Sorocaba e Região

‘Não é brincadeira’, diz borracheiro recuperado da Covid-19

O borracheiro Rogério passou nove dias internado ao lado do pai, que não resistiu
‘Não é brincadeira’, diz recuperado da Covid
Rogério se recuperou na Santa Casa de Sorocaba e teve de ficar dois dias na UTI. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

No último dia 8 de maio, Rogério Gonçalves da Silva, 36, cruzou de cadeira de rodas o hall de entrada da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba com uma placa onde se lia “Eu venci o Covid-19”. Depois de nove dias internado, dois deles na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), o borracheiro deixou o hospital aplaudido pelo grupo de médicos e enfermeiros que o atenderam na batalha contra a doença.

O vídeo desse momento foi divulgado nas redes sociais da Irmandade e viralizou na internet. De acordo com o Ministério da Saúde, até esta quarta-feira (13) o Brasil contabilizava 78.424 pacientes recuperados da Covid-19. Em Sorocaba, segundo a Prefeitura, além de Rogério, outras 284 pessoas conseguiram vencer a doença.

No entanto, a felicidade da recuperação do paciente veio acompanhada da notícia da perda de seu pai, também infectado pelo novo coronavírus. Narciso Gonçalves da Silva, 69, faleceu dois dias depois da alta do filho, em decorrência de complicações da doença, após 20 dias internado no hospital. O idoso tinha um histórico de tabagismo, o que teria enfraquecido os pulmões, o principal órgão atacado pelo novo vírus.

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O filho relembra os momentos que passou lado a lado com o pai, ambos internados em um quarto. “Nós estávamos juntos na UTI. Eu não sei dizer quem teve a doença primeiro, se fui eu quem passou para ele ou ele para mim. Eu perguntava dele e os médicos diziam que ele estava bem, acho que era para não me deixar nervoso”, relata.

Além do pai, o irmão e a cunhada do paciente acabaram infectados pelo SARS-Cov-2, porém apresentaram apenas sintomas leves do vírus e não precisaram permanecer internados. Os familiares teriam se contaminados depois de ter levado Narciso ao hospital. Sem máscaras ou luvas de proteção, o casal acabou exposto aos resíduos do vírus. Todo o grupo precisou permanecer isolado para não contaminar mais pessoas.

Silva acredita ter sido contaminado enquanto trabalhava junto com o pai. Oficinas mecânicas e borracharias foram classificadas como serviço essencial pelo decreto editado em 27 de março. “Eu acho que me contaminei enquanto trocava algum pneu de carro. Eles rodam por todo canto e têm muitas bactérias, devo ter pegado ali”, analisa.

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‘Não é brincadeira’, diz recuperado da Covid
Narciso, de 69 anos, pai de Rogério, morreu dois dias depois da alta do filho. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

A febre e a falta de apetite foram os primeiros indícios da doença. Dias depois, após a intensificação dos sintomas, Rogério foi levado pelo cunhado à Unidade Pré-Hospitalar da Zona Leste de Sorocaba. “Neste momento meu pai já estava internado. O que piorou minha situação é porque eu faço parte do grupo de risco, tenho bronquite. No hospital eu sentia muita fraqueza, a vista embaçada, não conseguia nem me alimentar”, afirmou.

Depois do susto causado pela doença, o mecânico segue tentando se recuperar em casa a base de uma boa alimentação, vitaminas, pequenas caminhadas diárias e o carinho da família. Rogério faz um alerta as pessoas que ainda não acreditam na gravidade da pandemia. “Isso não é brincadeira mesmo. A pessoa cai em uma cama de hospital com a doença e não sabe se vai sair. Eu não desejo isso para ninguém” diz o paciente recém curado.

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Ainda lidando com todas as mudanças e perdas causadas pelo novo coronavírus, Rogério segue olhando para o futuro. “Meu pai trabalhou 20 anos comigo, agora se foi por conta do coronavírus, mas bola para frente, vamos seguir a vida matando um leão por dia”, desabafa.

O retorno ao dia a dia de trabalho na borracharia ainda não tem data para acontecer. Por enquanto, Rogério vai reavendo as forças, reaprendendo a andar, respirar e viver sem a presença do pai. (Wesley Gonsalves)

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