Sorocaba e Região

Importunação sexual de mulheres é rotina nos ônibus de Sorocaba

GCM registrou 16 casos no ano passado e Urbes outros 14, mas os números podem ser maiores
De acordo com a Urbes, a grande maioria das vítimas não faz registro do assédio por constrangimento, o que prejudica em muito a estatística. Crédito da foto: Erick Pinheiro / Arquivo JCS (5/6/2018)

Ao menos uma vez ao mês, uma mulher é vítima de importunação ao pudor no transporte coletivo de Sorocaba. Os casos são os mais variados, como homens filmando suas pernas, apalpando o corpo, se esfregando, até mesmo ejaculando nas mulheres dentro dos ônibus.

A Guarda Civil Municipal (GCM), vinculada à Secretaria de Segurança e Defesa Civil (Sesdec), informa que em 2019 foram 16 casos de importunação sexual, dentre eles quatro indivíduos se masturbaram, mostraram o órgão sexual, urinaram e ou encostaram o órgão genital na vítima; dois passaram a mão nos seios enquanto a vítima dormia; dois esfregaram a perna na vítima; dois passaram a mão nas pernas próximo à região da virilha; um fez gestos obscenos; um beijou a vítima sem consentimento; e quatro casos constam importunação sexual sem mais detalhes.

A Urbes — Trânsito e Transportes oferece um aplicativo para denúncia e por meio dele recebeu 14 reclamações desse tipo de ocorrência, mas não foi especificado o que aconteceu. O que se sabe é que esses fatos geralmente ocorrem nas linhas de maiores demandas.

De acordo com a Urbes, a grande maioria das vítimas não faz registro do assédio por constrangimento, o que prejudica em muito a estatística. O órgão municipal informa que tem ciência de que fatos como esses ocorrem com certa frequência, porém pouquíssimas vezes é acionada. “Mesmo assim, a Urbes está atenta a essa demanda e prepara uma campanha de orientação sobre o tema”, informou em nota.

Depoimentos

Somente pelos comentários de diversas leitoras no Facebook do jornal Cruzeiro do Sul, em uma reportagem com o título “Mulheres reclamam de assédio em ônibus”, publicada em 2017, já dá para ter ideia do quanto os dados sobre a importunação ao pudor no transporte coletivo são subnotificados. Enquanto as denúncias são poucas, os relatos, frequentes. Os nomes estão preservados e as frases com erros foram corrigidas para a publicação nesta matéria:

* “Quando me mudei pra Sorocaba entrei no ônibus indo do mercadão ao bairro, sentei no banco, mas no corredor tinha um homem em pé, ele fazia movimentos encostando a parte dele no meu ombro. Tirei o braço do encosto e cruzei, mas ele insistia. Fiquei doida. Preparei o braço, mas com toda força dei-lhe uma cotovelada que deve estar doendo até hoje. Trinta anos se passaram e não esqueço o rosto dele”

* “No ônibus Santa Rosália também tem isso. Outro dia tive que sair do banco, ficar em pé, pois esfregava em meu ombro e olha que o ônibus nem cheio estava”

* “Uns três anos atrás, eu ia subindo no ônibus, um senhor enfiou a mão por baixo da minha calça jeans e apertou. Eu fiquei gelada e assustada, simplesmente fiquei quieta. A gente nunca sabe qual a índole da pessoa. Tenho netos e filhos, então deixei pra lá. Falei sozinha: sem vergonha”

* “Tem um senhor alto, grisalho. Ele anda com uma pastinha na mão, daquelas de papel. Coloca a pasta no colo e fica mexendo nas partes dele”

“Tem muito disso no ônibus. Esses homens nojentos que se aproveitam de ônibus lotado… Nunca aconteceu comigo, mas já vi muito acontecendo no ônibus e as pessoas não falam por medo”

Como se proteger

Os coletivos de Sorocaba, em sua grande maioria, contam com videomonitoramento, e há ainda à disposição dos usuários o aplicativo CittaMobi, no qual é disponibilizado um atalho para que o usuário possa denunciar assalto, assédio e outros incidentes, bastando tão somente à vítima acionar o Botão de Incidentes Grave (BIG).

O BIG dispara um alerta para a Urbes informando o tipo de ocorrência, o local, o veículo e a linha. “Os nossos condutores são treinados a parar o veículo no primeiro Posto Policial, caso seja alertado pelo usuário sobre o que está ocorrendo no interior do coletivo”, informa a Urbes.

O que tem acontecido com frequência é que muitas vítimas, após denunciarem algum fato, se recusam a dar  prosseguimento e mandam liberar o acusado, pois não querem registrar ocorrência na Delegacia.

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