fbpx
Sorocaba e Região

Apenas 3% do lixo de Sorocaba é reciclado

A cidade gera diariamente 500 toneladas de resíduos; uma média de 760 gramas por pessoa
Apenas 3% do lixo de Sorocaba é reciclado
Pesagem dos resíduos é feita para destinar ao aterro em Iperó. Crédito da foto: Fábio Rogério

Esdras Felipe Pereira e Larissa Pessoa

Cada munícipe de Sorocaba produz, em média, 760 gramas de lixo por dia, informou a Prefeitura. No total, conforme nota enviada via assessoria de imprensa em 6 de março, a cidade gera 500 toneladas diárias de resíduos e, do montante, cerca de 3% passa por processo de reciclagem, realizado por três cooperativas. Para o professor doutor Sandro Donnini Mancini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que atua, entre outras áreas, com recursos energéticos, meio ambiente, materiais, reciclagem e tratamento de resíduos sólidos, os números podem estar desatualizados.

De acordo com Mancini, ele próprio teria feito uma medida em meados de 2011 e que acabou tornando-se base para um Plano Municipal de Gestão de Resíduos Sólidos. À época, a produção per capita na cidade seria de cerca de 610 gramas/dia, levando em conta apenas resíduos domésticos. “Eu acho que não mediram de novo. No Brasil, por exemplo, o que se tem ideia é a geração de 1 quilo por habitante diariamente”, comenta.

Em janeiro de 2013, o Cruzeiro do Sul publicou reportagem em que o então prefeito Antonio Carlos Pannunzio (PSDB) falava sobre a continuidade da “exportação” de lixo sorocabano para o aterro instalado em Iperó. Nela, havia a informação de que Sorocaba produzia as mesmas 500 toneladas/dia de lixo. Em levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) cuja referência é 1º de julho de 2014, a cidade contava com população de 637.187 pessoas. No ano passado, o IBGE estimou a população municipal em 671.186 pessoas, o que teoricamente significaria um aumento na geração de resíduos.

O Cruzeiro do Sul voltou a questionar a Prefeitura a respeito do número informado e se haveria algum estudo que o baseava. “A média é calculada com base na pesagem aferida diariamente ao destinar os resíduos ao aterro em Iperó, ou seja, é uma informação prática e que dispensa a necessidade de estudos.

Em números mais exatos, a Secretaria de Saneamento conferiu uma média mensal de 511 toneladas, levando em consideração todo o ano de 2018”, respondeu o Executivo. “Sabe-se que a estagnação econômica reduz o consumo das famílias e consequentemente diminui a geração de resíduos. Esse pode ser o fator que mais contribui para que não tenha havido significativa elevação em 2018, quando comparado com a média mensal do ano 2013. Com a recuperação da economia tende haver elevação na geração de resíduos”, emendou.

Reciclagem mais efetiva

Em relação à quantia de lixo reaproveitada, o professor doutor da Unesp opina que Sorocaba teria potencial para além dos 3%. “O triste aqui é saber que estamos em um polo industrial e que a coleta seletiva teria mais mercado.” Apesar da crítica, Mancini diz que o problema não é exclusivamente municipal e sim nacional. “Existe um estudo de um professor de Uberlândia que diz que nenhum sistema de coleta seletiva desvia mais que 15% (para reciclagem) no Brasil”, cita. “E não adianta querer que aumente esse percentual sem investimento. A cidade tem prioridades e isso deve estar sendo colocado em pauta, mas talvez não seja a grande prioridade. E achar que a coleta seletiva vai se autossustentar não dá”, acrescenta.

Desde outubro de 2010, curiosamente dois meses antes à regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o lixo de Sorocaba é levado ao aterro de Iperó. Conforme Mancini, a cidade gasta, em média, R$ 200 por tonelada de lixo, o que alcançaria R$ 100 mil/dia com a geração de resíduos diária. “É muito dinheiro. Estamos faz tempo falando de coleta seletiva no Brasil e a coisa está patinando. É uma realidade brasileira, mas é bem triste que não consigamos sair do lugar. Todo mundo precisa ajudar, desde quem gera o resíduo até o poder público, incluindo o Executivo, o Legislativo e o Judiciário”, declara.

