Covid-19 Sorocaba e Região

Após um ano, pandemia muda perfil de contaminados

Doença triplica números em 2021 e cresce entre adultos jovens
Após um ano, pandemia muda perfil de contaminados
Há um ano a cidade convive com as várias tentativas de isolamento social. Crédito da foto: Fábio Rogério

Assim como no restante do Brasil, em Sorocaba a pandemia da Covid-19 também apresenta características bastante diferentes das de um ano atrás. Sobretudo, no que diz respeito à faixa etária das pessoas contaminadas, mas também em relação ao próprio vírus, que sofreu mutações e apresenta novas variantes, que são ainda mais contagiosas.

A diferença é claramente percebida nos números oficiais da Prefeitura de Sorocaba se comparados a março de 2020. A cidade teve o primeiro caso confirmado da Covid-19 no dia 24 de março do ano passado, mesma data do início da quarentena em todo o Estado. Quatro dias depois, Sorocaba confirmou a primeira morte pela doença. Já no fim do mês (dia 31), a cidade continuava com um óbito, mas o número de casos confirmados aumentou para 11.

Atualmente, em março de 2021, o cenário da pandemia na cidade é mais crítico. Obviamente que, com o passar dos meses, seriam contabilizados mais casos e mortes pela Covid-19, não somente em Sorocaba, como em todo o País. Porém, os números subiram de forma bastante elevada em março deste ano.

Para os infectologistas, um ano após a pandemia no Brasil, a explicação para o expressivo aumento de casos e de mortes passa pela maior exposição e pelas mutações sofridas pelo vírus.

Em Sorocaba, durante a semana, a própria Prefeitura de Sorocaba confirmou a circulação de um total de cinco variantes na cidade, desde o início da pandemia. Entre elas, uma das mais contagiosas, que é a chamada variante de Manaus (P.1), que infecta pessoas mais jovens e até crianças. Além disso, na quarta-feira (31), o governo estadual confirmou uma sexta variante do coronavírus na cidade, parecida com a da África do Sul.

Para o secretário da Saúde de Sorocaba, médico Vinícius Rodrigues, a detecção da variante justifica a “mudança abrupta do cenário epidemiológico” nos últimos sete dias. Nesse intervalo, segundo ele, houve aumento de 90% nos casos da doença. “Precisamos da ajuda da população para conter a disseminação do vírus. Vamos continuar abrindo leitos, mas é uma variante muito transmissível que causou tudo aquilo em Manaus e hoje circula na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS).”

Os números do mês passado de casos e óbitos por Covid-19 na cidade não deixam dúvidas de que o perfil da pandemia mudou em Sorocaba. Conforme os dados oficiais da prefeitura, na última terça-feira (30) a cidade chegou ao total de 43.218 casos e 1.086 óbitos confirmados por Covid-19.

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Analisando os números somente do início da pandemia até o final de 2020, ou seja, de março a 31 de dezembro do ano passado, os números oficiais mostram que, no total a cidade havia registrado 563 mortes e 26.320 casos confirmados por Covid-19.

Já os números de 1º de janeiro de 2021 até 30 de março deste ano, mostram que a doença evoluiu bastante e infectou praticamente a mesma quantidade de pessoas em três meses. Foram 16.898 casos e 523 óbitos confirmados por Covid-19 nesse período. Ou seja: em nove meses de 2020 morreram na cidade 563 pessoas por Covid-19 e outras 523 apenas nos três primeiros meses de 2021.

Além disso, os números de 2021 sobre os óbitos mostram que adultos jovens representam aproximadamente 30% das mortes pela doença — sem falar nos óbitos de crianças –, que afetou até pessoas sem comorbidades.

Filhos lamentam a perda dos pais

Andressa Bueno Aguirra Martins, de 35 anos, de Votorantim, perdeu o pai de 65 anos pela doença. Ele foi o primeiro morador da cidade a ter a morte confirmada pelo coronavírus, no início de abril de 2020.

Já Thiago Morales Tomasi, de 38 anos, de Sorocaba, perdeu a mãe, de 67 anos, no último dia 12 deste mês. Tanto Andressa quanto Thiago afirmam que a Covid-19 é uma triste realidade e que as pessoas precisam se cuidar mais e cumprir as medidas de isolamento a fim de evitar todas as possibilidades de contágio.

