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Projetos de inclusão digital

TV Box apreendidas viram minicomputadores para redes de ensino

Representantes municipais e organizações sociais passaram a contar com equipamentos preparados especialmente para uso educacional

19 de Novembro de 2025 às 21:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
Além da conversão das TV Box em computadores, o grupo criou o ‘IFSP 
Presente’, uma chamada digital que tenta enfrentar um problema crescente: a evasão no ensino superior
Além da conversão das TV Box em computadores, o grupo criou o ‘IFSP Presente’, uma chamada digital que tenta enfrentar um problema crescente: a evasão no ensino superior (Crédito: JOÃO FRIZO)

O que antes alimentava a pirataria de canais pagos agora impulsiona projetos de inclusão digital em dezenas de cidades paulistas. Na tarde de segunda-feira (17), a Receita Federal, em parceria com instituições de ensino do interior, realizou em Sorocaba a entrega de 6 mil minicomputadores convertidos a partir de TV Box irregulares.

O Teatro Municipal Teotônio Vilela recebeu representantes de mais de 70 municípios e 18 organizações sociais, que passaram a contar com equipamentos preparados especialmente para uso educacional. A cena destoava do estigma associado ao contrabando: estudantes, professores e técnicos mostrando o potencial de transformar tecnologia apreendida em oportunidade social.

As TV Box apreendidas, compradas de forma irregular e usadas para liberar ilegalmente canais de TV, passaram por um processo rigoroso de descaracterização. A pirataria foi removida, o software original substituído e o hardware adaptado para rodar sistemas livres voltados ao ensino.

O desafio, porém, vai muito além de apagar o conteúdo ilegal. Felipe Gobo, do IFSP Boituva, explica: “Dentro do mesmo modelo encontramos até quatro tipos diferentes de hardware. Tivemos que recompilar kernels, ajustar sistemas, testar compatibilidades. De 1.300 unidades, cerca de 150 não suportaram o processo. Mas até os descartes são reaproveitados, viram peças de robótica ou matéria-prima para filamento de impressora 3D.”

O projeto nasceu em 2021, no IFSP Salto, e rapidamente se espalhou para outros campi. Hoje, o grupo trabalha também com a descaracterização de vapes, cigarros eletrônicos, copos contrafeitos, além de desenvolver um notebook de baixo custo e aproveitar fumo apreendido na produção de biofertilizante.

No IFSP Salto, o projeto começou como uma atividade de extensão. Tornou-se uma vitrine de inovação. Aline Santos, bacharel em Ciência da Computação, conta que a equipe já converteu 3 mil TV Box.

“A ideia surgiu quando um professor soube, por meio da irmã que trabalha na Receita, que havia possibilidade de reaproveitar esses aparelhos. Aproveitamos para integrar ao Projeto Extensionista e atender escolas sem estrutura tecnológica.”

Além da conversão das TV Box, o grupo criou o “IFSP Presente”, uma chamada digital que tenta enfrentar um problema crescente: a evasão no ensino superior. “Cerca de 51% dos estudantes têm propensão a evadir. É um prejuízo enorme e o instituto não tem dados precisos sobre o motivo. Com a coleta digital, conseguimos cruzar informações e entender se o problema é transporte, infraestrutura ou algo mais profundo”, explica Aline.

O projeto já ganhou repercussão nacional e foi destaque em eventos do setor educacional e de tecnologia.

No evento, outra atração roubou olhares: robôs de combate construídos a partir de hoverboards ilegais. O trabalho é do professor Heiton Gomes, do IFSP Sorocaba, que aproveitou quase todo o equipamento original para dar vida a um robô surpreendentemente resistente e equipado com lança-chamas.

“Aproveitamos rodas, bateria e placa. E construímos um corpo muito mais forte. Um robô dessa categoria custa de 10 a 15 mil reais. Com reaproveitamento, gastamos entre 500 e mil”, diz Heiton.

A iniciativa da Receita Federal vai além da destinação sustentável. Equipamentos que antes representavam prejuízo e risco, TV Box podem permitir invasão de redes domésticas e até interferir em comunicação aeronáutica, agora alimentam oficinas de robótica, laboratórios escolares e projetos sociais.

A ação também abre portas para experiências acadêmicas raras: engenharia reversa, reciclagem tecnológica, economia circular e desenvolvimento de soluções de baixo custo.

No evento, estudantes, professores e servidores destacaram que o impacto vai além do laboratório: está chegando a escolas rurais, salas improvisadas, projetos comunitários e realidades que normalmente não se beneficiam de tecnologia nova. (João Frizo - programa de estágio)