Mobilidade
Corridas por aplicativo sobem e pesam no bolso de usuários e motoristas
Alta acima da inflação em 2025 e aumento dos combustíveis em 2026 afetam consumo e renda no setor
As corridas por aplicativo ficaram mais caras em 2025 e continuam pressionando o orçamento de usuários neste início de 2026. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o transporte por aplicativo registrou aumento muito acima da inflação no último ano. O movimento, somado à alta dos combustíveis, tem levado passageiros a reduzir o uso do serviço e motoristas a rever a rentabilidade das corridas.
Usuário frequente do transporte por aplicativo, o representante comercial Bruno Sandolli afirma que o aumento foi claramente percebido ao longo de 2025. “Percebi em corridas de moto e de carro, especialmente na Uber e na 99”, relata. Segundo ele, o reajuste passou a pesar no bolso e influenciar diretamente a rotina. “Sim, tem pesado no orçamento”, resume.
Situação semelhante é relatada pelo publicitário Daniel Fraga, que afirma ter reduzido o uso do serviço diante dos valores mais elevados. “Foi um aumento considerável. Dependendo do motivo da corrida, tenho diminuído o uso”, afirma. Ele destaca que os preços variam bastante conforme o horário. “As tarifas dinâmicas aumentaram muito e acabam pesando no orçamento”, explica. Para o trabalho, Daniel passou a priorizar o transporte público. “Quando preciso de corrida, penso duas vezes.”
Do lado dos motoristas, a percepção é de que o reajuste das tarifas não tem sido suficiente para compensar o aumento dos custos. O motorista de aplicativo Raphael Silva afirma que, mesmo com corridas mais caras para o usuário, o ganho líquido diminuiu. “O aumento impacta em um valor final menor no meu ganho”, diz. Segundo ele, os reajustes aplicados pelas plataformas foram “insignificantes” diante da alta dos combustíveis no início de 2026. “Não cobre os gastos”, completa. Até o momento, Raphael afirma não ter notado mudanças relevantes no comportamento dos passageiros.
Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) informou que as plataformas buscam equilibrar a demanda dos usuários com a oferta de motoristas parceiros. Segundo a entidade, o preço das viagens é influenciado por fatores como tempo e distância do deslocamento, categoria do veículo, demanda em determinado horário e local, além de estratégias comerciais de cada empresa.
A associação também destacou que a precificação dinâmica é uma característica do setor e que a metodologia do IPCA para a coleta de preços de corridas por aplicativo não é detalhada publicamente. Ainda de acordo com a Amobitec, as empresas mantêm equipes dedicadas ao acompanhamento dos custos dos motoristas e realizam reajustes periódicos nos ganhos. Pesquisa do Cebrap citada pela entidade aponta aumento real de 5,4% na remuneração por hora em corridas entre 2021 e 2024.
A Amobitec ressalta ainda que o subitem “transporte por aplicativo” tem participação pequena na composição do IPCA, com impacto de 0,13 ponto percentual em 2025, inferior ao de outros itens considerados as principais pressões inflacionárias, como energia elétrica, aluguel, planos de saúde e cursos regulares.
Apesar disso, na prática, passageiros e motoristas sentem os efeitos no dia a dia. Para os usuários, o serviço deixou de ser a primeira opção em muitos deslocamentos. Para os motoristas, o desafio é manter a renda em um cenário de custos crescentes. (Caroline Mendes)