Morte de bancária alerta sobre a chamada plástica sem bisturi
No último domingo a bancária Lilian Calixto morreu após passar por procedimento de preenchimento de glúteos no apartamento do médico Denis Furtado, preso ontem no Rio de Janeiro. O caso acendeu um alerta para os cuidados necessários na hora de escolher um profissional para realizar tais procedimentos, assim como os riscos no uso do Polimetilmetacrilato (PMMA). A substância ganhou fama como bioplastia, ou seja, a plástica sem bisturi e atrai pacientes pela proposta sedutora de propor resultados instantâneos. Essa substância, porém, pode provocar danos à saúde de imediato ou a longo prazo, como ocorreu no caso Lilian.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica -- Regional São Paulo (SBCP-SP) -- não recomenda o PMMA para fins estéticos, exceto para preenchimento facial em pessoas com HIV positivo para compensar a perda excessiva de gordura (lipodistrofia), consequência do tratamento da doença. Em grande quantidade, há risco de complicações expressivas, como inflamações e necrose, com potencial fatal ao paciente.
Do total de procedimentos estéticos não cirúrgicos, segundo o SBCP-SP, o preenchimento passou de 79% em 2014 para 89% em 2017. São procedimentos não cirúrgicos peeling, uso de toxina botulínica, laser, carboxiterapia e outros. Em 2014 foram realizados 271 mil procedimentos não cirúrgicos, enquanto o número subiu para 1,33 milhão em 2017.
Segundo o cirurgião plástico Giancarlo Dall"Olio, que é membro da SBCP-SP, o PMMA só pode ser utilizado em casos específicos e em pequenas quantidades. "Devido à baixa qualidade do produto existente no mercado nacional, a Anvisa proibiu o uso de diversas marcas dessa substância, mas há algumas que atendem as recomendações da agência nacional e são permitidas", afirma o especialista.
O PMMA é um produto composto por microesferas de um material muito parecido com um plástico acrílico e que se espalha pelo tecido da região após sua aplicação. Este tipo de preenchimento, alerta o médico, não é recomendado principalmente porque o polimetilmetacrilato não é absorvido pelo corpo e "automaticamente endurece dentro da região aplicada como um cimento, causando complicações pela rejeição do organismo".
De acordo com o especialista, atualmente há outras técnicas mais seguras para preenchimento, como ácido hialurônico, por exemplo. "O PMMA nunca pode ser utilizado como um substituto do silicone, como é o caso de pacientes que buscam a técnica para aplicação nos glúteos, coxas e panturrilhas, principalmente porque a dose utilizada é muito maior do que de um simples preenchimento", esclarece.
Brasil é 2º em cirurgias plásticas
A busca pelo corpo ideal coloca o Brasil como segundo país no ranking entre os que mais realizam cirurgias plásticas no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Os procedimentos, porém, podem não proporcionar o resultado esperado pelo paciente. Segundo o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), em Sorocaba, entre 2013 e 2017, foram abertas 12 sindicâncias na especialidade de cirurgia plástica e algumas resultaram na cassação do exercício profissional.
O cirurgião plástico Elvio Bueno Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica -- Regional São Paulo (SBCP-SP) --, destaca a necessidade de serem observados dois pontos fundamentais antes de qualquer pessoa decidir se submeter a uma cirurgia plástica, seja para fins estéticos ou reparadores. Primeiramente, orienta o médico, a escolha do profissional de saúde deve levar em conta a sua qualificação, com o título de especialista em cirurgia plástica emitido pela SBCP e pela Associação Médica Brasileira (AMB). "É imprescindível realizar o procedimento apenas em instalações médicas credenciadas", afirma o médico.
Ano passado, a SBCP-SP lançou uma campanha para reforçar o alerta sobre como encontrar profissionais qualificados para os procedimentos. As divulgações, destaca Garcia, foram realizadas em mídias sociais justamente porque esse tem sido o canal escolhido por muitos pacientes para pesquisar sobre a reputação dos profissionais de saúde. Contudo, o órgão alerta que as informações sobre os médicos devem ser checadas no site da entidade nacional, que é www2.cirurgiaplastica.org.br. O médico Denis Furtado, que realizou o procedimento em Lilian, usava as redes sociais e se intitulava como "Dr. Bumbum", prometendo resultados milagrosos fazendo uso do PMMA.
Denúncia
Quando o paciente que passou por procedimento estético realizado por um médico se sente lesado ele deve fazer uma denúncia ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, que instaura sindicância para averiguação dos fatos. Se durante a fase de sindicância forem constatados indícios de infração ética, que consiste no descumprimento de algum artigo do Código de Ética Médica, é instaurado processo ético-profissional. Após a fase processual, se culpado, o profissional receberá uma das cinco penas disciplinares aplicáveis, previstas em lei, pela ordem de gravidade. Entre as punições estão: advertência confidencial em aviso reservado; censura confidencial em aviso reservado; censura pública em publicação oficial; suspensão do exercício profissional por até 30 dias; ou cassação do exercício profissional.
Para fazer uma denúncia o paciente precisa formalizar por escrito a reclamação, assinada com nome completo, telefone, CPF e RG, e sempre que possível, anexar documentos comprobatórios. Em São Paulo, a denúncia pode ser entregue pessoalmente em uma das Delegacias Regionais do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=DelegaciasRegionais) ou por correio para a sede do Cremesp, localizada na rua Luís Coelho, 26, na Consolação -- São Paulo/SP -- 01309-900. Uma outra maneira para uma denúncia ser acatada é por meio de publicação de casos pela imprensa.