Recordações
Antigas tradições de Natal permanecem na memória
Presépios, trenzinho, decoração com muitas luzes e músicas eram comuns
O Natal é um momento de recordar e resgatar tradições, porém, com o passar dos anos, muitos costumes se perdem e ficam registrados apenas na memória de quem viveu. Já outros se reinventam e são compartilhados pelas famílias por diversas gerações. Em Sorocaba, alguns costumes e eventos natalinos marcaram histórias e deixaram saudades na vida dos moradores da cidade. Um deles foi a montagem dos presépios.
A tradição não foi totalmente esquecida. Este ano por exemplo, há uma exposição no Clube União Recreativo, na sede central, ao lado da Catedral Metropolitana. Existem também famílias que ainda fazem as montagens, porém, o pesquisador José Rubens Incao conta que a prática já ocorreu com mais frequência e era bastante comum nas residências. As obras confeccionadas eram expostas nas próprias casas e atraiam diversas pessoas que apreciavam as peças. “Faziam de argila, de madeira, com movimento feito através de roldanas, de roda d’água e tinham todas as figuras. Eram muitos, inclusive um famoso na rua Santa Clara, muito grande, bonito e as pessoas iam lá festejar e homenagear o nascimento de Jesus”, recordou.
Outra tradição relembrada pelo pesquisador são os cartões de boas festas. Muito famosos até a década de 1980, eram encontrados em diversos modelos com facilidade nas papelarias do município e com ambulantes. Já as decorações espalhadas pelas ruas, principalmente no Centro, como a bulevar Braguinha, eram de fazer brilhar os olhos.
Quem viveu essas experiências foi Heraldo Neves Fernandes, de 73 anos. Saudosista, o psicólogo aposentado relata que visitava o Centro praticamente todos os dias acompanhado de sua mãe e o que mais chamava a sua atenção eram os arcos iluminados que cobriam toda a rua São Bento. Além disso, a tradição também estava presente dentro de sua residência através das decorações e das músicas de Natal que eram tocadas. “Meu pai entrava no espírito de Natal comandado pela minha mãe e enfeitava a casa inteira com festões verdes e bolas vermelhas, era cheio. Meu pai fez uma casinha e manjedoura em 1953 com caixa de charuto e eu tenho a manjedoura até hoje, como tenho o presépio inteirinho que meus pais trouxeram de Aparecida”, disse.
Já por volta de 1981, a população sorocabana teve a oportunidade de apreciar duas novas decorações que permaneceram no mesmo local durante muitos anos na cidade: a Vela e a Árvore de Natal da antiga Siderúrgica Nossa Senhora Aparecida, pertencente na época a empresa Villares. Wilson Rosado, gerente de manutenção aposentado, participou das montagens. Ele conta que as decorações eram expostas em duas caixas d’água da empresa. Para a Vela eram usadas cerca de 3 mil lâmpadas. Já para a Árvore 960. Um show de luzes que encantava quem via. “Isso para nós foi muito gratificante. Quando chegava na época de Natal o pessoal já começava a me cobrar para montar a árvore. Nós fazíamos questão de investir e trocávamos todo ano as lâmpadas, porque com o tempo se deteriorava, então toda a equipe se dedicava”, lembrou Rosado.
Depois, a Villares foi substituída pela fábrica de aços da Gerdau, que funcionou em Sorocaba até 2014. Com o fechamento da empresa, a decoração também foi extinta. Mas nem tudo que fez sucesso no passado deixou de existir. Algumas tradições retornaram, porém, reformuladas. Esse é o caso do famoso Trenzinho da Cirandinha. Tudo começou na década de 1970, quando o Papai Noel distribuía balas para as crianças em frente da loja de confecção de roupas, localizada na rua da Penha, no Centro. Movido pelo espírito de Natal, o proprietário do comércio, João Guariglia Júnior, decidiu sair com o bom velhinho pelas ruas da cidade em um trenó.
A iniciativa fez tanto sucesso que um trenzinho foi criado. O filho do comerciante e diretor de relações públicas da Associação Comercial de Sorocaba (Acso), João Francisco Guariglia, disse que as crianças faziam fila para passear no veículo que percorria não só as ruas de Sorocaba, como de Votorantim. “O trenzinho não funciona somente na época de Natal, a partir do sucesso dele, muitas escolas municipais, particulares e estaduais pediam para levar o trenzinho para a criançada passear durante o ano, como se fosse a escola dando um presente para as crianças, o trenzinho praticamente não parava. Nós temos hoje vários pais, vários adultos que andaram no trenzinho e hoje podem contar essas histórias para os seus filhos”, ressaltou Guariglia.
Histórias, que atualmente, além de contadas podem ser também compartilhadas através da mesma experiência. Afinal, a Acso retomou a tradição e o Trenzinho da Alegria como agora é chamado, voltou a fazer a alegria das crianças durante o Natal. “Eu lembro perfeitamente como era aquela época, minhas filhas, inclusive, chegaram a andar no trenzinho e hoje são adultas. Lembro que o trenzinho era apertado e os pais queriam ir juntos com os filhos, queriam passear. E essa alegria que eu via nos pais e nos filhos, eu vejo hoje também com o trenzinho da Associação Comercial. Relembrarmos a alegria daquela época transportada para os dias de hoje é maravilhoso”, disse Guariglia. (Vanessa Ferranti)
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