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Alerta

Adoçantes artificiais estão sob suspeita

Estudo da USP acompanha 12.772 adultos por oito anos e aponta associação com envelhecimento cerebral precoce

04 de Outubro de 2025 às 19:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
Consumo frequente está relacionado a perdas de memória e raciocínio
Consumo frequente está relacionado a perdas de memória e raciocínio (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO)


A ideia de que adoçantes artificiais são aliados da saúde, especialmente na substituição do açúcar, pode estar com os dias contados. Uma pesquisa inédita, conduzida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), revela que o uso frequente desses produtos está associado a um declínio mais rápido das funções cognitivas. O trabalho, publicado em 3 de setembro na revista Neurology, da American Academy of Neurology, é um dos mais robustos já realizados no Brasil sobre os efeitos a longo prazo dessas substâncias no cérebro humano.

O estudo acompanhou 12.772 adultos, servidores públicos de seis capitais brasileiras, com idade média de 52 anos, ao longo de oito anos. Ao comparar os diferentes níveis de consumo de adoçantes, os pesquisadores constataram que quem mais utilizava apresentava perdas cognitivas equivalentes a 1,6 ano de envelhecimento cerebral precoce. Em números práticos: os maiores consumidores tiveram um declínio 62% mais rápido em memória e raciocínio em relação aos que ingeriam quantidades mínimas.

Os testes cognitivos aplicados no início, meio e fim do acompanhamento avaliaram memória de trabalho, fluência verbal e velocidade de processamento. Nos mais jovens, abaixo dos 60 anos, os prejuízos foram mais visíveis. Entre os diabéticos, o efeito se mostrou ainda mais intenso.

“Não é inofensivo”

A responsável pelo trabalho, a professora Claudia Kimie Suemoto, da disciplina de geriatria da FMUSP, alerta que a percepção comum de que os adoçantes são substitutos inofensivos do açúcar precisa ser revista.

“Os adoçantes de baixa ou nenhuma caloria são frequentemente vistos como alternativas saudáveis. No entanto, nossos achados sugerem que certos produtos podem ter efeitos negativos sobre a saúde cerebral. Observamos que pessoas que consomem maiores quantidades tendem a apresentar declínio cognitivo mais rápido, especialmente aquelas com diabetes”, explica.

A pesquisadora ressalta que o estudo é observacional — ou seja, não prova relação de causa e efeito —, mas aponta sinais importantes para a saúde pública. “Não se trata de dizer qual dose é segura. Os resultados sugerem que o uso deve ser evitado, principalmente de forma frequente”, afirma.

Segundo ela, a exposição é particularmente problemática em quem já tem diagnóstico de diabetes. “Essas pessoas tendem a usar adoçantes diariamente e, ao mesmo tempo, já carregam um risco aumentado para declínio cognitivo relacionado ao Alzheimer e à demência vascular. É provável que essa combinação de maior exposição e vulnerabilidade biológica explique a associação mais forte observada nesse grupo”, detalha.

Adoçantes na mesa

O levantamento avaliou diferentes tipos de adoçantes. Entre eles, aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, sorbitol e xilitol mostraram associação com maior declínio cognitivo. A única exceção foi a tagatose, que não apresentou relação com perdas de memória ou raciocínio.

O sorbitol foi o mais consumido entre os participantes, com média de 64 mg por dia. Já no caso do aspartame, a quantidade analisada equivalia a uma lata de refrigerante.

Vozes da rua

Enquanto os pesquisadores alertam, nas ruas o debate se mistura a percepções pessoais, hábitos alimentares e recomendações médicas. O advogado Amauri Jorge de Carvalho, de 60 anos, decidiu cortar de vez tanto o açúcar quanto os adoçantes. “Acredito que eles façam tão mal quanto o açúcar. Até o café eu tomo sem nada. Depois dos 40, o certo é eliminar, principalmente refrigerantes. Evito ao máximo e nem compro adoçante para casa”, conta.

Na outra ponta, o aposentado Édson Antônio Luiz afirma que o adoçante passou a ser parte indispensável da rotina desde que recebeu o diagnóstico de diabetes. “Uso em tudo: café, suco, qualquer bebida. Comecei porque o médico recomendou. Já faz uns cinco anos. Ajudou a controlar minha glicemia junto com os remédios”, diz.

A aposentada Marilda Castilho, de 85 anos, também não abre mão. “Uso há muitos anos, desde que o médico proibiu o açúcar. Às vezes tenho vontade de comprar um doce, mas não compro, porque mexe com a diabetes. Vou levando com medicamentos, consultas e com a ajuda da minha filha”, afirma.

E agora?

Para a professora Claudia Suemoto, a recomendação é reduzir o consumo sempre que possível. “Mais pesquisas são necessárias antes de recomendações definitivas, mas já sabemos que evitar é o melhor caminho. Alternativas naturais, como frutas, mel ou xarope de bordo (adoçante natural feito da seiva de árvores de bordo), podem ser usadas com moderação. O mais importante é não criar o hábito de adoçar tudo”, reforça.

O estudo, baseado no Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil), um dos maiores inquéritos de saúde em andamento no país, deve provocar debate entre especialistas e consumidores. Ao trazer o cérebro para o centro da discussão, adiciona um novo alerta ao consumo cotidiano de produtos que até aqui eram vistos como “amigos” da dieta. (João Frizo - programa de estágio)


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