o ano de 2024, foram registrados 255 casos, sendo 183 de vulnerável. Em 2023, foram 251 registros, com 195 de vulnerável.
Leis de proteção
A delegada explica as diferenças entre as leis que protegem vítimas de violência doméstica. A Lei Maria da Penha existe para proteger mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Ela se aplica a agressões físicas, psicológicas, sexuais, morais ou patrimoniais, cometidas por companheiros, ex-companheiros, parentes ou qualquer pessoa com quem a vítima tenha relação íntima ou de convivência.
A lei permite que a mulher solicite medidas protetivas, como o afastamento do agressor, a proibição de contato e a fixação de uma distância mínima, mesmo que não tenha havido agressão física. Basta que a vítima se sinta em risco, como afirma a delegada Renata.
Já a Lei Henry Borel é voltada à proteção de crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica e familiar. Ela se aplica tanto a meninas quanto a meninos e prevê punições mais severas aos agressores, além de medidas de proteção semelhantes às da Lei Maria da Penha. Quando a vítima é um menino, a proteção não ocorre pela Maria da Penha, mas pela Lei Henry Borel.
Em ambos os casos, o juiz pode determinar o uso de tornozeleira eletrônica no agressor como forma de garantir o cumprimento da medida protetiva. Nos casos de violência contra a mulher, o atendimento e o acompanhamento ficam concentrados na DDM. Já nos casos da Lei Henry Borel, quando envolvem crimes sexuais, o atendimento também ocorre na DDM, mesmo que a vítima seja um menino. Em situações de maus-tratos ou outras violências não sexuais contra crianças, o caso é encaminhado para a delegacia de plantão ou para a delegacia da área.
O que fazer em caso de risco
A delegada orienta que, se a mulher se sentir em perigo, deve procurar uma delegacia, preferencialmente a DDM. O boletim de ocorrência pode ser feito online, mas Renata alerta: “ela pode até fazer o boletim de ocorrência online, mas, aqui na região de Sorocaba, é necessária a presença física na delegacia, para assinatura de documentos e avaliação de risco”.
Não é necessário que a violência já tenha ocorrido. Caso exista o sentimento de insegurança, é possível pedir a medida protetiva. Provas como mensagens, gravações e testemunhas podem ser apresentadas. “Para a medida protetiva, basta a sensação de risco”.
A psicologia por trás da violência
A psicóloga Ariane afirma que “a violência não começa com um soco no primeiro dia. Ela cresce devagar. No começo, pode ser um ciúme que parece carinho, mas vira controle: questionar com quem você fala, onde você vai. Depois, esse controle se transforma em domínio, posse e obsessão”.
Segundo ela, é comum que a vítima permaneça em uma relação violenta devido à dependência emocional, à baixa autoestima e ao isolamento. “Os momentos bons criam um apego forte, quase como um vício. A pessoa pensa: ‘sem ele eu não consigo’ ou ‘ninguém mais vai me querer’”.
Os efeitos a longo prazo podem aparecer física, psicológica e sexualmente, como dor crônica, depressão, insônia, autossabotagem, indecisão, aversão ao sexo ou hipersexualidade.
Sintomas semelhantes também aparecem em relações violentas de outros tipos, como entre irmãos ou entre pais e filhos. “As vítimas sofrem os mesmos danos, como estresse pós-traumático e depressão. A saída é a terapia familiar, para quebrar padrões e ensinar formas saudáveis de lidar com conflitos”.
O que fazer em caso de violência
A psicóloga orienta que reconhecer um apego intenso, apesar do sofrimento, é um sinal importante. Pode se tratar de um mecanismo de sobrevivência, associado ao que popularmente se chama de “Síndrome de Estocolmo”, quando a vítima se identifica ou até defende o agressor.
Procurar terapia é essencial, preferencialmente com profissionais especializados em trauma, o que “ajuda a reconstruir a autoestima e a ganhar autonomia”.
Um plano de segurança também é fundamental: “tenha contatos de emergência, ligue para o Disque 180 e procure amigos confiáveis”.
O simples sentimento de risco já é suficiente para procurar ajuda, tanto psicológica quanto policial.
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