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Salto

Polícia faz buscas na casa de chefe de quadrilha que anulava multas

A residência fica em um condomínio de luxo em Salto; segundo a polícia, a suspeita anulava infrações no sistema do Detran

23 de Junho de 2022 às 11:32
Cômodos revirados indicam que a mulher fugiu às pressas com a família
Cômodos revirados indicam que a mulher fugiu às pressas com a família (Crédito: Vinicius Camargo (23/06/2021))

*Atualizada às 19h11

A Polícia Civil cumpre mandado de busca e apreensão na casa de uma mulher suspeita de chefiar uma quadrilha que cancelava multas do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP). A residência dela fica em um condomínio de luxo em Salto, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS). A Operação, denominada Mulcta, é deflagrada desde a madrugada desta quinta-feira (23), pela 1ª Delegacia Seccional de São Paulo, em conjunto com a Central Especial de Repressão e a Crimes e Ocorrências Diversas (1ª Cerco), e conta com o apoio do Detran. Outras sete ordens judiciais são cumpridas na capital paulista e em mais quatro cidades do interior e do litoral do Estado. Ninguém foi preso. Somente em um ano, o esquema causou prejuízo de R$ 180 milhões aos cofres públicos estaduais. 

No imóvel da investigada, foram apreendidos documentos, que vão passar por perícia. Ela, contudo, não estava no local, pois, segundo a polícia, fugiu na quarta-feira (22). Cômodos revirados indicavam possível saída às pressas. Entretanto, a mulher se apresentou à polícia na tarde desta quinta-feira, acompanhada dos advogados, e foi ouvida na própria casa. Segundo o delegado Fabio Daré, da 1ª Cerco, a suspeita agia em conjunto com despachantes de diversas cidades do Estado de São Paulo. "Ela é a pessoa que faz essa organização toda. É a pessoa que orquestra, organiza, dá a função para cada funcionário dela", afirma. 

As fraudes consistiam na exclusão de multas do sistema do Detran. Primeiramente, motoristas com informações de trânsito procuravam os despachantes envolvidos no esquema. Em seguida, esses locais encaminhavam os dados dos condutores -- como contatos e números das placas dos veículos -- para a mulher. Ela, então, acessava a rede do órgão estadual e deletava as autuações, mediante pagamento."Se (o veículo) tinha R$ 10 mil de multa, ela pedia 20% desse valor e cancelava o resto", diz Daré.

De acordo com o delegado, a suspeita tinha todas as informações necessárias para entrar no sistema, incluindo as senhas. Além disso, possuía conhecimento aprofundado sobre como utilizá-lo. "Por ser despachante, ela tinha esse nohall do funcionamento interno do Detran. Ela sabia exatamente onde tinha que ir para cancelar essas multas", fala Daré.

O responsável pelas investigações cita que a organização criminosa agia há bastante tempo, mas ainda não se sabe o período exato. O total de infrações anuladas e o valor obtido pelo bando também estão sendo apurados. Apesar de ainda não haver quantidades exatas, segundo Daré, os números são altos. Para se ter uma ideia, somente em um ano, a quadrilha teria movimentado aproximadamente R$ 180 milhões. "Em um dia, eles movimentaram (anularam multas) cerca de 580 carros. Cerca de R$ 800 mil de prejuízo para o Detran em um dia", exemplifica o delegado. Ele informa que todos esses veículos já foram bloqueados, e os proprietários serão chamados para depor. Eles podem responder por falsidade ideológica, cuja pena pode chegar a cinco anos de detenção.  

Outros mandados 

Além de Salto, a polícia cumpre outros dois mandados de busca e apreensão na capital, dois em Itanhaém, um em Peruíbe — ambos municípios do litoral de São Paulo — um em Campinas e um em Capivari, no interior do Estado. Todos os alvos nessas cidades são despachantes.

Investigações

As investigações começaram há quatro meses, a partir da prisão em flagrante de uma funcionária da suspeita. Segundo Daré, na ocasião, a mulher tentava subornar um funcionário do Detran para conseguir senhas da rede. Durante a apuração, a Polícia Civil conseguiu identificar a chefe da quadrilha e o endereço dela. Também coletou provas da participação dela no esquema. Assim, pediu a Justiça a expedição dos mandados, e a solicitação foi deferida, dando origem à ação desta quinta-feira (23). Agora, será aberto inquérito civil parar apurar o caso. 

Os policiais querem encontrar e ouvir a principal responsável pelas fraudes ainda nesta quinta-feira (23). Se condenada, ela vai responder por crime organizado, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e inserção de dados falsos em sistemas de informações. As penas para esses crimes variam de dois a 12 anos de prisão. 

Já os próximos passos, conforme Daré, são identificar os demais integrantes do bando -- funcionários dos despachantes e trabalhadores diretos da investigada. As equipes ainda buscam levantar as identidades dos condutores beneficiados pelas fraudes. Outro objetivo é verificar se colaboradores do Detran também participavam do esquema. 

O que diz o Detran

Em nota, o Detran informa que o próprio órgão identificou a fraude em seu sistema e acionou a Polícia Civil. Cita, também, ter tomado providências em relação às irregularidades. “O Detran-SP já inseriu bloqueios em seu sistema, para que não se possa efetuar nem o licenciamento e nem a transferência dos veículos, a fim de que os envolvidos não possam se beneficiar do ilícito”, pontua. “A identificação interna do ato criminoso evitou, também, prejuízo aos cofres públicos, completa.

Segundo o departamento de trânsito, apesar da anulação dos valores, a pontuação na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) nunca foi desvinculada dos proprietários dos veículos. O órgão, no entanto, não diz se abriu procedimento interno para apurar a possível participação de servidores nos crimes.

 

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