Região
Temporada de alcachofras impulsiona o turismo em São Roque e Piedade
Com florada forte na primavera, região registra aumento na produção e atrai visitantes em busca da iguaria
A temporada de alcachofras já movimenta São Roque e Piedade, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS). A flor exótica comestível floresce na primavera, de setembro a novembro, e atrai tanto consumidores habituais quanto visitantes curiosos.
Em São Roque, o turismo do Roteiro do Vinho mantém movimento durante todo o ano e ganha novo impulso com a chegada da temporada de alcachofras. O fluxo de visitantes cresce, impulsionando a economia da cidade. “Eu arrisco dizer que hoje o turismo é a principal fonte de receita do município. É a área que mais emprega, e somente no Roteiro do Vinho nós temos mais de 2.300 colaboradores e 58 empresas associadas. A indústria do turismo emprega bastante, gera muita receita e está em constante crescimento, e nós podemos ver pelos novos empreendimentos que estão surgindo, e tenho certeza de que nos próximos anos vai aumentar ainda mais”, explica o presidente da Associação do Roteiro do Vinho de São Roque, Leodir Ribeiro.
A paisagem, as opções de lazer e os produtos alimentam o turismo e o fluxo de visitantes na região. “O roteiro tem presença de público em especial no período de férias: janeiro e julho. Porém, no outono, o clima é especial, mais romântico. E agora, na primavera, é época de florada da alcachofra, que é uma flor, então é um período muito especial”, explica o presidente.
Cultivo
Nativa da região do Mediterrâneo, a alcachofra chegou ao Brasil nas malas dos imigrantes portugueses, italianos e espanhóis, em forma de sementes. A flor brota na primavera, normalmente de setembro a novembro, dependendo do clima. Mas o tempo mais frio é melhor para o cultivo e, neste ano, em que o inverno foi mais rigoroso em relação aos anteriores, a flor apresentou uma ótima produção.
Em São Roque, o plantio da flor começou com a chegada dos imigrantes. No início do cultivo, porém, muitos tipos de alcachofra apresentavam anormalidades, como espinhos nas folhas ou nas flores, o que dificultava o manejo, enquanto outras brotavam normalmente e se tornavam boas para o consumo.
Com o tempo, houve uma seleção feita pelos agricultores, que passaram a cultivar apenas as alcachofras ideais para o consumo, adaptadas naturalmente, chegando à espécie chamada Alcachofra Roxa de São Roque. O nome se deve à técnica de cultivo: quando a flor brota, é colocado um saco de papel por cima para protegê-la do sol, o que mantém a coloração roxa natural. Sem o papel, a alcachofra atinge coloração verde. Já a alcachofra híbrida americana não necessita da técnica; a coloração roxa é atingida e conservada naturalmente.
Em São Roque, a temporada de alcachofra está ativa, e o Roteiro do Vinho conta com diversos produtores da flor e também restaurantes com menu variado da iguaria. Na Vinícola XV de Novembro, há plantação de duas opções: a alcachofra Roxa de São Roque, que possui formato mais alongado e pétalas pontudas, e a alcachofra híbrida americana, também conhecida como chilena, mais arredondada e com coloração roxa mais vibrante.
Segundo o presidente da Associação de Produtores de Alcachofras de São Roque (APASR), Alex Santiago de Moraes, “fazia tempo que a gente não tinha um inverno marcante. Com isso, a alcachofra ‘adormece’, para de crescer, faz uma reserva de energia e produz o hormônio que vai fazer brotar mais para frente, tudo isso naturalmente no próprio pé. Com o inverno mais longo e rigoroso, há um atraso na produção, mas, por outro lado, aumenta o volume. A gente iniciou a safra calculando em torno de 4% ou 5% a mais e acreditamos que, quando encerrar a safra, vamos passar de 10% de aumento na produção em relação ao ano passado”, informa.
Em 2024, a produção foi de 550 mil alcachofras, resultando em cerca de 11 toneladas e 45 mil caixas da flor.
