Afetividade
Números mostram queda de divórcios enquanto casais apostam no diálogo
Em Sorocaba, foram registrados 4578 casamentos em 2024, ante 2556 divórcios, o que dá um saldo positivo de 2022
Durante séculos o casamento foi visto como um alicerce firme da vida humana, mas as relações afetivas da modernidade tornaram esse terreno mais instável. Há 75 anos, as Equipes de Nossa Senhora mostram outro caminho: o do cuidado, da escuta e da reconstrução.
No Brasil, a crise conjugal parece mais visível, mas não definitiva: em 2023 foram registrados 440.827 divórcios, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2024, o número caiu para 428.301, uma redução de cerca de 3%.
Em Sorocaba, foram registrados 4.578 casamentos no ano de 2024, de acordo com o IBGE, e 2.556 divórcios, ou seja, um saldo positivo de 2022 casamentos.
No Censo de 2022, o IBGE identificou que mais da metade da população brasileira, com mais de 10 anos, estava em algum tipo de união conjugal. Pela primeira vez, a “união consensual”, ou seja, casais que não oficializam a união nem na esfera civil nem na religiosa, ultrapassou o casamento civil e religioso. Em 2022, 38,9% dos casais estavam em união consensual, enquanto os casados no civil e no religioso eram 37,9%.
Apesar dos números alarmantes, a maioria dos casais permanece junta. Os dados do IBGE indicam que 48,2% dos casais se separam antes de completar 10 anos de vida conjugal, o que também significa que 51,8% permanecem mais de 10 anos juntos. Depois desse período, os números caem drasticamente, com apenas 14,2% dos casais com 10 a 14 anos de casamento se separando.
Cara metade
Popularmente, não faltam termos usados para “casais perfeitos”, como “metade da laranja” e “alma gêmea”. Mas, de acordo com a psicóloga Ariane Teixeira Toubia, ideias de “casamento perfeito”, ou idealizações, são algumas das principais causas para o afastamento de um casal. Com o tempo, o que era novidade vira rotina, os níveis de dopamina diminuem e aumenta a frustração.
Ariane afirma que os principais motivos que levam um casal ao divórcio são: “Normalmente, os motivos principais estão em torno de crítica excessiva, desprezo, vitimismo ou ataque ao parceiro. Infidelidade, incompatibilidade de valores e educação dos filhos também são muito comuns.”
Ela afirma que as mudanças no papel social do casamento também afetam a decisão de se separar. Segundo a profissional, até os anos 1980, o divórcio era um estigma social pesado. Atualmente, o contrato afetivo é ligado ao individualismo: “Eu fico enquanto eu estiver feliz e crescendo.” As pessoas, segundo ela, se casam com expectativas muito altas e baixa tolerância ao desconforto. “Logo, quando acontece uma briga, o primeiro pensamento é a separação e não a resolução do problema.”
Para manter um bom relacionamento, Ariane explica que não existe receita de bolo, mas sugere aprender a reforçar o lado positivo, listando pequenas coisas que o outro pode fazer, e que custam zero dinheiro ou tempo, para melhorar a relação. Treinar a comunicação, conversar muito e dar exemplos usando emoções são técnicas aplicáveis.
Porém, Ariane afirma que nem todos os casamentos podem ser recuperados. Caso um dos dois já tenha desistido da relação, com crenças rígidas, dificilmente mudará de ideia.
As funções do casamento
Os desafios da vida conjugal são muitos, desde problemas pessoais de cada casal até um reposicionamento social sobre a importância e a forma do casamento. O professor de história Henrique Cavalcanti de Albuquerque explica que “o casamento como conhecemos é uma instituição com raízes cristãs e foi mais formalizada na Idade Média, principalmente a partir do século XIII.”
Antes disso, havia uma grande diversidade de rituais. Ainda que casamentos estivessem presentes na maioria das civilizações, quase sempre estavam associados a um rito de passagem da infância para a idade adulta. A adolescência não “existia” em sociedades antigas.
Henrique afirma ainda que, ao longo da história, “havia uma imensa diversidade de rituais. Em algumas sociedades, a poligamia era normalmente aceita, e não havia formalização de união entre um único homem e uma única mulher, como entre os tupis.”
Nas religiões como o judaísmo e o islamismo, as cerimônias de casamento representam momentos importantes, principalmente por simbolizarem a continuidade da tradição. Já no hinduísmo, a união é considerada uma união entre famílias, por isso a decisão quase sempre passa pelo consentimento familiar coletivo.
Permanência
Entre tantos números e dados preocupantes, um pouco de esperança aparece nos casais que estão há muitos anos juntos. Roselene de Oliveira Almeida, 56 anos, e José Rubens Corrêa Almeida, 60 anos, estão juntos há 33 anos, completando bodas de crisólito, pedra preciosa relacionada à durabilidade. O casal tem dois filhos, Lucas e Laura.
Rubens é engenheiro mecânico, e Rose é assessora executiva. A união do casal é visível logo no primeiro contato. Eles se conheceram enquanto trabalhavam juntos. Rubens trabalha no mesmo local há 36 anos, enquanto Rose completou 27 anos na empresa. Na correria do dia a dia, gostam de passar tempo com os filhos ou assistindo filmes.
Mas há pouco tempo livre: o casal é responsável pela Super-Região Brasil das Equipes de Nossa Senhora (ENS), um movimento católico de casais que buscam aprofundar sua vida matrimonial e familiar no espírito do Evangelho.
O cargo lhes permite viajar muito, praticamente o Brasil todo (só não tem em Amapá). Porém, pouco conseguem aproveitar. Rose afirma que aproveitam para se deliciar com a gastronomia local e conhecer o sotaque de cada região.
Quando questionados sobre o segredo para manter um casamento por tantos anos, a resposta é mais simples do que parece: “Tentar fazer o outro feliz.”
Equipes de Nossa Senhora
As Equipes de Nossa Senhora nasceram na França, em 1939, como um movimento de espiritualidade conjugal que buscava fortalecer a vida matrimonial em meio às transformações do século. Idealizadas pelo padre Henri Caffarel, reuniam casais dispostos a refletir sobre fé, diálogo, partilha e compromisso mútuo, criando pequenos grupos, as “equipes”, que se encontravam regularmente para apoiar uns aos outros. Atualmente, o movimento está presente em cerca de 96 países e tem mais de 180 mil membros.
No Brasil, o movimento chegou em 1950 e, em Sorocaba, em 1975. O padre Antonio Carlos Fernandes, conhecido como Padre Toninho, que acompanha algumas reuniões de equipes na cidade, explica: “Eles (os casais) têm uma dimensão de escuta da palavra. Como princípio da espiritualidade, é a palavra de Deus. Eles devem escutar e meditar a palavra de Deus juntos. É uma espiritualidade de casal.”
Padre Toninho também explica o funcionamento dos encontros, que acontecem uma vez por mês: “É composto de sete casais e mais o conselheiro espiritual. O movimento indica que seja sacerdote; o padre deve fazer esse acompanhamento espiritual. Mas, na atual circunstância do Brasil, como aumentou muito este movimento, hoje nós dizemos que temos também conselheiros espirituais que podem ser uma religiosa, um religioso, um diácono permanente, ou até mesmo um seminarista que esteja já no quarto ano de teologia.”
Em Sorocaba são 47 equipes, divididas em quatro setores, que contam, ao todo, com cerca de 266 casais.