Pedagoga transforma lixo em arte

A pedagoga Nadia Xocaira, 55, faz a parte dela no que se refere à reciclagem de materiais. À parte ao trabalho que faz com internos da Fundação Casa como funcionária da Pastoral do Menor, ela aproveita as horas vagas para reciclar vidros e transformar em petisqueiras, relógios e pratos de enfeite. Além dos itens, o carro-chefe são as bijouterias. O reaproveitamento vem sendo possível há dois anos, quando conseguiu comprar um forno que derrete e contorce os vidros para deixá-los na forma ideal para a confecção dos produtos.

Ela conta que recebe o material de amigos e também utiliza garrafas de vinho, pedaços de copos quebrados, entre outros. “Eu sempre me preocupei com a questão ambiental. Aliás, eu falo com os jovens que atendo na Fundação Casa, dá para fazer tanta coisa em cima do lixo. Estávamos estudando novas profissões e vimos que catadores de lixo vêm abrindo recicladoras, tornando-se gestores de resíduos. Dá para enxergar oportunidade no lixo. Eu vivi uma boa parte da minha vida assim. O trabalho de Nadia pode ser conferido no Facebook (facebook.com/nadia.xocaira) e no Instagram (@xocaira).

Cooperativas fazem trabalho de coleta e destinação dos materiais

Apenas 3% do lixo de Sorocaba é reciclado
Um total de 115 cooperados vive da reciclagem do lixo na cidade. Crédito da foto: Emidio Marques

As cooperativas de reciclagem são essenciais para o meio ambiente, porém têm o trabalho ainda pouco valorizado e difundido. Em Sorocaba são três e mais de 110 pessoas estão engajadas na coleta, separação e destinação dos materiais. Segundo a Secretaria de Saneamento (Sesan), as três cooperativas reciclam aproximadamente 3% de todo o lixo produzido na cidade, que é, em média, 15 mil toneladas por mês. O Plano Municipal de Coleta Seletiva prevê que até 2029 a cidade consiga reciclar pelo menos 20% do lixo, diminuindo assim a quantidade de materiais levados ao aterro de inertes.

Atualmente, segundo a Sesan, são realizados estudos para ampliar o sistema de reciclagem e a administração pública fornece seis caminhões para as cooperativas, que são Coreso, Catares e Reviver. As duas últimas instituições realizam o trabalho em conjunto e contam com 52 cooperados. A Coreso, que atua na cidade há 20 anos, tem 63 colaboradores, realizando a coleta seletiva em toda a zona leste e norte da cidade.

Darci de Oliveira, 62, é tesoureiro da Coreso e conta que a cooperativa recebe dois caminhões da Prefeitura de Sorocaba, mas a estrutura ainda é precária. “Se houvesse mais investimento e mais apoio conseguiríamos ampliar os serviços e tornar esse trabalho mais rentável para os cooperados”, avalia. Segundo ele, a esteira existente no galpão localizado na Vila Colorau foi dado pela Prefeitura, porém a montagem e manutenção é por conta da cooperativa. “O dinheiro que seria dividido entre os trabalhadores acaba sendo usado também para custear o funcionamento do espaço”, explica. O presidente da Coreso, Rubens Balbino, 50, conta que os cooperados conseguem receber, em média, R$ 950 por mês.

Leia mais  Meningite infectou 37 pessoas este ano em Sorocaba

 

Balbino relata que o trabalho da cooperativa é feito com a coleta porta a porta, com os moradores cadastrados no sistema da Coreso. “Já sabemos quais casas fazem a separação e então o caminhão passa uma vez na semana no bairro”, conta. Se houvesse mais investimento, afirma Balbino, seria possível ampliar o número de residências atendidas e também difundir a importância da reciclagem através de campanhas. A Coreso recicla a média de 120 toneladas de lixo por mês.

