Sorocaba
Comerciantes denunciam aumento da insegurança no entorno da Rodoviária
Polícia confirma aumento de 46% no número de roubos, furtos e tráfico de drogas na região em 2022
O medo e a insegurança têm feito parte da vida de comerciantes e moradores do entorno da Rodoviária de Sorocaba nos últimos anos. São relatos de furtos, roubos, brigas e tráfico de drogas que tornaram o ponto de chegada e partida do sorocabano um lugar perigoso, que exige cuidado e atenção redobrada da população que passa pelo local. Segundo a Polícia Militar, foram atendidas 157 ocorrências na região da rodoviária em 2022 -- um aumento de 46% em relação a 2021 -- quando foram registradas 107 ocorrências. Do total de ocorrências atendidas em 2022, houve registro de oito roubos, 15 furtos e 9 flagrantes de tráfico de drogas. Até o momento, neste ano, 18 ocorrências foram atendidas na região pela PM.
Funcionário há 18 anos de uma lanchonete localizada no prédio da rodoviária, o gerente Isidro Aparecido de Souza, de 37 anos, afirma que além das lojas, os passageiros também têm sido roubados. Ele conta que as pessoas que praticam o ato -- em sua maioria, moradores de rua -- roubam o celular de passageiros e saem correndo. “Esses casos de furtos e roubos geralmente envolvem pessoas que vivem nas ruas. Fora a questão do tráfico de drogas, que tem no entorno da rodoviária”, disse.
Para o gerente, são muitas as pessoas em situação de rua dentro e no entorno do prédio da rodoviária. “É o dia inteiro e, geralmente, são os mesmos. Tem gente que os ajuda, dando um dinheirinho. Mas, quando a pessoa não quer dar, eles começam a ficar agressivos e ameaçam os passageiros. Como não tem segurança e policiamento, eles fazem o que querem aqui”.
Há anos trabalhando na rodoviária, o gerente afirma que a segurança de hoje está deixando a desejar. “Depois que a Urbes assumiu o prédio, piorou bastante. Antes tinha uma equipe de segurança melhor, com policial a paisana no final de ano, por exemplo. Depois que a Urbes veio, principalmente aqui dentro, deixou a desejar. Tem muita briga aqui dentro. Ontem mesmo um colega tentou separar uma briga de vendedores de paçoca e foi falar com o segurança da rodoviária. Ele respondeu que não podia, pois faz a segurança da sala de espera e banheiro. ‘Não posso intervir em nada’, explicou.
A solução, para Souza, é o policiamento 24 horas, incluindo o retorno da guarita da Polícia Militar na rodoviária, que foi desativada há alguns anos. “Tinha um policiamento 24 horas aqui. No mínimo, dois GCM dentro da rodoviária e seguranças no entorno, para cuidar dos moradores de rua e inibir traficantes”.
Ainda de acordo com o gerente, a Guarda Civil Municipal fica pouco tempo no local e somente no entorno. Dentro da rodoviária, ficam apenas os seguranças do prédio municipal. “É preciso trocar a equipe de segurança da rodoviária, está muito fraca. A GCM não fica o dia todo aqui. Eles cuidam do entorno, mas não ficam dentro da rodoviária. Eu entendo que a GCM não é para ficar pegando morador de rua, bêbado, e colocando para fora. Isso é serviço da equipe de segurança da rodoviária. Cada dia está aumentando mais o número de moradores de rua aqui dentro. Até o dia que acontecer uma tragédia aqui dentro”, detalhou Souza, acrescentando que “precisa melhorar o policiamento no entorno e dentro da rodoviária. Eles (GCMs) ficam ali na praça um tempinho e vão embora. Tem que ser aqui dentro da rodoviária. Como que eu vou sair correndo e ir lá chamar uma viatura para vir aqui? O policial tem que estar aqui dentro! Até eu chamar, a pessoa já fez o roubo e sumiu”.
