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Décimo terceiro salário aquece economia, mas perde força diante do custo de vida

Segundo o Dieese, o benefício movimenta cerca de R$ 250 bilhões por ano

11 de Novembro de 2025 às 21:30
Cruzeiro do Sul [email protected]
Trabalhadores planejam quitar contas, poupar ou realizar pequenas compras com o dinheiro extra
Trabalhadores planejam quitar contas, poupar ou realizar pequenas compras com o dinheiro extra (Crédito: ALISSON ZANELLA)

Com a proximidade do fim do ano, o décimo terceiro salário volta a movimentar a economia e a rotina dos trabalhadores brasileiros. Instituído em 1962, o benefício é um direito garantido a todo empregado com carteira assinada, sendo tradicionalmente pago em duas parcelas — a primeira até o dia 30 de novembro e a segunda até 20 de dezembro. Mas, apesar de representar um alívio financeiro para muitos, nem todos acreditam que o valor seja suficiente diante do custo de vida atual.

Embora o décimo terceiro continue sendo aguardado com expectativa, há um sentimento geral de que ele poderia ser aprimorado — seja na forma de pagamento, na data ou até mesmo no valor. Para alguns, o dinheiro extra representa uma oportunidade de colocar as contas em dia e começar o ano sem dívidas. É o caso da vendedora Taliane Vieira Santos, que afirma planejar com antecedência o uso do benefício. “Pretendo colocar as contas em dia e adiantar os pagamentos do começo do ano. Planejo com antecedência para saber onde vou usar o dinheiro”, contou.

Ela também acredita que o pagamento poderia ser feito de uma única vez, para facilitar o controle financeiro. “Pagando em duas parcelas é bom, mas acho que deveria ser pago de uma vez só. Facilitaria.” A mesma opinião é compartilhada por Gilberto Lopes, vendedor, que também defende a unificação do pagamento.

Apesar disso, ele valoriza o benefício e reconhece sua importância no orçamento doméstico. Ainda assim, acredita que o décimo terceiro poderia passar por melhorias. “Quando a gente é um bom funcionário e ajuda a empresa a crescer, devia haver uma valorização maior. Precisava de melhoria”, diz Lopes.

Para Weslei Tronu, há uma percepção de perda de poder de compra. Ele afirma que costumava investir metade do décimo terceiro e gastar a outra metade, mas que isso mudou com o tempo. “Antes, 50% era aplicado e o outro 50% eu gastava.” O assessor jurídico explica que, apesar de o benefício sempre ter sido pago corretamente, o valor já não representa o mesmo alívio de antes. “Ajudava bastante a pagar contas, viajar, sair. Mas hoje é insuficiente, por causa da inflação. O salário não acompanha, e o décimo terceiro acaba não rendendo como deveria”, avalia.

Já outros trabalhadores acreditam que o décimo terceiro é uma oportunidade de realizar pequenos desejos, como viajar ou investir em momentos de lazer. Jade Rodrigues Antunes, por exemplo, costuma usar o dinheiro para descansar e aproveitar o fim de ano. “Eu gostava muito de viajar, então sempre investia nisso, em passear um pouco”, conta.

Mesmo assim, ela reconhece que, com o aumento do custo de vida, o benefício também acaba sendo destinado a despesas básicas. “Ajuda muito a colocar as contas em ordem, porque hoje em dia está difícil, tudo muito caro.”

Apesar de algumas críticas, todos afirmaram nunca ter enfrentado atrasos ou problemas com o pagamento do décimo terceiro. Entre o desejo de um valor mais justo, a busca por melhor planejamento e a esperança de usar o dinheiro para pagar contas, o décimo terceiro continua sendo, para muitos, mais do que um salário extra — um fôlego antes de um novo ciclo.

13º salário aquece economia, mas efeito sobre consumo diminui

O 13º salário é uma das principais injeções de liquidez da economia brasileira no fim do ano. “É, em essência, um impulso temporário de demanda, que aquece o comércio e o setor de serviços. No agregado, funciona como uma ‘mini política fiscal’ natural, colocando bilhões em circulação rapidamente”, afirma o economista André Corrêa Barros.

Segundo o Dieese, o benefício movimenta cerca de R$ 250 bilhões por ano, com metade destinada ao consumo — em presentes, alimentação e bens duráveis — e o restante voltado ao pagamento de dívidas e à poupança. “Hoje, o 13º funciona mais como uma válvula de descompressão financeira do que como motor de consumo”, explica o economista, citando o alto endividamento das famílias, que supera os 70%.

O comportamento do consumidor também se adapta. “Parte do público usa o dinheiro para liquidar pendências e começar o ano ‘no azul’; outra parte reserva para compras de Natal e viagens. Com juros altos, há mais prudência — as pessoas compram de forma planejada, não impulsiva”, acrescenta.

O especialista ainda destaca que o 13º é um termômetro da formalização do mercado de trabalho. “Quanto mais trabalhadores recebem, mais sólida está a base formal da economia.” Comércio e serviços se preparam para o aumento de renda com contratações temporárias, estoques reforçados e promoções sazonais, especialmente no varejo e no turismo interno.

Por fim, o 13º também ajuda a reduzir a inadimplência no fim do ano, embora o alívio seja temporário. “O verdadeiro ganho vem para quem usa o 13º para reorganizar o orçamento, não apenas apagar incêndios”, conclui. (Lavínia Carvalho - programa de estágio)

 

 

 

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