Buscar no Cruzeiro

Buscar

Tecnologia nacional

Soro contra picadas de abelha entra na fase final de teste

07 de Outubro de 2025 às 21:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
Terceira e última fase de estudos clínicos contará com 150 a 200 pacientes
Terceira e última fase de estudos clínicos contará com 150 a 200 pacientes (Crédito: DIVULGAÇÃO / CTS-CEVAP)

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) receberam R$ 20 milhões do Ministério da Saúde para dar início à fase final de testes do soro antiapílico, destinado a tratar o envenenamento por abelhas africanizadas (Apis mellifera). O trabalho será conduzido pelo Centro de Ciência Translacional e Desenvolvimento de Biofármacos (CTS), vinculado à Fapesp.

Tecnologia nacional

O biofármaco começou a ser desenvolvido há mais de 10 anos por cientistas do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Unesp, campus de Botucatu, com apoio da Fapesp.

“As chamadas abelhas africanizadas — resultado do cruzamento entre abelhas africanas e europeias — se tornaram uma das espécies mais comuns no País. Por um lado, são responsáveis pela produção de mel; por outro, estão frequentemente envolvidas em acidentes com humanos”, explica Rui Seabra Ferreira Jr, coordenador-executivo do Cevap.

As ocorrências variam desde picadas leves, que causam dor local e inchaço, até reações graves, como dificuldade para respirar, choque, tremores e insuficiência renal. “Infelizmente, não há hoje um antídoto específico disponível na rede pública. O atendimento segue o protocolo padrão com medicamentos para dor, inflamação e alergia, mas a ausência de tratamento específico torna os casos potencialmente fatais”, ressalta Ferreira Jr.

Cenário de saúde pública

Fatores como o uso de pesticidas, o desmatamento e a redução de recursos florais têm favorecido encontros de abelhas em áreas urbanas. Entre 2013 e 2023, o Brasil registrou 206.746 casos de picadas, com 649 mortes diretas e 50 indiretas. Em 2023, os acidentes com abelhas (33.317) superaram os ocorridos com serpentes (32.420).

“Temos um problema de saúde pública negligenciado: o aumento potencial de casos, somado à ausência de tratamento específico, que exige soluções urgentes”, alerta Ferreira Jr.

Como funciona o soro

O antiapílico começou a ser produzido em 2009, após avaliação em estudos de pós-graduação e pós-doutorado. O processo é semelhante ao de outros soros: o veneno de abelhas africanizadas é inoculado gradualmente em cavalos, estimulando a produção de anticorpos no plasma. O sangue é então coletado, o plasma purificado e transformado na formulação do soro.

Em 2013, sob a liderança de Benedito Barraviera, o Cevap, em parceria com o Instituto Vital Brazil (RJ) e o Instituto Butantan (SP), conduziu estudo clínico multicêntrico de fase 1/2. Realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Unesp (Botucatu) e no Hospital Nossa Senhora da Conceição (Tubarão-SC), entre 2016 e 2018, o estudo comprovou segurança e eficácia preliminar do soro. Participaram 20 voluntários adultos, expostos a sete a duas mil picadas. Não foram registrados efeitos adversos graves e todos apresentaram melhora clínica. A patente do antiapílico foi deferida pelo INPI no início de 2023.

Fase final de testes

A próxima etapa será a terceira e última fase de estudos clínicos, com 150 a 200 pacientes. A aprovação do financiamento pelo Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL) do Ministério da Saúde, em setembro de 2024, viabiliza a fase final dos testes. Após a conclusão, será possível solicitar o registro do medicamento junto à Anvisa e obter autorização para produção comercial e fornecimento pelo SUS. (Da Redação, com informações da Agência SP)