Criminosos cibernéticos
Aumentam os golpes envolvendo nomes de bancos
Estelionatos por meio eletrônico crescem mais que os roubos, aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024
Os golpes nos quais criminosos enviam mensagens de texto ou ligam anunciando supostas clonagem de cartão, compras suspeitas, liberação de cartões e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), dentre outras mentiras, estão cada vez mais comuns.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 mostra que, ultimamente, os estelionatos por meio eletrônico cresceram mais do que os roubos no Brasil.
Conforme o documento, entre 2022 e 2023, as fraudes digitais subiram 13,6%, enquanto os assaltos a banco e demais instituições financeiras caíram 30%. Os outros a comércios também diminuíram 18,8%.
O Cruzeiro do Sul pediu à Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) dados sobre a quantidade de casos em Sorocaba neste ano e em 2023. Porém, o órgão informou ser necessário solicitá-los via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Mesmo sem os dados oficiais, o delegado assistente do Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-7), Felipe Marino Orosco, nota crescimento constante de denúncias deste tipo de fraude. A população também observa esta alta na prática.
O aposentado Valmir Antunes da Costa, 74 anos, por exemplo, estima já ter recebido cerca de 80 mensagens. Os fraudadores sempre anunciam falsas compras de valores altos em nome do idoso, clonagem ou liberação de cartões bancários.
Para bloquear a transação e o cartão ou aceitar o novo, os falsários informam ser preciso acessar links e preencher formulários com dados pessoais ou responder os SMSs com as informações.
Como sabe que se tratam de fraudes, Valmir sequer abre esses conteúdos e, com isso, nunca foi vítima. Inclusive, ele denuncia todos os números à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). “Na primeira vez em que recebi mensagem, fui até o banco e o gerente me instruiu que banco nenhum liga ou manda mensagem para ninguém”, conta.
Cautelosa, a microempreendedora Josenita Sales Santos, 58, também nunca caiu nos golpes, mas o volume de mensagens e ligações telefônicas a incomoda.
Segundo ela, embora bloqueie os números, os fraudadores passam a usar outros. “Em um dia, recebi uma média de 20, 30 mensagens. Ligação, então, é o tempo inteiro; tanto que já até perdi as contas. Às vezes, estou fazendo as coisas e tenho de parar para atender o celular. Eu fico irritada demais”, comenta.
Ainda conforme Josenita, os links são muito parecidos com os dos sites oficiais dos bancos. As chamadas também se assemelham bastante às das instituições financeiras. Apesar da tentativa de convencimento, ela não acessa nada e nem mesmo fala o seu nome nas ligações.
Já o caso da vendedora Gecilda Dourado, 63, é inusitado. Ela sacou o FGTS há tempos e não tem mais qualquer valor a receber. Mesmo assim, chegam em seu celular diversos avisos de que já pode retirar o fundo.
Cuidados
De acordo com o delegado Felipe Marino Orosco, muitos desses cuidados já seguidos pelas pessoas estão corretos. A primeira recomendação, informa ele, é jamais clicar nos links e passar dados por mensagem ou ligação, pois os bancos não fazem esse tipo de contato.
Outra orientação é desconfiar da pressa de quem está do outro lado da linha. “O que geralmente demonstra, de maneira inequívoca, que se trata de golpe é que o criminoso exige que a vítima aja de maneira muito rápida”, explica. “Ele vai impor uma situação em que a vítima vai ter de agir naquele momento e não ter tempo para refletir.”
Se ainda ficar com dúvida sobre a veracidade do contato, o ideal é ir pessoalmente ao banco para esclarecê-la. Se não for possível, deve-se contatar a instituição por outros canais que não o telefone, como pelo aplicativo. “Muitas vezes, os criminosos têm sistemas que fazem a vítima acreditar que está ligando para o banco, mas a ligação é desviada para eles”, alerta o delegado.
Mais um conselho importante é não instalar, em hipótese alguma, apps sugeridos pelos golpistas. O mesmo conselho vale para seguir passos indicados por eles, pois a vítima pode baixar alguma ferramenta sem perceber. “Ela [a vítima] pode instalar um aplicativo que permite que o criminoso acesse o celular dela remotamente. É o chamado golpe da mão fantasma”, informa Felipe Orosco.
Denúncias
Se precaver é a melhor alternativa para não cair nas fraudes, mas quem foi vítima também pode ajudar a combatê-las. O delegado destaca que as denúncias ajudam no trabalho da Polícia Civil e, por isso, são importantes. O boletim de ocorrência pode ser feito na delegacia mais próxima ou pela internet (delegaciaeletronica.policiacivil. sp.gov.br).
De acordo com ele, a partir dos registros, os investigadores conseguem cruzar dados e identificar se os mesmos fraudadores praticam uma série de crimes. Com isso, a quadrilha é desmantelada e devidamente punida.
Ainda segundo Felipe Orosco, com a inclusão do crime de fraude eletrônica no Código Penal brasileiro, a pena para essa prática — de quatro a oito anos de prisão — tornou-se superior à penalidade para estelionato comum — um a cinco anos.
Dependendo do caso, o indiciado ainda pode responder por delitos com penalidades mais graves, como lavagem de dinheiro — três a dez anos de reclusão — e associação ou organização criminosa, cujo tempo de prisão pode chegar a dez anos.
Criminosos não têm alvos específicos e investem na sofisticação das fraudes
O delegado Felipe Marino Orosco afirma que as quadrilhas não possuem alvos específicos, mirando em grupos de todos os perfis e investindo na sofisticação dos golpes. O objetivo é torná-los mais convincentes.
Segundo Felipe, os bandos compram sistemas de ligações com as mesmas características dos canais dos bancos, a exemplo da secretária eletrônica e jingles. Também adquirem dados vazados para, ao menos, poderem iniciar a conversa e tentar ganhar a confiança das pessoas.
Galeria
Confira a galeria de fotos