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Estelionato

Golpe do falso gerente faz novas vítimas em Sorocaba

Crimes via WhatsApp se multiplicam na região; polícia, OAB e especialistas alertam para proteção digital e orientam como agir em caso de fraude

20 de Novembro de 2025 às 21:40
Tom Rocha [email protected]
Rápido e sofisticado, golpe tem vitimado um grande número de pessoas: falsos gerentes, falsas centrais bancárias e até falsos advogados são os mais frequentes
Rápido e sofisticado, golpe tem vitimado um grande número de pessoas: falsos gerentes, falsas centrais bancárias e até falsos advogados são os mais frequentes (Crédito: JOÉDSON ALVES / AGÊNCIA BRASIL)

A popularização das redes sociais e dos aplicativos de mensagens transformou a comunicação e, junto com ela, a atuação de criminosos. Uma aposentada de 64 anos, moradora da zona norte de Sorocaba, perdeu R$ 85 mil após ser enganada por uma mulher que se passou por sua gerente bancária no WhatsApp. O golpe, rápido e sofisticado, é o mesmo que tem vitimado um grande número de pessoas na região. No banco, a aposentada relatou ter visto uma pilha de papéis com relatos de vítimas, incluindo um homem que teria perdido mais de R$ 400 mil. Na delegacia, encontrou outras pessoas relatando prejuízos semelhantes.

As autoridades têm orientações semelhantes para evitar fraudes: atenção redobrada com ofertas exageradas, conversas confusas e, sobretudo, nunca instalar nada sem verificar com alguém de confiança. Segundo o advogado Bruno Spinola, vice-presidente da OAB Sorocaba, golpes praticados via WhatsApp se tornaram um problema crônico. “Hoje, é comum clientes procurarem advogados semanalmente, às vezes diariamente, relatando tentativas ou fraudes já consumadas. Entre os golpes mais frequentes estão os dos falsos gerentes, falsas centrais bancárias e até falsos advogados”, explica. Para ele, a facilidade de acesso às contas bancárias pelo celular aumentou a vulnerabilidade dos usuários.

Como é um dos golpes?

A vítima relata que, na tarde do dia 13, uma quinta-feira, estava com as netas assistindo televisão quando recebeu uma ligação de um número desconhecido, mas exibindo a foto da sua gerente. Ela atendeu e afirma ter reconhecido até a voz da funcionária. “Achei que era algo sobre investimentos ou seguros. Mas ela disse que estavam mexendo na minha conta”, lembra.

A suposta gerente orientou a mulher a acessar o aplicativo do banco e fazer simulações de empréstimo para, segundo ela, “zerar tentativas de fraude”. A aposentada, acreditando que estava se protegendo, acabou realizando três operações de empréstimo via Pix. Os valores chegaram a aparecer em sua conta, mas desapareceram rapidamente. “Usaram até meu cheque especial. Nem eu sabia que tinha um limite tão alto”, afirma. Ao todo, o prejuízo foi de R$ 85 mil. Ela não percebeu que estava sendo manipulada por criminosos altamente especializados, capazes de imitar identidade visual e até o padrão de atendimento do banco.

Outro detalhe que dificultou a investigação foi o uso de “mensagens temporárias” no WhatsApp, que apagaram automaticamente o histórico de ligações e conversas. No dia seguinte ao golpe, a verdadeira gerente ligou informando que a aposentada havia sido vítima de fraude. “Custei a acreditar. Eu disse que tinha falado com ela antes, mas ela negou. É inacreditável como conseguem copiar tudo”, lamenta. No banco, a instituição prometeu resolver o caso em até 10 dias, e a vítima acionou o seguro antifraude, que cobre até 90% do prejuízo.

A idosa também registrou boletim de ocorrência no Plantão Policial Sul e, lá, tomou conhecimento de outras vítimas enganadas pelo mesmo modus operandi.

O que fazer se caiu no golpe?

Em caso de golpe consumado, a orientação é agir rápido. O primeiro passo é comunicar o banco e pedir o bloqueio via MED (Mecanismo Especial de Devolução). Depois, trocar senhas, desconectar o aparelho caso algum aplicativo suspeito tenha sido instalado, registrar boletim de ocorrência e procurar um advogado para tentar recuperar os valores e responsabilizar os envolvidos.

Um advogado pode ajudar a buscar responsabilidade objetiva do banco (em caso de falha de segurança), medidas judiciais urgentes, pedido de indenização e rastreamento de valores.

