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Dia do Alfaiate

Alfaiates mantêm ativa uma profissão criativa

De mãos hábeis, são criadas roupas exclusivas e sob medida para clientes exigentes, incluindo famosos

05 de Setembro de 2021 às 00:01
Vinicius Camargo [email protected]
Maurício Messias de Oliveira é alfaiate há 50 anos, inspirado pelo pai e tio.
Maurício Messias de Oliveira é alfaiate há 50 anos, inspirado pelo pai e tio. (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO (03/09/2021))

As mãos ágeis de Eugenio Galano, de 81 anos, costuram um blazer, enquanto ele fala com a reportagem. Já Maurício Messias de Oliveira, 60 anos, organiza alfinetes, durante a entrevista. Para eles, é difícil se desvencilhar da profissão até no decorrer da conversa. O ofício de alfaiate resiste ao tempo, aos avanços tecnológicos e à mudança no modo de consumo.

Dos 60 anos de vida, Oliveira se dedica há 50 ao ofício. Filho e sobrinho de alfaiates, ele cresceu em meio a máquinas de costura. “Depois da escola, eu levava o almoço para o meu pai, e ficava na alfaiataria até fechar. Com 6 anos de idade, eu já botava linha e pedalava a máquina”, conta. “De dez filhos, eu fui o único que seguiu a carreira do pai”, fala.

Oliveira conseguiu o primeiro emprego na área aos 10 anos, em uma loja. Desde então, não parou mais. “Eu gosto muito de costurar, de trabalhar com alfaiataria e, também, de ensinar. É a minha vida”, fala.

Hoje, o especialista em alfaiataria italiana, com aprimoramentos feitos naquele país, tem ateliês em São Paulo e Sorocaba. O último foi aberto em março de 2020, na avenida Betânia, no bairro de mesmo nome. Oliveira acredita que a profissão de alfaiate não deve desaparecer porque se adapta, ao longo do tempo. “A alfaiataria está se transformando com maquinário e tecidos tecnológicos”, informa. Porém, revela uma procura menor pelo serviço, principalmente, para a confecção de roupas. “Hoje, as alfaiatarias, em geral, vivem de ajustes”, afirma. Para complementar a renda, Oliveira também ministra cursos em uma oficina na parte superior da alfaiataria.

Há 70 anos

Eugenio Galano trabalha em alfaiataria há 70 anos. Começou ajudando a mãe. - FÁBIO ROGÉRIO (03/09/2021)
Eugenio Galano trabalha em alfaiataria há 70 anos. Começou ajudando a mãe. (crédito: FÁBIO ROGÉRIO (03/09/2021))

Alfaiate há quase 70 anos e dono de um ateliê na rua Mascarenhas Camelo, na Vila Santana, Eugenio Galano aponta a facilidade de se comprar roupas prontas em lojas como responsável pela queda nos negócios na alfaiataria.

Mesmo com a procura reduzida, Galano e Oliveira contam que ainda há clientes que preferem as roupas feitas por alfaiates. Entre os clientes saudosistas, há celebridades e autoridades. Oliveira já atendeu o ex-ator John Herbert (falecido) e o apresentador Jô Soares. Já a lista de quem usa modelos produzidos por Galano inclui, por exemplo, o ex-prefeito de Sorocaba Antonio Carlos Pannuzio e o atual secretário de Segurança Pública da cidade, Vitor Gusmão.

De acordo com os alfaiates, quem ainda utiliza roupas sob medida, sendo homens, em sua maioria, busca qualidade e exclusividade. “A roupa sob medida é feita especialmente para o cliente. Então é diferenciada”, pontua Galano. “O cliente (das alfaiatarias) é mais exigente com a sua elegância”, complementa Oliveira.

Se, para os clientes, receber uma peça mais requintada é satisfatório, para os alfaiates, criá-las é um prazer. “Pegar o tecido e, depois, ver a roupa pronta é muito importante. É uma satisfação”, comenta Galano.

Novas gerações

Assim como Oliveira, Galano iniciou a sua trajetória ainda menino, aos 12 anos, trabalhando em lojas. Sem familiares alfaiates, começou por motivação própria. “Nos anos 50 e 60, a minha mãe costurava em casa, para nós. Então, eu sempre ajudava a colocar a agulha na máquina dela. E o meu pai, percebendo o meu dom, me levou até um alfaiate e pediu para ele me ensinar”, relata.

Porém, conforme diz ele, hoje é bem diferente. Para Galano, a falta de interesse das novas gerações pelo ofício é outro fator que oferece riscos a sua continuidade. “Como é uma profissão muito detalhista, demora muito tempo para aprendê-la e (por isso) ninguém mais quer aprendê-la”, acredita.

O curso de Oliveira tem apenas dois alunos, atualmente, comprovando a observação de Galano. Mas, Oliveira crê em mudança desse cenário, pois, para ele, apesar de exigente, a alfaiataria não é difícil, nem demanda muitos recursos. Por isso, acredita que qualquer um pode aprendê-la e exercê-la. “Com uma máquina antiga, uma mesa velha da avó e um ferro velho da mamãe, já dá para montar uma alfaiataria”, brinca.

Amanhã, dia 6 de setembro, quando comemora-se o Dia do Alfaiate, Oliveira e Galano certamente estarão riscando um novo tecido para atender a mais um cliente exigente. (Vinicius Camargo)

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