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Por que recuperar o rio Sorocaba?

21 de Março de 2021 às 08:00
Marina Bufon [email protected]

Rio Sorocaba passa por processo de recuperação há décadas, mas ainda encontra águas em índice regular. Crédito da foto: Fábio Rogério.

Final de tarde em Sorocaba, e Ailton Martins de Campos, de 59 anos, pega seus pertences e vai até a margem do rio para seu remédio diário: a pesca esportiva, que é permitida na região porque o rio Sorocaba está classificado na classe 2 (condição regular).

“Eu pesco quase todo dia desde a década de 70. Quando eu trabalhava, saía do emprego e vinha para a beira do rio pescar. Não é um vício, é um remédio. Eu, as capivaras, os peixes e o rio Sorocaba”, inicia o aposentado.

Segundo ele, depois do início do processo de recuperação do rio, houve uma melhoria na qualidade dos peixes e até a presença de outros animais, como cágados. No entanto, a quantidade é menor, consequência dos tempos nos quais o rio era depósito de todo tipo de poluição.

“Antes a gente pescava e comia o peixe todo poluído mesmo. Tinha dias que o rio estava de uma cor, no outro estava de outra. Hoje não, hoje eu como o peixe dali sem medo. Cru não, mas frito e assado, pode comer sem medo”, complementou.

O rio Sorocaba

A recuperação do rio Sorocaba tem significado especial não só para a cidade, mas para outros municípios vizinhos que também o abrigam, casos de Ibiúna, Votorantim, Iperó, Boituva, Tatuí, Cerquilho, Jumirim e Laranjal, onde é sua foz, no rio Tietê. No total, são 227 quilômetros de comprimento.

Ailton Martins de Campos pesca no rio Sorocaba desde a década de 70, quando as águas eram bem poluídas. Crédito da foto: Fábio Rogério.

No entanto, a falta de planejamento e também de consciência ecológica das populações durante séculos quase provocaram sua morte, depois de anos de lavagem de roupas de hospitais no local, no século XIX; lançamento de esgoto doméstico e poluição por atividades industriais; substituição de matas ciliares por barrancos ausentes de vegetação, entre outros motivos.

Há quatro décadas, entretanto, uma mobilização teve início para recuperar o rio e o seu entorno. Apesar disso, de 2005 a 2019, o índice de qualidade das águas do rio Sorocaba é classificado como regular, algo que ainda não é considerado bom.

“A qualidade da água do rio Sorocaba continua regular, fato que se traduz em estado de alerta para toda a sociedade e autoridades. Embora a Bacia do Sorocaba venha recebendo investimentos em saneamento básico, ainda estamos distantes da universalização do acesso a água tratada e esgoto tratado para todos”, disse Marcelo Naufal Argona, mobilizador ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica.

A expectativa da Fundação é que haja uma participação efetiva entre os municípios beneficiados pelo rio no Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Sorocaba e Médio Tietê, com o intuito de fortalecer a governança e gestão integrada e participativa da água. Sobre o consumo dos peixes do rio, algo Ailton Martins de Campos pratica, Argona diz:

“Não há indícios de contaminação por metais pesados, por exemplo, o que traria riscos de consumo. Muita gente consome, como podemos dizer não?”.

Dados da recuperação

Desde o ano 2000, a Prefeitura de Sorocaba, por meio do Saae, vem desenvolvendo o Programa de Despoluição do rio, que consiste na coleta, afastamento, bombeamento e tratamento de todo o esgoto produzido na cidade, um investimento de cerca de R$ 180 milhões, com recursos próprios e financiamentos do Governo Federal.

Segundo dados divulgados, 97,5% do esgoto gerado na cidade é tratado. Além disso, a Saae informa que a recuperação da qualidade da água do rio foi constatada logo no primeiro ano de funcionamento da ETE S1, a maior estação de tratamento de esgoto de Sorocaba, quando tratou em torno de 45% do esgoto gerado.

Ainda, foi possível constatar nesses monitoramentos a diminuição na carga orgânica e nos valores de nitrogênio e fósforo e, principalmente, aumento no oxigênio dissolvido, o que possibilitou a volta de organismos aquáticos, pássaros e outros seres que interagem com a flora e a fauna.

Reprodução do Jornal Cruzeiro do Sul de setembro de 1994, quando imagem mostra alta mortandade dos peixes. Crédito da foto: Arquivo.

Mãos na massa

Enquanto a Prefeitura e a Saae trabalham em conjunto pela recuperação do rio, a SOS Mata Atlântica encoraja que todos realizem a sua parte e procurem saber a história do rio e o que sua poluição acarreta. O pescador Ailton é um desses que arregaça as mangas junto com o “Grupo de Amigos do Porto das Águas”, um conjunto de 59 pessoas que lutam pela preservação do lago que fica em frente ao Parque das Águas.

“A gente vem aqui e faz uma limpeza. Tem que ter essa conscientização, não adianta a população não ajudar também. A gente limpa, denuncia, é difícil, mas é nosso lazer, nossa vida”, finaliza. (Marina Bufon)