 

Polícia monitora crimes virtuais

A Polícia Civil confirmou que esse tipo de golpe tem crescido, impulsionado pela facilidade de acesso aos dados das vítimas e pelo uso de tecnologias que simulam números oficiais de bancos, fotos reais de funcionários e até clonagem de centrais telefônicas. “Desde 2020, crimes dessa natureza podem ser registrados na Delegacia Eletrônica, o que tem auxiliado na diminuição da subnotificação dos casos e, consequentemente, no aumento dos registros”, afirma a Secretaria de Segurança Pública (SSP).

A pasta listou orientações para evitar fraudes virtuais, como manter senhas fortes, ativar a autenticação de dois fatores, desconfiar de ofertas muito vantajosas, evitar clicar em links suspeitos e manter softwares atualizados. “A informação ainda é a melhor proteção”.

A SSP afirma que está atenta às ocorrências de estelionato e estuda novas ações para combater a modalidade. “Para auxiliar no combate a esse tipo de crime, independente do meio em que aconteça, além das delegacias territoriais, São Paulo conta com a Divisão de Crimes Cibernéticos, do Deic, criada para combater crimes patrimoniais cometidos por meios eletrônicos”, diz em nota.

Além do boletim de ocorrência, a Polícia Civil ressalta a importância da representação criminal por parte da vítima, necessária conforme a lei. A SSP não fornece dados concretos desse tipo de estelionato, devido às restrições da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), acessíveis apenas via Lei de Acesso à Informação (LAI). (T.R.)

DICAS DA POLÍCIA

Mantenha-se informado sobre golpes comuns no ambiente virtual

Nunca compartilhe informações pessoais, como senhas, números de cartão ou CPF

Em compras on-line, verifique se o site é seguro e autêntico

Evite clicar em links enviados por e-mails desconhecidos

Utilize senhas fortes e ative autenticação de dois fatores

Evite expor dados pessoais nas redes sociais

Desconfie de ofertas “boas demais para ser verdade”

Mantenha sistema operacional, navegador e antivírus atualizados

 

OAB denuncia onda de golpes

Para o vice-presidente da OAB Sorocaba, Bruno Spinola, o golpe evoluiu a ponto de enganar pessoas experientes. “Com dados pessoais em mãos, os criminosos chamam a vítima pelo nome, citam informações reais e imitam perfeitamente um atendimento. Usam fotos e nomes de gerentes verdadeiros e, em muitos casos, o número aparece visualmente idêntico ao oficial”, afirma.

Esse mesmo padrão é usado no golpe do falso advogado, em que golpistas se passam por profissionais reais e cobram adiantamentos via Pix. “É um fenômeno que se intensificou após a popularização do Pix e do mobile banking. Na maioria das vezes, os golpistas usam fotos e o nome do gerente real, que a vítima conhece, no contato de WhatsApp, e ela acredita que está falando com o agente bancário verdadeiro”, diz o advogado. Foi o caso da aposentada da zona norte.

A OAB Sorocaba registra um aumento expressivo nesse tipo de crime. Apesar de não ter mensuração precisa, Bruno Spinola afirma que “as consultas envolvendo golpes bancários praticamente dobraram em 12 meses”. Ele cita também o golpe do falso advogado. “Na OAB Sorocaba, só este ano, recebemos quase 500 denúncias”.

Para evitar golpes como o sofrido pela aposentada, especialistas recomendam medidas simples: desconfiar de contatos ativos que dizem ser do banco; nunca seguir orientações recebidas por telefone ou WhatsApp; jamais instalar aplicativos de acesso remoto; não fornecer códigos enviados por SMS; manter limites de transferência baixos; e verificar se o número é oficial — bancos não resolvem problemas de segurança por WhatsApp pessoal de funcionários. (T.R.)

DICAS DA OAB

- Nunca siga orientações recebidas em ligações supostamente “do banco”

- Bancos verdadeiros não pedem instalação de aplicativos, liberação de token, aumento de limite ou transferências “de segurança”

- Se alguém ligar dizendo ser do banco, desligue e retorne pelo número oficial do aplicativo ou site

- Não instale aplicativos de acesso remoto

- Nunca forneça códigos enviados por SMS ou notificações

- Ative limites baixos e notificações de movimentação

- Troque senhas regularmente e revise acessos do dispositivo

 

 

 

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