Sem orientação
Uso de academias ao ar livre sem orientação e manutenção aumenta risco de acidentes
As academias ao ar livre se multiplicaram pelo País como uma alternativa gratuita para estimular hábitos saudáveis e democratizar o acesso à atividade física. Espalhadas em praças e parques, atraem crianças, adultos e idosos. No entanto, especialistas alertam que o uso desses equipamentos sem orientação adequada e sem manutenção frequente pode trazer riscos, alguns deles graves.
Essa é a avaliação do preparador físico Stefano Pilon, especialista em exercícios para diabéticos tipo 2, e também de publicações do Conselho Federal de Educação Física (Confef), que há anos chama atenção para a falta de profissionais nesses espaços públicos.
Stefano destaca que os aparelhos podem gerar ganhos importantes, especialmente em exercícios de fortalecimento muscular. “Os exercícios que aumentam ou preservam massa muscular são essenciais para a saúde, o equilíbrio, a coordenação e até o controle glicêmico”, afirma.
Para ampliar benefícios e reduzir riscos, ele sugere que os municípios instalem QR Codes nas máquinas, permitindo que os usuários acessem vídeos de execução correta e contraindicações. “É uma forma simples e eficiente de orientar quem não tem acesso direto a um profissional”, diz.
Apesar de parecerem simples, os equipamentos podem causar lesões quando utilizados sem acompanhamento. O Confef aponta que o maior problema é o excesso de repetições, o que pode provocar danos musculares e articulares. Profissionais de educação física são os únicos capacitados para ajustar postura, intensidade e limitações individuais, algo ausente na maioria das academias ao ar livre do País.
Stefano reforça: “Os benefícios diminuem e os riscos aumentam quando a pessoa faz sem orientação. Se houvesse um profissional ali, o treinamento seria mais eficiente e seguro”.
Uso infantil: atenção redobrada
A segurança de crianças nesses espaços preocupa especialistas e também famílias que já vivenciaram acidentes. Em Votorantim, uma menina sofreu fratura exposta após um aparelho mal fixado cair sobre seu pé. Uma parente, que pediu anonimato, contou que a criança estava acompanhada da avó e da irmã de 15 anos. “Como a praça não tem nada para criança brincar, ela acabou usando o aparelho de ginástica. Quando ergueu o equipamento e voltou a mãozinha, a peça caiu em cima do pé dela. A peça simplesmente se soltou”, relata.
Ainda segundo a familiar, a crítica não é sobre crianças utilizarem o espaço, mas sobre a falta de manutenção e orientação. “O aparelho poderia ter se soltado sobre qualquer pessoa, até um deficiente físico, que é o público para o qual ele é destinado. É a falta de manutenção que preocupa.”
Ela afirma que não havia guarda municipal no local no momento do acidente. A menina foi levada à UPA e depois encaminhada ao Hospital Regional. “A princípio disseram que precisaria de cirurgia, porque era uma fratura exposta, mas o ortopedista confirmou que não seria necessário”, conta. A criança ficou afastada da escola.
O Confef lembra que diversos municípios já enfrentaram ações judiciais por acidentes envolvendo menores. Em São José dos Campos, por exemplo, a prefeitura foi condenada a indenizar em R$ 50 mil os pais de um menino de 13 anos que teve um dedo do pé amputado após a queda de um aparelho. A Justiça entendeu que faltaram manutenção e orientação profissional.
A familiar da criança resume o que espera do poder público: “Só queremos cuidado. Uma criança já perdeu a vida ali anos atrás. Quem imagina que isso possa acontecer? Não queremos culpa, queremos prevenção. Queremos que ninguém mais passe por isso”.
O preparador físico Stefano Pilon concorda que pequenos ajustes fariam grande diferença. “A população ganharia muito mais qualidade e segurança. São medidas simples, e os resultados seriam imediatos.” (Caroline Mendes)
CAMINHOS PARA REDUZIR ACIDENTES
1) Presença regular de profissionais de educação física;
2) Instalação de QR Codes com instruções e contraindicações;
3) Fiscalização e manutenção contínua;
4) Restrição do uso infantil em aparelhos incompatíveis com altura e segurança;
5) Participação da comunidade na identificação de riscos.
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