Capital nacional da alcachofra
Piedade foi eleita a Capital Nacional da Alcachofra em 2024, e cerca de 65% a 90% da produção de alcachofras cultivadas no país é plantada na cidade. Segundo Otávio Freitas Neves, diretor da produtora rural Saibai, “a alcachofra já tem uma tradição na família. A produção aqui é familiar, e há mais de 50 anos nos dedicamos ao cultivo da hortaliça”.
A produção da Saibai tem duas safras da flor exótica por ano: uma em abril, no outono, e outra na primavera, em setembro. Em abril, Neves explica que a safra é induzida: “a giberelina é um hormônio natural aplicado para estimular a produção da flor da alcachofra. A aplicação pode ser feita de duas formas: com a injeção do hormônio ou por pulverização”.
Há diferença visual entre as duas safras. Em abril, a alcachofra induzida apresenta variação, é mais leve e tem coloração mais esverdeada. Já a safra de setembro, em condições naturais e favoráveis, resulta em alcachofras mais pesadas, bonitas, com coloração arroxeada e maior rendimento. No entanto, o diretor afirma que o sabor é o mesmo.
Neste ano, a produção natural da primavera superou as expectativas. “Essa safra foi muito boa porque tivemos um ano com estações mais definidas. Um inverno com pouca chuva e mais prolongado é ideal para o cultivo. A alcachofra deste ano, em qualidade, foi superior: teve alcachofra enorme, e a média dos tamanhos foi maior. Foi um ano excelente para a produção”, conta.
A produção da Saibai é direcionada para a Central de Abastecimento (Ceasa), cooperativas, restaurantes da região, supermercados e também para a população, que vai até o local em busca da iguaria. Além das flores naturais, há também a venda de produtos como a alcachofra limpa e congelada e conservas.
A alcachofra e todas as opções de consumo
Em São Roque, o cultivo de alcachofras da Vinícola XV de Novembro é voltado para o turismo, enquanto a venda da planta é feita para restaurantes vizinhos, fãs da iguaria que gostam de fazer seus próprios preparos e receitas, além dos produtos produzidos por eles, como patês, conservas, alcachofra cozida e temperada, pastel de alcachofra e até vinho da flor.
O comerciante Nelson de Oliveira, é um grande apreciador da flor e aguarda a temporada todos os anos. “Eu adoro alcachofras; nós aguardamos o mês da colheita e vamos consumindo até que acabe. Fazemos de diversas maneiras: ao vinagrete, à dorê, no molho e mais variedades”, conta.
Outra visitante, a professora Mônica Machareti Ribeiro, passeava pelo Roteiro do Vinho e decidiu experimentar a iguaria. “Foi a primeira vez que experimentei alcachofra, adorei. Eu provei o patê com torradinha e senti um leve sabor amanteigado, bem natural, só cozida com tempero, e gostei bastante. Vou começar a consumir mais”, compartilha.
Com a temporada, muitos locais montam menus de degustação para apresentar a iguaria, como o Viejo Papá, também localizado no Roteiro do Vinho. No restaurante, é possível experimentar diversos preparos: de entrada, há alcachofra à bolonhesa, recheada e croquete de alcachofra; e, como prato principal, risoto de alcachofra. Tudo é acompanhado por vinho também feito da flor.
Usos da alcachofra
Além das variadas formas de consumo da flor, a alcachofra também tem aplicações na indústria farmacêutica e pode até ser usada como item decorativo após o florescimento.
Na área farmacêutica, é possível encontrar suplementos feitos a partir da planta. “A nossa alcachofra é rica em cinarina. Você encontra na farmácia cápsulas de alcachofra, que nada mais são do que as folhas secas e moídas”, explica Alex Santiago de Moraes, presidente da APASR. Os suplementos auxiliam na digestão, ajudam a reduzir o colesterol, contribuem para o emagrecimento e protegem o fígado.
Como decoração, a flor de coloração roxa vibrante é bastante usada em eventos e congressos. (Thaís Verderamis)
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