As reclamações do gerente continuam. Ele também questiona o abandono do prédio da rodoviária por parte da Prefeitura Municipal, principalmente após o anúncio da construção da nova rodoviária, na rodovia Raposo Tavares. “A Prefeitura largou mão daqui. Mas não adianta construir uma rodoviária nova e esta ficar ao ‘deus dará’ para os passageiros. Então, até construir a nova, os passageiros e comerciantes que estão aqui ficam como? Construir a rodoviária nova não pode ser uma desculpa para a má gestão desta”, desabafou.
Souza espera que, em breve, uma reunião entre a gerência da rodoviária, condôminos, Urbes, Prefeitura Municipal e até mesmo a equipe do programa Humanização seja feita, para que temas importantes sejam abordados e soluções para os problemas sejam encontradas.
À mão armada
Em 9 de janeiro deste ano, J.F.T. -- que pediu para ter a identidade preservada -- viveu um dos piores momentos de sua vida: o primeiro roubo à mão armada em 20 anos de comércio, localizado na rua Santa Clara, próximo à Rodoviária Municipal. O comerciante foi abordado por dois homens armados, às 13h.
Aos 63 anos e com duas décadas atendendo ao público na região central, o comerciante teve que ouvir um dos ladrões chamá-lo de “vagabundo”. “Ele me levou para o fundo do comércio com o revólver apontado para mim e falou: vagabundo, cadê o dinheiro?”, contou.
Ele comenta que os dois homens entraram no comércio e olharam as roupas, fingindo ser cliente. Quando anunciaram o assalto, J.F.T disse aos ladrões que não tinha dinheiro. “Falei que eu tenho família, filha e esposa, e ele disse: ‘Eu não te mato porque você tem família, mas olha como você é vagabundo, mesmo com o revolver na cabeça, você disse que não tinha dinheiro’”.
Mesmo tentando evitar que eles descobrissem que havia dinheiro no local, os ladrões encontraram R$ 500 que J.F.T. havia escondido atrás do balcão e mais R$ 150 da loja. Ele entregou aos ladrões tudo o que tinha naquele dia. Além disso, os criminosos levaram produtos avaliados em R$ 510.
Após o roubo, o comerciante ligou para a Polícia Militao, mas não registrou boletim de ocorrência. Segundo ele, os dois homens o ameaçaram: “Disseram que se eu entregasse eles para a PM, voltariam aqui e me matariam”.
“Pessoas do bem”
O comerciante aproveitou a entrevista para comentar sobre a segurança na região. “Está difícil esse nosso meio, precisamos que os policiais cheguem firme. Aqui é tudo gente honesta, do bem, trabalhadora. Precisa ter ordem e respeito”, comentou. Para ele, a segurança na região não é a mesma de quando chegou ao local, anos atrás. “A questão da segurança está muito ruim, está tudo largado, o pessoal está ‘deitando e rolando‘, roubando os comércios e os pedestres que passam por aqui. É fora do comum. Eu presencio cenas de pedestres passando e sendo roubados. Levam celular, bolsa, carteira e saem correndo. Isso acontece durante o dia e a noite”, disse.
Na entrada de seu comércio, é possível notar que os produtos estão amarrados, para que não sejam roubados. Dentro, as roupas ficam presas com alfinete, para dificultar um possível roubo ou furto. Ele contou que, antigamente, havia uma guarita da Polícia Militar na praça Santa Cruz, que fica a poucos metros de sua loja, e opina que a mesma deveria ser reativada.
“Quando comecei aqui, tinha guarita da polícia na praça Santa Cruz. Quando tinha a guarita na rodoviária também, era mais seguro. É preciso deixar viaturas nessas praças. Eu não posso nem ir ao fundo do meu comércio, porque quando volto, está faltando algum dos produtos que estavam expostos ali na calçada. Se parasse policiais nas duas praças, ajudaria muito os comerciantes”, concluiu.
Abaixo-assinado
Os moradores de um prédio localizado em frente à praça Santa Cruz estão realizando um abaixo-assinado pedindo que os setores competentes da Prefeitura Municipal resolvam a “situação caótica próximo à Rodoviária”, por conta de “pessoas desocupadas, pondo em risco as pessoas de bem que por ali transitam”. O responsável por elaborar o documento e por buscar as assinaturas é o aposentado Ariovaldo de Melo, de 85 anos.