Após um ano, pandemia muda perfil de contaminados
Andressa Martins e a família: a dor de não poder se despedir do pai em velório. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Andressa conta que o pai, José Geraldo Campos Aguirra, era um homem forte, alegre e que gostava de viajar. “A gente acredita que ele se contaminou em março do ano passado, durante uma viagem de navio. Logo após a viagem ele começou a passar mal, acabou sendo hospitalizado e veio a falecer”, conta a filha. Segundo ela, inicialmente, como a pandemia ainda era novidade do Brasil, a suspeita é que o pai dela estaria com dengue.

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“O resultado saiu somente após a morte dele, mas como havia a suspeita, já foi aquele enterro praticamente sem a presença dos familiares. “A gente não pôde fazer um velório e nem fazer o enterro do meu pai como as pessoas estavam acostumadas. Depois da morte dele, ficou aquele vazio. Parecia que ele tinha ido viajar e não voltou mais, já que sem o ritual do velório e do enterro, fica ainda mais difícil a gente passar pelo processo do luto”, conta a filha.

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Thiago perdeu a mãe, Fátima, que teve de ser internada em outra cidade. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Thiago também conta que a mãe, Fátima Valéria Morales Tomasi, era uma pessoa alegre, ativa e que estava se cuidando, evitando sair de casa. “Teve um dia em que ela saiu com duas amigas e depois ficou sabendo que uma delas teve contato com uma nora, que confirmou positivo para Covid-19. Alguns dias depois, minha mãe começou a ter os primeiros sintomas. Começou a fazer o tratamento em casa, mas piorou e precisou de internação hospitalar”, afirma.

Ele ainda conta que a mãe precisou de leito de UTI, mas só conseguiu vaga em um hospital de Jundiaí, onde ela faleceu. “Além de tudo, ela morreu em outra cidade. Tivemos que fazer o traslado do corpo e enterrar minha mãe sem velório. Foi bastante difícil. No começo, no ano passado, cheguei a duvidar da doença. Hoje em dia não penso mais assim e digo que é preciso se cuidar, pois também tive. Só que fiz o tratamento em casa e me recuperei”, revela.

Quem se curou, sente-se ‘vencedor’

A pandemia ainda está longe de ser vencida, mas quem se infectou e se curou, mesmo sabendo da possibilidade de reinfecção, sente que venceu uma etapa importante. É o caso da técnica em administração de empresas Marta Mayara dos Santos Alves, de 33 anos. Ela conta como se sentiu ao perceber a presença do vírus. “Senti muito medo quando me dei conta que estava com o vírus. Me recordo que havia feito uma carne de panela, bem temperada e com uma salada, mas, quando coloquei a primeira garfada não senti gosto de nada. Minha reação? Chorei enquanto me alimentava, porque ali tinha certeza que havia sido infectada”, conta.

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Após um ano, pandemia muda perfil de contaminados
Marta agradece por não precisar de internação. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

“Hoje, ao ver tantos entes queridos que estão sofrendo com essa doença e, infelizmente, aqueles que perdemos, me sinto privilegiada por ter conseguido vencer a Covid 19, com a benção divina, sem precisar ser internada. Sabemos que os profissionais de saúde tem dado seu melhor, que estão exaustivamente buscando ajudar a todos”, comenta Marta.

Para ela, manter o equilíbrio psicológico ajudou a evitar um possível agravamento da doença. “Com certeza fez total diferença. Desde que a pandemia iniciou, em nossa comunidade espiritual (Testemunhas de Jeová), mantivemos nossas reuniões e atividades de pregação de forma virtual e nossa conexão se intensificou. Fomos incentivados a manter a mente de forma racional, mas positiva, buscando fazer o que estava ao nosso alcance. Naquele momento, era preciso seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde e tomar todas as medidas de proteção que eram ensinadas”, lembra. “As conexões de amizade, com a família foram intensificadas”, acrescenta.

Alívio

Após um ano, pandemia muda perfil de contaminados
Thaila teve apenas sintomas leves. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

“O período de isolamento foi bem difícil, porque trabalho com o público e ficar sem conversar e sem sair de casa mexeu muito com o meu lado psicológico”, conta Thaila Sandrine de Oliveira, atendente de farmácia de 25 anos. “Foram dias tristes sem ver meus sobrinhos e estar juntos com eles, dias de indisposição”, diz. Thaila também perdeu um primo na pandemia.

“Agora me sinto bem melhor, não tive sintomas tão graves, foram leves, o que me deixou mais aliviada. Só de saber que não precisaria ser internada, foi muito bom. Sei como está o sistema de saúde neste momento e me tratar em casa, com tranquilidade, foi uma obra de Deus”, diz agradecida. (Ana Cláudia Martins e Marcel Scinocca)

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