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Vida nova

Menina resgatada está em processo de socialização

Criança, que era mantida em cárcere privado, agora está em abrigo e apresenta avanços nas fases de higiene, alimentação e saúde

09 de Setembro de 2025 às 22:55
Beatriz Falcão [email protected]
Desde 29 de agosto, a menina recebe o devido acompanhamento e tem aceitado demonstrações de carinho, como beijos e abraços
Desde 29 de agosto, a menina recebe o devido acompanhamento e tem aceitado demonstrações de carinho, como beijos e abraços (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Após uma semana e meia do seu resgate, a menina de 6 anos, que era mantida pelos próprios pais em cárcere privado, continua em processo de readaptação social. Ela viveu isolada dentro de casa durante toda a sua vida, sem contato com o mundo externo ou outras pessoas. Desde 29 de agosto, no entanto, data em que foi resgatada pelo Conselho Tutelar, está em um abrigo, recebendo o devido acompanhamento.

De acordo com a conselheira tutelar municipal Lígia Guerra, a menina tem interagido bastante com outras crianças do serviço de acolhimento e, inclusive, aceitado demonstrações de carinho, como beijos e abraços. “Atualmente, estamos em processo de socialização. Cada dia é uma novidade e ela está progredindo muito bem”, afirma Lígia, que acompanha o caso.

Além do convívio com outras crianças, a menina está aprendendo atividades simples do cotidiano, que não foram ensinadas pelos pais. Um exemplo são os hábitos básicos de higiene, como ir ao banheiro e lavar o cabelo. Ela fazia as necessidades em pé, sem utilizar o vaso sanitário de forma adequada.

A alimentação é outro desafio. Quando sob os cuidados dos pais, a menina recebia apenas líquidos. Agora, no serviço de acolhimento, as equipes estão introduzindo, aos poucos, alimentos pastosos, administrados com colher. O uso de soro ainda é necessário, mas com menos frequência do que na semana anterior.

Em razão das condições em que era mantida, ela também passou, pela primeira vez, por atendimento médico. Os primeiros exames constataram infecção urinária, infecção sanguínea, intolerância à lactose e afundamento do tórax. A alteração torácica pode estar relacionada à falta de deglutição, possivelmente porque a criança nunca recebeu alimentos sólidos, ou a outra intercorrência.

Nesta semana, a menina será avaliada por uma equipe multidisciplinar, incluindo psicólogo, psiquiatra e terapeuta ocupacional, para um diagnóstico mais completo. “Ainda está muito no início. Ela passará por esse acompanhamento para avaliar a necessidade de medicação e tratamentos. No entanto, com o processo de socialização, ela tem demonstrado grande evolução”, explica Lígia.

E os pais?

Os pais da criança foram presos na quinta-feira (4) passada, no Jardim Santa Esmeralda, zona norte de Sorocaba, acusados de manter a filha em cárcere privado. A prisão foi efetuada pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).

Após a audiência de custódia, o casal permanece em prisão temporária, pelo prazo de 30 dias. De acordo com a delegada titular da DDM, Renata Zanin, as investigações seguem em andamento.

Entenda o caso

O caso veio à tona na quinta-feira, quando os pais da menina foram detidos. Segundo o Conselho Tutelar, a situação chegou ao conhecimento do órgão por meio de uma denúncia anônima, feita por telefone.

No local, os conselheiros levaram cerca de uma hora para conseguir acesso à residência. O pai teria recebido a equipe de forma hostil, recusando a entrada. A mãe também relutou em colaborar, afirmando que só poderia comparecer ao Conselho em outro dia. Após insistência, ela entregou os documentos da filha e concordou em levá-la até o Conselho Tutelar.

Após ser informada do caso, a Polícia Civil solicitou à Justiça a prisão temporária do casal, bem como um mandado de busca e apreensão. Ambos os pedidos foram deferidos e cumpridos na quinta-feira.

Durante as investigações, as autoridades constataram que a menina vivia isolada dentro de casa, sem contato com outras crianças, sem ter frequentado escola ou recebido acompanhamento médico regular. A alimentação era feita exclusivamente por meio de seringas, com líquidos preparados no liquidificador.

Lígia Guerra informou que não havia registros anteriores de denúncias relacionadas ao caso. Segundo ela, parentes da menina teriam tido o último contato com ela quando ainda tinha apenas nove meses de idade.