O tesoureiro afirma que o material que mais gera renda é a garrafa pet, usada principalmente como embalagem de refrigerante e água. Atualmente, afirma, o quilo desse plástico é vendido por R$ 2,80. O alumínio é o material mais valioso, porém chega ao galpão em pequenas quantidades. “O vidro nós estamos moendo tudo e vendendo para indústrias. Conseguimos R$ 0,14 por quilo.” A Coreso, explica Oliveira, só comercializa material para indústrias, evitando fornecer embalagens de vidros para terceiros reutilizarem de forma indevida, como para embalar palmito ou perfumes falsificados.

Investimento

A Sesan informou que está em andamento a contratação de mais três caminhões que vão auxiliar na coleta seletiva. “Elevando de 6 para 9 os caminhões cabine dupla e com baú fechado que garantem mais segurança, conforto e bem estar não só aos cooperados, mas à população por eles atendida”, informou. A Prefeitura afirma que fornece os caminhões, barracão, esteiras, prensas, balanças e “custeia a energia elétrica e contas de água e esgoto de parte dos barracões onde as cooperativas atuam”.

O lixo reciclado pelas cooperativas, segundo a pasta, poderia ser mais volumoso se pessoas que trabalham na informalidade procurassem pelas instituições parceiras do poder público. “Infelizmente ainda há muitos que trabalham por si só, que não tem interesse em aderir às cooperativas, atuando sem garantias e de maneira insalubre”, divulgou em nota.

Reciclagem é ganho para famílias

Apenas 3% do lixo de Sorocaba é reciclado
Regi: mais conscientes. Crédito da foto: Emidio Marques

Foi com a reciclagem que Regi Muczinskc, 56, conseguiu criar os quatro filhos. Ela conta que em 1999, após se separar do então marido, precisou buscar uma forma de renda e começou recolhendo latinhas nas ruas e vendendo aos ferros-velhos. Seis meses depois foi convidada para participar da Coreso e encontrou ali a profissão que garantiu a comida em sua mesa e melhorias na casa. “Eu sentia vergonha no começo, mas depois percebi que é uma profissão tão relevante quanto qualquer outra e eu sabia da minha necessidade”, relembra.

Ela conta que com o passar dos anos percebeu que as pessoas estão mais receptivas à reciclagem e fazem a separação dos materiais em casa. “Hoje os moradores estão entendendo a importância do nosso trabalho e é desse lixo reciclado que eu consegui fazer minha casa dobrar de tamanho. Antes eram só dois cômodos cobertos com telha de amianto”, relata a coletora.

Apenas 3% do lixo de Sorocaba é reciclado
Fabrício: exemplo da mãe. Crédito da foto: Emidio Marques

Foi vendo a mãe separando o lixo que pegava de porta em porta que Fabrício Muczinskc, 33, filho de Regi, começou a trabalhar com reciclagem também. “Foi meu primeiro trabalho e no início eu conseguia tirar até R$ 2 mil e comparado ao salário mínimo, era um salário muito bom. A coleta não garante um salário fixo, varia conforme a produção, mas consegui comprar um terreno e agora quero começar a construir”, conta o rapaz que está nesse ramo há mais de 15 anos.

Apenas 3% do lixo de Sorocaba é reciclado
Exama: sustento dos filhos. Crédito da foto: Emidio Marques

A coleta também foi a oportunidade encontrada pelas haitianas Exama Clanette, 31, e Silvie Mauriete, 52. Exama está no Brasil há três anos e há cinco meses trabalha na Coreso. Em seu país natal era comerciante, mas veio para cá sozinha em busca de uma vida melhor. “Deixei duas filhas lá e tento ajudar com o que ganho. Aqui tenho um filho de três anos”, conta a jovem.

Apenas 3% do lixo de Sorocaba é reciclado
Silvie: oportunidade de ganho. Crédito da foto: Emidio Marques

Silvie veio para Sorocaba em 2014 e também mora sozinha. Há três anos ela se tornou cooperada da Coreso e relembra que a reciclagem foi a melhor oportunidade que surgiu. “Acho o trabalho bem tranquilo e consegui fazer amigos aqui.” No Haiti, Silvie trabalhava na indústria.

Comentários