No documento, elaborado em 3 de fevereiro, os moradores pedem que a guarita que existia antigamente na entrada da rodoviária seja restaurada, devido aos vários casos de roubos e furtos constatados na região: “Esse problema está proliferando a cada dia. Por favor, esperamos que o setor competente tome medidas urgentes sobre o assunto. As aglomerações dos indivíduos estão entre a avenida Presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira e as travessas Vicente de Carvalho e Raimundo Correa, próximo ao número 33”.
Morador da região há doze anos, o aposentado afirma que a segurança no bairro está cada dia pior. “Pessoas daqui já foram assaltados. Uma pessoa do prédio foi ao supermercado no último domingo (5), durante a manhã, e foi seguida por um homem quando estava voltando para casa. Ela então pediu socorro para um funcionário da rodoviária, que trouxe ela até o prédio”, contou.
Melo comenta que deixou de fazer compras no supermercado que fica no prédio da rodoviária, devido à insegurança. “Costumo fazer as coisas a pé. Agora faço compra em outro supermercado, porque essas pessoas ficam ali, em frente à rodoviária, ou próximas a ela. Tinha uma base da polícia ali. Agora virou depósito de material de limpeza”.
O que diz a Prefeitura
Em nota, a administração municipal afirma que a Guarda Civil Municipal (GCM) realiza, em conjunto com a Polícia Militar (PM), patrulhamentos diários e constantes na região do entorno da rodoviária, inclusive com paradas no local, em praças e ruas do entorno, de dia, à noite e de madrugada. “Conforme levantamento da GCM, ao longo de 2022, a corporação realizou 1.270 ações no entorno da rodoviária, incluindo patrulhamentos, operações e abordagens. Em 2023, já são perto de 200 iniciativas”. Em relação à guarita desativada, a Prefeitura informou que está finalizando estudos para retomar o funcionamento, de forma compartilhada e integrada, como ponto fixo para equipes de patrulhamento, segurança e de assistência social.
Já sobre a segurança dentro do prédio da rodoviária, a Urbes - Trânsito e Transportes esclareceu que tem contrato com uma empresa de vigilância para fazer a segurança 24 horas nas plataformas, banheiros públicos e sala de espera. Segundo a autarquia, os agentes atuam de forma coordenada com a PM e a GCM, acionando imediatamente as forças policiais, se preciso. Ainda de acordo com a nota, não há registro de ocorrência envolvendo passageiros e usuários. “Houve, em 2022, registro de sinistros em vidraças de lojas do prédio”.
“Não comporta mais”
Ainda na nota enviada à reportagem, a Prefeitura Municipal explicou que o atual prédio da rodoviária de Sorocaba não comporta mais as atividades, “motivo pelo qual um novo empreendimento, mais moderno, amplo e equipado, está sendo projetado para ser construído em área com acesso na altura do km 106 da Rodovia Raposo Tavares”.
A administração municipal ressaltou que a partir do momento que o novo Terminal Rodoviário comece a funcionar, outra finalidade será dada ao prédio atual, mais adequada às características da cidade em “pleno crescimento”. “Enquanto isso, a Urbes Trânsito e Transportes já anunciou que será feita, até o próximo mês de março, uma revitalização, incluindo manutenção e pintura, das instalações da atual Rodoviária, bem como de toda a sinalização de trânsito nos arredores”.
Já a Polícia Militar, por meio do Sétimo Batalhão de Polícia Militar do Interior (7º BPM-I) destacou que são desenvolvidas operações no local, com emprego de policiais e viaturas em bloqueios policiais, patrulhamento e estacionamento, com o objetivo principal de aumentar a sensação de segurança da população. O planejamento do policiamento prioriza o patrulhamento dinâmico ao fixo, e utiliza a tecnologia de vídeo monitoramento para maior eficácia e abrangência. (Virginia Kleinhappel Valio)
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