Antídoto
CHS recebe 60 doses de etanol farmacêutico para uso em casos de intoxicação por metanol
Envio emergencial ocorreu na sexta-feira; até o momento, Sorocaba não confirmou nenhum caso da substância
O Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS) recebeu 60 doses de etanol farmacêutico, utilizadas no tratamento de casos de intoxicação por metanol. O envio foi emergencial, na sexta-feira (10), devido a algumas suspeitas registradas na cidade, posteriormente descartadas.
Segundo o médico gerente do CHS, Guilherme Zwicker, os sintomas da intoxicação por metanol são semelhantes aos de embriaguez ou ressaca, mas com manifestações mais intensas. “O mal-estar e a dor abdominal são mais acentuados. Eventualmente, podem ocorrer problemas de visão e confusão mental. A intoxicação pode evoluir para perda visual e, em alguns casos, levar à morte por acidose metabólica”, explica.
O metanol é um tipo de álcool de uso industrial que, ao ser ingerido, é metabolizado duas vezes pelo organismo, gerando compostos tóxicos. A gravidade depende da quantidade consumida e da capacidade do corpo de eliminar a substância.
Já o etanol farmacêutico, com pureza próxima de 100% (99,5%), atua retardando a metabolização do metanol, permitindo que o organismo elimine os compostos tóxicos de forma mais segura. “Quando a metabolização diminui, o tempo se alarga, e o componente não se acumula em níveis tóxicos suficientes para causar risco de morte. O objetivo é justamente evitar o acúmulo letal, dilatando o tempo de metabolização”, ressalta o médico Guilherme Zwicker.
Além do etanol, o estado de emergência em São Paulo levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a autorizar a importação de 2.600 frascos de fomepizol, outro antídoto que impede o corpo de transformar o metanol em compostos tóxicos. No entanto, Sorocaba não recebeu esse medicamento, já que não há casos confirmados na cidade ou na região. Caso necessário, a Secretaria de Estado da Saúde fará o envio emergencial.
Quadro na RMS
Na Região Metropolitana, ainda não há casos confirmados de intoxicação por metanol. Em Sorocaba, três casos foram descartados e dois seguem em investigação, segundo dados da Secretaria da Saúde (SES).
Em todo o Estado, até a segunda-feira (13), havia 246 casos descartados, 28 confirmados e 100 em investigação. Dos confirmados, 21 ocorreram no Estado de São Paulo: um em Guarulhos, um em Itapecerica da Serra, dois em Osasco, dois em São Bernardo do Campo e um em São José dos Campos.
Cinco pessoas morreram em decorrência da intoxicação: três homens de 54, 46 e 45 anos, moradores de São Paulo; uma mulher de 30 anos, de São Bernardo do Campo; e um homem de 23 anos, de Osasco.
Fiscalização
A Prefeitura de Sorocaba intensificou as ações de fiscalização em bares, distribuidoras e comércios de bebidas, em parceria com a Vigilância Sanitária Estadual e órgãos de defesa do consumidor, para identificar possíveis produtos adulterados.
Em Itu, a prefeitura realizou a Operação Baco, com participação da Polícia Civil, Guarda Civil Municipal (GCM), Vigilância Sanitária e fiscais do Código de Posturas, com o objetivo de localizar bebidas alcoólicas irregulares. A ação passou por sete estabelecimentos em diferentes bairros, onde garrafas foram apreendidas e encaminhadas para perícia. A cidade também sediou o festival Tomorrowland, que contou com equipes de fiscalização durante o evento.
Em Tatuí, uma denúncia levou à descoberta de um galpão usado para adulteração de bebidas alcoólicas e rinhas de galos. Segundo a prefeitura, foram apreendidos galões de cachaça, garrafas vazias, substâncias químicas e equipamentos utilizados na produção e envase irregulares, além de 24 galos usados em brigas. O proprietário foi preso em flagrante.
Sintomas de ressaca podem mascarar intoxicação
Náusea, tontura, dor de cabeça e dor abdominal são sintomas comuns de uma ressaca, mas também podem indicar intoxicação por metanol. A semelhança entre os sinais pode retardar a busca por atendimento médico e agravar o quadro clínico. O metanol, quando adicionado de forma clandestina a bebidas alcoólicas, não altera cor, odor nem sabor, o que aumenta o risco de consumo acidental.
Segundo o médico nutrólogo e especialista em metabolismo Adriano Faustino, o tempo é um fator decisivo. “Quando a pessoa percebe que não é apenas uma ressaca, muitas vezes já está em fase de intoxicação grave. Por isso, a rapidez no diagnóstico e no tratamento é fundamental”, explica.
O metanol — também conhecido como álcool metílico — é um solvente de uso industrial altamente tóxico. No organismo, é convertido em ácido fórmico, que ataca o sistema nervoso central, os nervos ópticos, o fígado e os rins. Os casos graves podem causar cegueira irreversível, falência múltipla de órgãos e morte.
Ainda de acordo com o médico Adriano Faustino, não há como identificar visualmente se uma bebida está adulterada, o que torna essencial redobrar o cuidado antes do consumo. “É preciso evitar locais de procedência duvidosa e priorizar produtos com registro e rotulagem adequados”, orienta. (T.V.)
LINHA DO TEMPO DOS SINTOMAS
* Nas primeiras 12 horas, o indivíduo pode apresentar náusea, dor abdominal, tontura e dor de cabeça, sintomas que já permitem a detecção da substância em exame de sangue.
* Entre 12 e 24 horas, surgem alterações visuais, como visão borrada, sensibilidade à luz e percepção de pontos luminosos. Sem tratamento, essa fase pode evoluir para cegueira permanente.
* Após 48 horas, o risco é de falência de múltiplos órgãos e morte, já que o metanol ingerido se transforma em ácido fórmico, atingindo o sistema nervoso central e podendo causar convulsões, coma e arritmia cardíaca.
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