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Audiência na Câmara expõe falhas no abastecimento de medicamentos em Sorocaba
Secretária de Saúde afirma que não houve compras de remédios por quase um ano, mas prefeitura nega informação e diz que fala ‘foi retirada de contexto’
A secretária de Saúde de Sorocaba, a médica Priscila Renata Feliciano, afirmou em uma audiência pública na Câmara de Vereadores que a cidade ficou cerca de um ano sem processos de compra de remédios básicos. A declaração repercutiu de forma ampla e gerou interpretações divergentes. Por sua vez, a prefeitura, em nota divulgada quarta-feira (15), negou que tenha deixado de realizar licitações e afirmou que a fala da secretária “foi retirada de contexto” durante a audiência.
Durante a apresentação do orçamento, estimado em R$ 1,1 bilhão, da Secretaria da Saúde para 2025, a secretária Priscila Renata Feliciano afirmou que houve um período de cerca de um ano sem processos de compra de remédios básicos. Segundo ela, a normalização da distribuição está em andamento, com 15 processos licitatórios já homologados e 170 itens aprovados. A declaração ocorreu na audiência pública realizada na segunda-feira (13), na Câmara de Sorocaba. A prefeitura, em nota divulgada na quarta-feira (15), negou que tenha deixado de realizar licitações e afirmou que a fala da secretária “foi retirada de contexto” durante a audiência.
O Executivo destacou que o abastecimento das farmácias municipais segue ativo e que a população “não está desassistida do fornecimento de medicamentos essenciais”. Ainda segundo a administração, mais de R$ 12 milhões já foram investidos em compras neste ano, por meio de contratos vigentes e novos pregões.
A médica Priscila Feliciano também apresentou na audiência os principais investimentos previstos para o próximo ano, como a construção de novas UBSs, uma Policlínica e um Hospital Municipal, além da manutenção de programas de atenção básica, média e alta complexidade. O orçamento da pasta será composto por R$ 809 milhões de recursos próprios, R$ 86,9 milhões estaduais, R$ 206,7 milhões federais e R$ 5,2 milhões provenientes de operações de crédito.
A Comissão de Saúde da Câmara deve acompanhar a execução do orçamento e a retomada do fornecimento regular de medicamentos. Segundo o planejamento da Secretaria da Saúde, estão previstos para 2025 cerca de 1,8 milhão de procedimentos de média e alta complexidade, número que demonstra, segundo o governo, a necessidade de garantir a estabilidade no abastecimento das UBSs e a eficiência na gestão dos recursos públicos.
Problemas de fornecimento
Apesar das explicações, o problema de desabastecimento ainda preocupa servidores da rede pública. Uma ex-funcionária de uma UBS da zona norte, que pediu para não ser identificada, relatou que a equipe enfrenta pressão constante da população. “A gente fica na ponta levando bronca todo dia e não pode dizer abertamente que não tem porque o prefeito não compra. Falta remédio de uso contínuo, como os de colesterol, pressão e diabetes. A gente fala que talvez chegue, mas sabe que não vai chegar”, afirmou.
A costureira Edna Aparecida, 60 anos, é uma das pessoas que está sem remédio. Ela estava na UBS do Maria Eugênia, ontem à tarde, e não pode levar amitriptilina, um remédio que precisa para dormir e controlar sua ansiedade — o medicamento é um tipo de antidepressivo tricíclico (ADT), à medida que regula o humor e diminui os sintomas associados a esse distúrbio. Quem também toma o remédio é seu neto, um garoto de 10 anos.
Ela estava junto com sua filha Karina e a sogra, na unidade, atrás do medicamento. “Não encontrei o amitriptilina em nenhum posto que estou indo na zona norte. É um absurdo, mas fazer o que, disseram que não tem e não tem previsão de chegada”, lamenta. A costureira relata que isso está acontecendo desde o mês passado. A sogra também iria trocar a sonda, mas foi informada que isso não seria possível no momento, pois não havia uma nova, e a troca foi remarcada para outra data.
Já na UBS do Jardim Maria do Carmo, também ontem de tarde, a massoterapeuta e esteticista Diná Rodrigues, 54 anos, afirmou que não teve problemas com remédios, mas que sua insulina para diabetes atrasou em setembro. “E isso ocorre com frequência. É um problema, não podemos ficar na mão de ninguém. Já teve dia que eu mesmo tive que comprar o remédio na farmácia”, diz a mulher.