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Estudo mostra efeitos de possível rompimento de barragem de Itupararanga

10 de Junho de 2020 às 21:19

Engenheiro civil estuda possível rompimento de barragem da represa de Itupararanga Em direção ao centro da cidade, as águas atingiriam a Praça do Canhão. Crédito da foto: Reprodução

Quem é de Sorocaba provavelmente já ouviu alguém mais velho contar o intrigante causo com desfecho hipotético: se a barragem da represa de Itupararanga se rompesse, as águas alcançariam a torre da Catedral Metropolitana de Sorocaba, situada no Centro da cidade.

De geração em geração, essa história transmitida oralmente desde que a barragem da usina hidrelétrica começou a ser construída em 1911 pela São Paulo Light and Power Co. vem despertando curiosidades, dúvidas e apreensão dos sorocabanos. O engenheiro civil Nilson Garcia Nunes, de 38 anos, também cresceu intrigado com essa narrativa e decidiu se debruçar sobre o assunto em seu trabalho de conclusão de curso defendido no final de 2019 pela Universidade de Sorocaba (Uniso).

No estudo sobre possível rompimento do paredão da represa de Itupararanga, Nunes constata que a narrativa é falsa. Conforme a análise desenvolvida no âmbito acadêmico, a Catedral estaria a salvo, a 450 metros das águas, que atingiriam a Praça do Canhão. “O ponto mais próximo da mancha de inundação em relação a Catedral estaria em 340 metros da Catedral”, afirma Nunes. O ponto mencionado corresponde mais precisamente à área da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Sorocaba, na rua 15 de novembro.

Para refutar a lenda fundamentado pela ciência, o pesquisador precisou percorrer um árduo caminho de dez meses ao final do curso de Engenharia Civil, avançando em estudos de outras áreas de conhecimento como hidrologia, a vazão d’água, e análises de geoprocessamento. Ao mesmo tempo se debruçou sobre a história da represa de Itupararanga, cujo nome em tupi significa “O barulho das águas”, e teve como responsável o engenheiro inglês Frank Robotton, que comandou uma equipe de 2 mil trabalhadores e começou a operar em 1914.

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Como apêndice da monografia, Nunes produziu uma animação, gerada por programas computacionais, que simula a trajetória percorrida pelos mais de 300 milhões de metros cúbicos de água, na qual é possível verificar a mancha de inundação que atravessaria a cidade em caso de rompimento da barragem.

https://youtu.be/CanHslsO9Wg

A simulação, feita no “pior cenário possível”, mostra um rompimento por galgamento, como é chamado o fenômeno quando as águas transbordam e causam fadiga na estrutura de concreto da represa. Segundo o engenheiro, a mancha de inundação levaria uma hora até atingir a área urbana de Votorantim. Vinte e dois minutos depois, invadiria Sorocaba, no Trevo da Vida, a uma altura de 17 metros, o equivalente a um prédio de seis andares. Em seguida, na Praça Lions, as águas chegariam a 18 metros.

Seguindo para o noroeste, conforme o curso do Rio Sorocaba, a mancha chegaria ao Parque das Águas depois de duas horas após do rompimento. O bairro Vitória Régia seria atingido pelas águas depois de três horas e o Parque São Bento quatro horas após o incidente. Depois de um hiato de aproximadamente sete horas e meia, as águas atravessariam toda cidade, até chegar ao distrito de George Oeterer, em Iperó.

Baixo risco

O engenheiro detalha que a animação foi produzida com o auxílio de um software disponibilizado pelo Corpo de Engenharia do Exército Americano e imagens aéreas, de satélite, geradas a partir do Google Earth Pro. Nunes ressalta que, apesar de todo o grau de realismo da simulação -- os parâmetros do software foram pautados em todas as variáveis capazes de se aproximar ao máximo das condições reais --, o vídeo é mera ilustração hipotética, já que, segundo ele, o nível de segurança da barragem da represa de Itupararanga é considerado muito alto pelas autoridades competentes.

“A finalidade deste estudo é estritamente acadêmico, sem fins de objeto de denúncia, alarmismo, sensacionalismo ou histeria. A barragem é classificada como muito segura e com risco muito baixo”, enfatiza. Com intuito de tranquilizar as pessoas que vivem nas áreas supostamente atingidas pela mancha de inundação, Nunes acrescenta: “Eu compraria seguramente uma casa na área que está dentro da mancha de inundação”, garante.

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Engenheiro civil estuda possível rompimento de barragem da represa de Itupararanga Apesar do baixo risco, o dano associado a eventual incidente seria alto. Crédito da foto: Emidio Marques / Arquivo JCS (6/11/2019)

Segundo o pesquisador, a classificação de “baixo risco” dada à Itupararanga é estabelecida conforme lei federal, que categoriza os riscos das barragens levando em conta uma série de critérios técnicos como altura do barramento, material de construção, deformações e recalques. A fiscalização é feita pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Nilson Nunes comenta que, apesar do baixo risco de rompimento da barragem, o dano potencial associado ao eventual incidente é classificado como alto, em função do grande adensamento populacional existente no caminho. “Analisando a mancha de inundação, a pesquisa estima que mais de 36 mil pessoas seriam atingidas, sendo 2.613 pessoas em Votorantim e 36.590 pessoas em Sorocaba”, comenta.

Diante desse cenário, o engenheiro decidiu criar um sistema de alerta que está em fase de desenvolvimento. Trata-se de um aplicativo para telefone celular, no qual o usuário poderá verificar as áreas supostamente atingidas, e que deve ser lançado até o final deste ano. “É responsabilidade social. Eu não poderia divulgar essa mancha de inundação sem propor uma solução”, conclui o engenheiro. (Felipe Shikama)