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Em Sorocaba

Livro infantil é retirado das escolas por suposta polêmica com diabo

Assunto pode ir ao Conselho Municipal de Educação; especialista diz que livro está sendo mal compreendido

08 de Setembro de 2025 às 08:39
Tom Rocha [email protected]
A polêmica estaria no fato da letra
A polêmica estaria no fato da letra "T", de seu alfabeto como médoto de aprendizado infantil, ser representada por um tridente, o que, na visão de alguns, seria uma referência ao diabo (Crédito: Reprodução)

A Secretaria da Educação de Sorocaba (Sedu) determinou a retirada imediata do livro ABC Doido das escolas municipais. A medida foi formalizada em documento assinado no dia 3 de setembro, após queixas de pais de alunos. A polêmica estaria no fato da letra “T”, de seu alfabeto como médoto de aprendizado infantil, ser representada por um tridente, o que, na visão de alguns, seria uma referência ao diabo. O recolhimento deve ser concluído até esta terça-feira (9), com os exemplares sendo entregues ao Centro de Referência em Educação. A prefeitura diz que ainda não sabe quantas unidades do livro existem na rede.

Especialistas e a editora Melhoramentos, que publicou o livro, lamentam a decisão. O título em questão foi escrito por Angela Lago, autora falecida em 2017, e é considerado um clássico da literatura infantojuvenil nacional, sendo premiado com o Jabuti de Melhor Livro Infantojuvenil (prêmio de maior prestígio literário do País). Desde então, o ABC Doido já foi adotado em diversas redes de ensino brasileiras, incluindo Sorocaba. Comandada pelo bispo e secretário Clayton Cesar Marciel Lustosa, a Sedu afirmou que “os livros em questão foram encaminhados às escolas em 2012, por meio do Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), do Governo Federal.”

O que diz a Sedu...

A Secretaria da Educação alega que “diante de questionamentos de pais de estudantes da rede municipal, solicitou, de forma cautelar, o recolhimento dos exemplares do referido livro das unidades escolares. O levantamento da quantidade de obras já está em andamento”, afirmou em nota. A pasta ainda diz que “os exemplares foram recolhidos para análise da Comissão Permanente de Análise de Títulos de Livros Paradidáticos, instituída em 2021 e regulamentada pela Portaria SEDU/GS nº 02, responsável pela avaliação de obras paradidáticas adotadas na rede municipal.” O ofício da retirada dos livros não menciona o motivo do recolhimento.

O que diz o MEC

A reportagem questionou o Ministério da Educação a respeito do caso. “A aquisição das obras se dá por meio de um chamamento público, de forma isonômica e transparente. Essas obras são avaliadas por professores, mestres e doutores, que tenham se inscrito no banco de avaliadores do MEC. Os livros aprovados passam a compor um catálogo no qual as escolas podem escolher, de forma democrática, os materiais que mais se adequam à sua realidade pedagógica, tendo como diretriz o respeito ao pluralismo de concepções pedagógicas”, afirma o órgão em nota, que reforça que a permanência no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (Pnld) “é voluntária, de acordo com a legislação, em atendimento a um dos princípios basilares do Pnld, que é o respeito à autonomia das redes e escolas.”

“A decisão sobre o uso de livro em redes municipais é de responsabilidade de cada sistema de ensino. Cabe ao MEC coordenar o Pnld em nível nacional, assegurando que os materiais distribuídos às escolas estejam de acordo com a legislação e alinhados à Base Nacional Comum Curricular”, diz o MEC.

O que diz a Editora Melhoramentos

A Editora Melhoramentos lamenta a decisão sobre o pedido de retirada do livro das escolas da cidade. “ABC Doido é um abecedário literário que utiliza o humor, o ritmo e a imaginação criativa para aproximar crianças da linguagem escrita de maneira lúdica e prazerosa. Assim como ocorre na tradição dos contos de fadas e em inúmeras obras da cultura popular, elementos fantásticos e simbólicos -- como figuras inusitadas e associações inesperadas -- são aqui recursos artísticos que despertam curiosidade, ampliam o vocabulário e estimulam a imaginação crítica”, respondeu em nota.

A empresa afirma que a obra oferece diversas possibilidades de trabalho em sala de aula, como a criação de abecedários pelas próprias crianças, a exploração de rimas e jogos de linguagem, além do incentivo à expressão artística e ao desenvolvimento da interpretação literária. Ela reforçou as premiações e prestígio do livro de Angela no meio literário, bem como a carreira da escritora. “Sua produção, traduzida e premiada internacionalmente, é marcada pela originalidade, pelo diálogo com a cultura popular e pelo compromisso em colocar a criança como sujeito ativo da leitura”, afirma.

“A Editora Melhoramentos reitera que mantém um rigoroso processo de curadoria editorial, pautado em critérios pedagógicos e culturais amplamente reconhecidos, que garantem a qualidade e a adequação de cada obra publicada. (...) Obras como ABC Doido fazem parte desse compromisso, que guia a atuação da editora ao longo de sua história”, finaliza a nota da assessoria.

Assunto rende debates

O ABC Doido foi publicado pela editora Melhoramentos em 2010. Tem 112 páginas e trata-se de um livro-jogo que estimula a alfabetização na forma de rimas e descobertas, utilizando texto em letra bastão, que auxilia as crianças em seus primeiros passos no processo de leitura e escrita. Uma professora e especialista em literatura de Sorocaba, que prefere não se identificar, afirma que Angela Lago é uma “das mais sensíveis escritoras da nossa época” e que o livro está sendo mal compreendido. “A representação do tridente no livro pode ter inúmeros significados. O tridente é o símbolo da psicologia, uma letra do alfabeto grego...reduzir a uma interpretação tão simplista é, no mínimo, um equívoco. Ainda mais quando falamos da autoridade máxima em educação no município”, comenta em reservado.

O tema reverberou na Câmara. A vereadora Iara Bernardi (PT) protocolou requerimento pedindo esclarecimentos sobre os critérios que fundamentaram a medida. Entre os pontos levantados por ela, estão se houve parecer de equipes pedagógicas ou do conselho de educação antes da retirada e se a Prefeitura pretende substituir a obra por outros títulos, definindo quais parâmetros serão utilizados nessa escolha.

“Comecei o debate do requerimento e continua na próxima sessão (amanhã). Peço inclusive que essa atitude seja debatida no Conselho Municipal de Educação obrigatoriamente”, afirmou a parlamentar.

Dylan Dantas (PL), que é presidente da Comissão de Educação na Câmara, afirma que toda reclamação dos pais precisa ser apurada. “A infância precisa ser preservada e cabe ao poder público zelar pelo conteúdo que chega às nossas crianças. Queremos uma educação de qualidade, mas sempre com responsabilidade e respeito aos valores das famílias. Se, neste caso, a Prefeitura constatou que o livro traz textos e imagens que ferem esses valores e podem afetar o desenvolvimento das nossas crianças, a retirada dos exemplares das escolas se mostra uma medida prudente”, afirmou.

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