Sorocaba e Região

Fiéis festejam os 160 anos do nascimento de Nhô João

Os mistérios que envolvem a vida do místico João de Camargo, que viveu de 1848 a 1942, primeiro em Sarapuí e depois em Sorocaba, despertaram a curiosidade de autores sorocabanos, historiadores, veículos de imprensa e até de um dos mais famosos sociólogos brasileiros, Florestan Fernandes, que fez um trabalho acadêmico sobre a vida de “Nhô João”, como ele era chamado por seus devotos. A igreja construída por ele na avenida Barão de Tatuí, e que foi tombada pelo patrimônio histórico em 1996, continua recebendo fiéis, devotos e curiosos, que vão em busca de curas, bênçãos e milagres, mesmo após 76 anos de sua morte. Para lembrar os 160 anos do nascimento de João de Camargo, a Capela Senhor do Bonfim, também conhecida como Igreja de João de Camargo, realiza às 19h30 de hoje uma celebração, com a tradicional reza do terço.

O médico José Carlos de Campos Sobrinho, junto com o historiador Adolfo Frioli, ambos de Sorocaba, lançaram em novembro de 1999 um dos livros que conta um pouco da vida do maior místico, pai de santo, curandeiro, espírita, religioso, milagreiro, da história da cidade. José Carlos conta que a história de João de Camargo tem relevância não só para a cidade, mas também para o País, principalmente por conta do sincretismo religioso presente na vida de Nhô João, e refletido na igreja que ele construiu. “Nascido escravo e filho só de mãe conhecida, Francisca Camargo, ele aprendeu com ela os rituais de cura por meio de folhas, além de boa parte da cultura e da religião africana, por meio de elementos do candomblé e da umbanda. Porém, João de Camargo, ainda teve grande influência católica por meio da influência de Monsenhor João Soares, famoso pároco nas cidades de Sarapuí, Itapetininga e de Sorocaba, onde foi padre da igreja matriz, a Catedral”, diz o médico e autor do livro “João de Camargo de Sorocaba – O nascimento de uma religião”, escrito em parceria com Adolfo Frioli.

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Igreja foi tombada como patrimônio histórico em 1996 - EMIDIO MARQUESIgreja foi tombada como patrimônio histórico em 1996 – EMIDIO MARQUES

Segundo os autores, a pesquisa feita sobre a vida de João de Camargo revelou que ele nasceu oficialmente no dia 16 de maio de 1858, conforme consta nos registros oficiais da Cúria de Itapetininga, da qual pertencia a Igreja de Sarapuí, onde ele foi batizado. “Naquela época não havia registro civil e todos os registros de nascimento eram feitos na igreja católica”, destaca José Carlos. O autor comenta ainda que João de Camargo iniciou seu trabalho místico, de curas e atendimento às pessoas que o procuravam, após ter uma visão ou sonho com o menino Alfredinho, um garoto que morreu de forma dramática depois de cair de um cavalo e ter sido arrastado pelo animal. João de Camargo recebeu do menino a orientação para erguer uma igreja e fazer o bem. Ele também teria tido uma visão do Monsenhor João Soares, justamente quem o tinha iniciado na vida católica. “Em 1906 ele começou a atender ao lado da cruz do Alfredinho, e em seguida ele começou a construir a igreja, e em 1910 passou a atender lá. Ele também transferiu a cruz do Alfredinho, que ficava ali perto, para a frente da igreja, sendo a cruz do garoto o elemento-chave do primeiro momento histórico de João de Camargo.”

José Carlos ainda conta no livro o fato do místico ter sido perseguido, processado e até preso acusado de curanderismo. “Após ter sido considerado inocente por meio de um advogado que conseguiu provar que sua prática mística era considerada espiritismo, João de Camargo legalizou a existência de sua igreja e criou a Associação Espírita Beneficente Nosso Senhor do Bonfim, ou a Capela de João de Camargo, onde está preservado, desde a sua morte, o quarto dele.”

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Questionado sobre as curas e milagres atribuídos a ele, o médico e autor do livro sobre o místico disse que João de Camargo trabalhava com o mistério da vida. “Quando a pessoa vai fazer uma cirurgia ela deixa de orar e de ir à missa? Não! Ela vai pedir que o médico seja guiado. Todos temos essa ligação com o infinito, com o inominável, com o indescritível, ou seja, com Deus.”

Conhecido não só em Sorocaba, mas em todo Brasil e até no exterior, a história de João de Camargo ganhou amplitude ainda maior quando um pouco de sua vida foi retratada no cinema, pelo filme “Cafundó”, do ator sorocabano Paulo Betti. Entre os livros a respeito de Nhô João estão publicações de Sorocaba como “João de Camargo Barros na Vida do Povo”, de Antonio Paulo Malzoni; e “O Solitário da Água Vermelha”, de Fernando Antônio Lomardo e Sônia Castro.

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