Sorocaba
Carvoeiro de Minas Gerais que perdeu a perna ganha prótese
Superação. Essa palavra resume a história do carvoeiro Ricardo Bicalho dos Santos, do interior de Minas Gerais, que perdeu parte da perna direita (amputação transtibial) em um acidente de trabalho envolvendo um trator. Depois de 11 anos trabalhando em fornos de queima de carvão, Ricardo, que carrega cestos de até 100 quilos com a perna apoiada na muleta feita por ele, realizou seu maior sonho: adquirir uma prótese para facilitar sua mobilidade no dia a dia. A prótese, adquirida por meio de uma vaquinha on-line que superou R$ 144 mil em doações, foi produzida pela Conforpés, empresa de Sorocaba especialista em próteses ortopédicas. Mais do que uma prótese, o carvoeiro vai ganhar uma casa própria e uma nova fonte de renda para sustentar sua família.
Na última semana, Ricardo esteve pela segunda vez em Sorocaba, agora para experimentar a prótese pronta, já que a primeira visita à cidade foi para tirar medidas e fazer o molde do dispositivo ortopédico. O brilho nos olhos na hora de colocar a prótese entrega a felicidade do carvoeiro. Tímido, Ricardo contém a emoção e até as palavras ao descrever a sensação de vivenciar esse momento que ele tanto sonhou. “Eu fiquei muito feliz, alegre demais para dar os primeiros passos. Estou aprendendo a andar de novo”.
Ricardo rapidamente se adaptou a prótese. Ainda em Sorocaba, na primeira semana com o dispositivo, ele subia e descia as escadas da Conforpés. Agora, a empresa vai acompanhá-lo pelos próximos meses para ajustes e etapas de adaptação. Envolvida com a causa de Ricardo, a Conforpés também doou uma prótese de banho para o carvoeiro. “É a nossa satisfação em ajudar as pessoas. E esse rapaz vale a pena”, destaca Nelson Nolé, diretor geral da Conforpés, ao dizer que a empresa doa 30% dos trabalhos realizados. Emocionado, Ricardo agradece todos os responsáveis por tornar seu sonho uma realidade. “Foi um presente mesmo. Minha fé não me deixou desistir. Que Deus abençoe cada um”.
Vaquinha
A história de Ricardo se popularizou quando vídeos mostrando o seu dia a dia nos fornos de queima de carvão foram publicados na internet. Com a perna apoiada na muleta, Ricardo se movimentava rapidamente para encher e carregar cestos de carvão, que chegam a pesar até 100 quilos. Guerreiro e batalhador, o carvoeiro de Alvinópolis, que mora com a irmã, o cunhado e os sobrinhos, mostrou na prática que é possível superar as próprias limitações.
Impactado com o vídeo, o montador Antônio Geraldo Rosa, que mora em João Monlevade, a 85 quilômetros do município do carvoeiro, procurou Ricardo e decidiu ajudá-lo, criando uma vaquinha on-line com apoio do portal Razões para Acreditar. “Um amigo meu me disse que esse rapaz era da nossa região. Então, fui até a casa dele para conhecê-lo e disse que faria o possível para ajudá-lo”, lembra.
Em poucos dias, a vaquinha atingiu R$ 40 mil. Quando Ricardo soube que estavam fazendo uma campanha para ajudá-lo, ficou emocionado. “Eu fiquei muito feliz”. Hoje, quase dois meses depois, as doações ultrapassam o valor de R$ 144 mil. O valor da campanha será destinado para a compra da prótese, de uma casa e de equipamentos para montar um lava-rápido a seco para Ricardo. “Ele não pediu nada. Ele merece tudo isso”, destaca Rosa, feliz pelas conquistas de Ricardo.
O acidente
Desde a infância, Ricardo trabalha na roça. E foi no ambiente de trabalho que o ex-agricultor se acidentou e perdeu parte da perna direita, há 11 anos. Quando estava captando água do rio para lavar o curral, a perna de Ricardo ficou presa no eixo cardan, uma peça que conecta o trator ao tanque, usada no processo de bombeamento de água. Em um momento de descuido, o pé de Ricardo escorregou quando ele foi tirar o ar da bomba hidráulica. Foi quando a bota de borracha prendeu no eixo cardan, amputando a perna abaixo do joelho. “A parte da canela da perna direita moeu toda. Só sobrou o pé dentro da bota”, lembra o carvoeiro, que ainda teve forças para desligar o trator e buscar ajuda.
Ricardo ficou quase dois meses internado para se recuperar do acidente. Na época, ele tinha 20 anos e lembra que os primeiros meses foram difíceis. “Eu tinha vergonha de sair na rua. Era difícil andar”. Mas ele não desistiu. Aos poucos, começou a sair de casa. No início, ficava na rua da própria residência. “As pessoas passavam, eu conversava. Fui perdendo a vergonha”. Para ajudar a família, Ricardo voltou a trabalhar e encontrou um serviço na produção de carvão, onde trabalhava mais de cinco horas por dia para ganhar R$ 65. “O dia nos fornos de carvão era pesado”, conta ao dizer que já chegou a dormir no forno de carvão por falta de carona para voltar para casa. “É longe da cidade”.
Mas a vontade e a necessidade de trabalhar são maiores que os desafios. Ricardo se adaptou ao trabalho pesado e fez até a própria muleta, utilizando madeira e parafusos. “Antes, eu usava muleta de alumínio, mas ela quebrava fácil. Então, vi mais ou menos como era e fiz essa mais resistente para o serviço”. Durante os dias de trabalho, Ricardo carregava sacos de carvão de até 100 quilos, com a perna direita apoiada na muleta. Por outro lado, o esforço no trabalho o deixava exausto e muitas vezes era preciso usar medicamentos para aliviar a dor na coluna. Apesar de tudo, Ricardo seguiu em sua batalha para ajudar a família e hoje incentiva outras pessoas a fazer o mesmo. “Não desista da vida, porque a vida é boa. No fim tudo dá certo”, finaliza. (Jéssica Nascimento)