Crescimento
Expansão urbana se acelera em Sorocaba
Cidade vive mudanças em seu perfil territorial e há impactos sobre meio ambiente e qualidade de vida
A expansão urbana e de áreas industriais em Sorocaba nas últimas décadas tem reacendido o debate sobre os impactos desse crescimento sobre o meio ambiente, a infraestrutura e a qualidade de vida da população. Embora a cidade tenha se consolidado como um polo industrial e logístico estratégico no interior paulista, especialistas alertam que o avanço desordenado pode comprometer territórios ambientalmente sensíveis e ampliar desigualdades urbanas.
Dados da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (Seplan) indicam que, entre 2004 e 2014, a área rural de Sorocaba sofreu uma redução de 3,6%, enquanto a área urbana cresceu menos de 1% no mesmo período.
A área industrial apresentou expansão mais expressiva, próxima de 3%. Na revisão mais recente do Plano Diretor, aprovada em 2025, a zona rural passou a ocupar cerca de 52 quilômetros quadrados, o equivalente a 11,6% do território municipal. A Prefeitura de Sorocaba afirma que os zoneamentos atuais estão bem definidos e seguem critérios técnicos consolidados ao longo das sucessivas revisões do Plano Diretor. Segundo a Seplan, existe uma “perspectiva natural” de diminuição das áreas rurais, mas o Executivo afirma atuar para minimizar essa tendência, incorporando instrumentos como o futuro Plano Diretor Ambiental e ações integradas com a Secretaria do Meio Ambiente.
Entre as medidas citadas pelo município está a adesão ao programa estadual Rotas Rurais, por meio do Endereçamento Digital Rural (EDR), que busca modernizar a logística no campo e melhorar o acesso às propriedades rurais remanescentes. A prefeitura sustenta que o objetivo é conciliar desenvolvimento urbano com sustentabilidade, garantindo planejamento participativo e respeito à legislação ambiental.
Transformação
Para o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Sorocaba (Uniso), Tiago da Guia Oliveira, a cidade vive uma transformação profunda no seu perfil territorial, marcada tanto pela verticalização ao longo de grandes eixos viários quanto pelo avanço horizontal nas bordas urbanas. Segundo ele, Sorocaba não tem um perfil rural convencional. “As áreas rurais de Sorocaba, poucas que ainda restam apenas ’pintadas no mapa’ já não possuem a característica agropastoril, de tal forma que os parcelamentos irregulares que estão avançados nessas áreas são mais nocivos e degradantes do que a própria mudança no planejamento urbano formal”, analisa o professor.
“O ritmo imobiliário é forte em Sorocaba, porém bastante focado na verticalidade e menos na horizontalidade (nesse momento). Essa metodologia representa mais problemas internos de mobilidade do que propriamente espraiamento. Não acredito que chegaremos a um município totalmente urbanizado, principalmente se mantermos a histórica e exemplar condição ambiental do município com seus parques, cinturões de preservação e manutenção das zonas de chácaras”, complementa.
De acordo com o professor, o problema central não está apenas na redução da área rural em si, mas na forma como esse processo ocorreu. Ele destaca que decisões urbanísticas, como a proibição de lotes populares no Plano Diretor de 2014, elevaram o custo da terra urbana e dificultaram o acesso à moradia formal por famílias de baixa renda. Esse cenário teria impulsionado a proliferação de loteamentos clandestinos justamente em zonas rurais e de chácaras, segundo ele.
Esses parcelamentos irregulares, de acordo com o professor, geram efeitos nocivos à cidade: ausência de infraestrutura básica, falta de planejamento viário, inexistência de equipamentos públicos e degradação ambiental. Além disso, ampliam problemas como enchentes, impermeabilização do solo, poluição de cursos d’água e riscos de deslizamentos, impactos que acabam recaindo sobre o próprio poder público no médio e longo prazo.
