Vigilância sanitária
Sorocaba decreta emergência em saúde pública por risco de bebidas adulteradas com metanol
Prefeitura autoriza fiscalização imediata em bares e adegas; multas podem chegar a R$ 370 mil e antídotos serão comprados emergencialmente
A Prefeitura de Sorocaba decretou, ontem (3), situação de emergência em saúde pública diante do risco de intoxicação por bebidas alcoólicas adulteradas com metanol, substância altamente tóxica que já causou mortes em diferentes regiões do Brasil. O decreto, publicado no jornal Município de Sorocaba, terá validade inicial de 90 dias, podendo ser prorrogado.
O texto autoriza a Vigilância Sanitária (Visa), a Secretaria de Planejamento (Seplan) e a Guarda Civil Municipal (GCM) a realizar fiscalizações imediatas em bares, adegas e estabelecimentos suspeitos, além de aplicar multas que podem chegar a R$ 370,2 mil (10 mil Ufesps). Em caso de risco iminente à saúde pública, os locais poderão ser interditados de forma cautelar ou definitiva.
O prefeito Rodrigo Manga (Republicanos) afirmou que a cidade precisa agir rapidamente para proteger a população. “Essa decisão foi tomada considerando a ocorrência de casos de intoxicação grave por metanol em regiões do Estado e com risco iminente à vida e à saúde da população”, justifica. “É necessária a atuação imediata da Administração Municipal para garantir a saúde pública, prevenir novos casos e viabilizar a aquisição de medicamentos e insumos indispensáveis.”
O Executivo estuda ainda um projeto de lei que poderá elevar o valor das multas para até R$ 1 milhão.
Antídotos e rede de saúde
A Secretaria da Saúde (SES) de Sorocaba foi autorizada a adquirir emergencialmente antídotos como o fomepizol e o etanol intravenoso, que podem reverter a intoxicação e evitar cegueira ou morte. Até então, o medicamento era fornecido apenas pelo Ministério da Saúde, com retirada em hospitais de referência, como o Hospital das Clínicas, em São Paulo, e a Unicamp, em Campinas.
Profissionais de saúde em Sorocaba já foram orientados sobre como identificar sintomas de intoxicação por metanol. Os primeiros sinais podem surgir em até seis horas e incluem tontura, dor abdominal, náuseas, confusão mental e perda de coordenação motora. Em casos graves, pode haver cegueira irreversível, convulsões, insuficiência renal e coma.
O impacto nos bares e adegas
Nos estabelecimentos da cidade, o decreto chegou acompanhado de apreensão e dúvidas. Jéssica Carolina da Silva, 31 anos, dona de uma adega no Jardim Brasilândia, relata que os clientes estão atentos e demonstram medo. “É uma coisa que surgiu de repente, ninguém esperava. Até nós, que trabalhamos no comércio, também estamos apreensivos. Eu tenho um bar, mas não bebo. Mesmo assim, tenho meus clientes e preciso me preocupar com a vida deles.”
Jéssica diz que ainda não notou queda nas vendas, mas que o tema está em todas as conversas. Segundo ela, um dos maiores problemas é a dificuldade em garantir nota fiscal em atacadistas. “Agora a gente precisa ficar ainda mais firme nisso, exigindo nota fiscal e cuidando para que esteja tudo certinho. O problema é que muitos atacadões não emitem nota fiscal, e isso é muito preocupante.”
Na Vila Esperança, a empresária Isabella Mariana, 22, afirma que as vendas continuam estáveis, mas a desconfiança é evidente. “O que dá para perceber é que tem bastante gente assustada. Às vezes, quando alguém chega e pergunta, logo já fala: ‘Não tem metanol, né?’. Então, essa preocupação existe, sim.”
Ela reforça que mantém toda a documentação em ordem, mas também sente medo diante das notícias. “Não dá pra saber se vem da fábrica ou se alguém coloca depois. Esse é o maior problema: a gente não tem como ter certeza da origem.”
Já o empresário Guilherme Fernando Conceição, 35, dono de um bar que vende cervejas e vinhos, diz que mesmo quem não comercializa destilados sente a insegurança. “Eu fico com medo, né. Mesmo só ingerindo bebida zero álcool. Eu garanto sempre a segurança para os meus clientes, peço nota fiscal de tudo. A gente fica com medo, mas faz o possível para manter a confiança.”
O Clube de Campo de Sorocaba também anunciou que suspendeu a venda de bebidas alcoólicas até que haja maior segurança sobre o problema.
Casos recentes na região
O decreto em Sorocaba também ganha força diante de uma sequência de operações policiais e fiscalizações realizadas em cidades vizinhas, que expõem a dimensão do problema.
Em Itapetininga, na quinta-feira (2), a Polícia Civil apreendeu dezenas de garrafas de vidro de marcas conhecidas, todas vazias e aparentemente preparadas para reutilização, em um ferro-velho investigado por suposta produção de bebidas adulteradas. No mesmo local, foram encontrados 18 sachês de “chumbinho”, substância altamente tóxica e proibida no Brasil. O material foi lacrado e encaminhado para perícia.
Já em Salto, na quarta-feira (1º), policiais localizaram galões de cachaça de origem duvidosa, armazenados em recipientes plásticos semelhantes aos usados para água mineral, sem qualquer identificação ou rótulo. O bar vistoriado também escondia duas máquinas caça-níqueis em um cômodo nos fundos. O proprietário alegou não conhecer a procedência da bebida, adquirida por meio de intermediários. Todo o material foi apreendido e o caso segue em investigação.
Em Pilar do Sul, a atuação foi de maior porte: a Polícia Federal, em conjunto com o Ministério da Agricultura, realizou fiscalização em uma indústria de bebidas, diante de suspeitas de que insumos químicos estariam sendo utilizados em concentrações fora dos padrões permitidos pela legislação. Amostras foram coletadas e enviadas a laboratórios especializados para análise.
Caso de Itu
Na região, um episódio recente aumentou a preocupação. Em Itu, um empresário de 38 anos morreu após cerca de 20 dias internado com suspeita de intoxicação por metanol. Durante fiscalizações, cerca de 80 garrafas de bebidas foram apreendidas em uma adega do município.
A cidade também foi alvo de boatos nas redes sociais, quando moradores relataram que a água da torneira teria ficado rosa devido a contaminação. A companhia de saneamento desmentiu os rumores, explicando que a alteração foi causada por excesso de permanganato de potássio no tratamento da água, sem relação com o metanol.
Ações estaduais e nacionais
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que reforçou o estoque de antídoto contra intoxicação por metanol, distribuindo 2.500 ampolas de etanol absoluto a hospitais de referência. O órgão também confirmou 11 casos de intoxicação e uma morte no Estado, enquanto outros seguem em investigação.
No âmbito nacional, o Ministério da Saúde anunciou a compra de 150 mil doses de antídoto e articula a importação do fomepizol, tratamento mais eficaz, ainda sem registro no Brasil. A Anvisa também acionou agências internacionais e mapeou cerca de 600 farmácias de manipulação com capacidade para produzir etanol puro como alternativa emergencial.
Em paralelo, bares na capital paulista suspenderam a venda de destilados por precaução, enquanto a Polícia Federal investiga adulterações em bares e restaurantes no País. (João Frizo - Programa de estágio)