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O dito pelo não dito

Outro caso típico de dito pelo não dito aparece sempre que se fala da mítica Pandora, a primeira mulher que existiu. Ela, acredite-se, possuía um jarro contendo todos os males, que, por isso mesmo, era mantido sempre fechado

Analistas políticos comentaram bastante a frustrada tentativa da ex-presidente Dilma de chegar ao Senado, por Minas Gerais. A mineira ficou em quarto lugar. Caiu do cavalo, disseram. Equinocultura não é o meu ramo, mas essa expressão “cair do cavalo” me levou a São Paulo.

É que esse apóstolo, certa vez, ainda tratado como Saulo, pegou, furioso, a estrada de Damasco, à caça de discípulos de Jesus, “quando, de repente, uma luz que vinha do céu brilhou em sua volta. Ele caiu no chão e ouviu uma voz que lhe dizia: — Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (Atos 9, 1-4). Aquela repentina experiência mística que o transformou no arauto máximo de Cristo jogou-o, sim, por terra, mas não há cavalo no texto. O extraordinário impacto daquela súbita conversão de vida levou a tradição popular e célebres artistas, como Caravaggio, a visualizar a cena a partir da pressuposição de que ele estivesse sobre um cavalo, naquela viagem. Pressuposição lógica, mas não oficial.

Outro caso típico de dito pelo não dito aparece sempre que se fala da mítica Pandora, a primeira mulher que existiu. Ela, acredite-se, possuía um jarro contendo todos os males, que, por isso mesmo, era mantido sempre fechado. Mas, incapaz de segurar a curiosidade, ela, um dia, acabou removendo o tampo e aí a doença, a loucura, a mentira, a paixão, a guerra, todas as desgraças se espalharam sobre a humanidade, restando lá dentro apenas a esperança. Foi com base nessa história que a Polícia Federal, em novembro de 2009, lançou a Operação Caixa de Pandora, fatídica para alguns políticos influentes do Distrito Federal. Tudo muito interessante, na Grécia antiga e no Brasil de hoje, só que a lenda não falava de caixa nem de caixinha, mas de jarro ou pote.

Desse jarro ou pote passo às embarcações de Pedro Álvares Cabral, a caminho do Brasil, lá por 1.500. Aprendemos, desde os bancos das primeiras letras, que o Brasil foi descoberto por ele. E descoberta e descobrimento passaram a ser a designação do feriado de 22 de abril. Noto, porém, como estamos em tempos de ressignificação dos fatos, que muito professor já não fala mais que o citado fidalgo lusitano descobriu o Brasil. Hoje em dia vigora um novo vocabulário para narrar os tempos iniciais deste nosso país continental.

Primeiro, porque descobrir é tirar a coberta de algo, avistar o que antes não era visto. Ora, antes da Cabral, outros navegadores já haviam tomado conhecimento destas plagas, como o seu patrício contemporâneo Duarte Pacheco Pereira, o espanhol Vicente Yáñez Pinzón e o italiano Amerigo Vespucci. Segundo, porque a chegada de Cabral ao nosso território representou, na verdade, o início de uma conquista. Foi uma tomada de posse da terra e de exploração e aculturamento dos povos que ali habitavam. O que se deu, portanto, foi Portugal vindo dominar e cristianizar indígenas, para efetivar seus interesses políticos e econômicos nesta colônia de Santa Cruz. Holandeses e franceses tentaram o mesmo…

Concluo, então, que se precisa sempre não comer gato por lebre. Dos tempos bíblicos até este século, muita coisa acaba ficando dita pelo não dito.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) — aldo.vannucchi@uniso.br

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