O professor avalia que a expansão urbana, quando feita de forma planejada e legal, pode ser menos prejudicial ao meio ambiente do que a ocupação clandestina. Ele defende que a supressão de áreas rurais já descaracterizadas, acompanhada de projetos regulares, pode permitir a criação de cinturões verdes, a proteção de nascentes e o cumprimento da legislação ambiental — algo que não ocorre em ocupações ilegais.
Futuro
Apesar do ritmo intenso do mercado imobiliário, Oliveira não acredita que Sorocaba se tornará um município totalmente urbanizado nas próximas décadas, desde que haja fiscalização efetiva e políticas públicas voltadas à preservação ambiental. Para ele, o maior desafio está em conter a irregularidade, punir loteadores clandestinos e fortalecer a atuação do Estado no ordenamento do território.
“O crescimento rápido da cidade, seja vertical ou horizontal, não acompanha a capacidade de carga das infraestruturas, principalmente transporte e saneamento. As pessoas precisam morar, porém também precisam de algo mais importante que é o emprego e para uma cidade ser propícia à empregabilidade ela deve ser atrativa visualmente e arborizada, fácil de se locomover com várias opções, ter opções de turismo e cultura e com uma efetiva segurança urbana. Quando se cresce demasiadamente, essas variáveis começam a colapsar e os próprios investimentos imobiliários deixam de ser atrativos e migram para outro local”, analisa Oliveira.
O professor destaca que o debate sobre áreas rurais não pode mais ser feito de forma isolada. Inserida na Região Metropolitana de Sorocaba, a cidade depende da articulação com municípios vizinhos de perfil agrícola para garantir abastecimento, equilíbrio ambiental e planejamento regional. Nesse contexto, o risco não é apenas perder áreas rurais, mas repetir erros históricos das grandes metrópoles brasileiras, comprometendo a sustentabilidade urbana e a qualidade de vida das próximas gerações.
Aumento do número de habitantes
impulsiona crescimento da cidade
Sorocaba figura hoje entre os principais centros urbanos do Brasil. Com 762 mil habitantes, conforme estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2025, o município ocupa a 26ª posição entre as cidades mais populosas do País. Esse crescimento demográfico acelerado tem reflexo direto na expansão do tecido urbano.
A cidade conta atualmente com 690 bairros, interligados por 6.355 ruas e 210 avenidas, estrutura que se espalha por uma área urbanizada próxima de 135 quiômetros quadrados. Com isso, a densidade demográfica média atinge 1.608 habitantes por quilômetro quadrado, índice elevado para um município de médio porte e que evidencia a pressão crescente sobre infraestrutura, mobilidade e serviços públicos.
A zona norte de Sorocaba é o principal símbolo desse avanço urbano. A região abriga aproximadamente 250 mil moradores — cerca de um terço da população total da cidade — e concentra alguns dos mais importantes eixos comerciais e viários, como as avenidas Itavuvu e Ipanema.
O dinamismo territorial, embora impulsione a economia local, também intensifica o debate sobre os limites da expansão urbana. O avanço sobre áreas periféricas e zonas de transição rural levanta alertas quanto à capacidade de absorção, especialmente em regiões onde o crescimento populacional ocorre de forma mais rápida.
“É importante ressaltar que Sorocaba nunca teve um perfil rural exacerbado e de grande relevância devido sua relação territorial e a vertente ambiental muito forte de preservação, com cursos d’água que impedem esse desenvolvimento agrícola. Nós tivemos sim, algumas concentrações, principalmente no eixo do Caguaçu, na zona norte, quase divisa com Porto Feliz, algumas relações no eixo leste e oeste. Porém o que antigamente eram consideradas periféricas passaram a ter o desenvolvimento de loteamentos que atendiam a demanda da cidade naquele momento. Conforme o passar do tempo, o desenvolvimento industrial, econômico, os eixos rodoviários importantes, Castello Branco, Raposo Tavares, faz com que Sorocaba seja um eixo estratégico de perfil de adensamento e formação e escoamento de produtos industriais. Então, isso faz com que a demanda habitacional seja elevada”, explica o professor de arquitetura e urbanismo Tiago Guia de Oliveira. (T.R.)
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