Presença

Tereco, uma vida de família e devoção

Moradora há 80 anos da rua Ruy Barbosa, Tereco da Bom Jesus sempre leva uma palavra de paz e fé pode onde passa
Crédito da foto: Arquivo pessoal

Ela é conhecida por quase todos os moradores da região do Além Ponte, sua história se confunde com a da Irmandade de São Benedito da Igreja Bom Jesus dos Aflitos, Tereza de Castro Thimoteo, ou Tereco, encanta a todos com seu jeito simples, seu sorriso fácil e sua fé no santo padroeiro dos cozinheiros.

Com 87 anos, sendo 59 deles casada com o Diácono Darcy Thimoteo, Tereco é mãe de duas filhas, um neto e dois bisnetos: Maria Eduarda e Théo, que está para vir ao mundo em abril.

Moradora há 80 anos da rua Ruy Barbosa, no Além Ponte, Tereco da Bom Jesus sempre leva uma palavra de paz e fé pode onde passa.

Conheça um pouco da vida da Tereco, a nossa personagem da semana.

Onde você nasceu? Como foi sua infância?

Eu nasci na cidade de São Paulo, atrás do presídio do Carandiru, no dia 27 de agosto de 1933, mas me mudei para Sorocaba com cinco anos de idade. Sou filha de Herógnes Benedito de Castro, que era policial e extremamente rígido com os filhos, e Viterdina César de Casar, uma cozinheira de mão cheia que trabalhou na casa de várias famílias.

Eu tinha mais quatro irmãos todos já falecidos, Benedito, Belmiro, Pedro e Carlos. Meu pai se mudou para Sorocaba pois veio transferido para o 7ª batalhão da Polícia, quando chegamos aqui, me lembro que fomos morar em uma casa de frente ao campo do Esporte Clube São Bento, na Nogueira Padilha.

Durante minha infância eu brincava de tudo, a Nogueira Padilha não tinha o movimento que tem hoje, fui muito feliz com meus irmãos. Meus pais me ensinaram vários valores e eu os respeitava só pelo olhar. Tive muitos amigos e me recordo muito daquela época.

Depois de uns três anos em que nos instalamos em Sorocaba, viemos morar na rua Ruy Barbosa, na casa em que vivo até hoje. Lembro do movimento do bonde. Adorava andar nele, achava muito chique, lembro do padre Castanho sentado na porta de sua casa, e dos espanhóis falando sempre alto e fazendo festa para tudo, aliás o Além Ponte sempre fui muito alegre, lembro desde pequena de ir na padaria do Gonçalo sentia o cheiro do pão sendo assado da minha casa.

Lembro dos grandes bailes do Clube Alhambra, principalmente os carnavais e também lembro de assistir filmes no Cine Eldorado. A rua dos Morros era simples, mas habitada por um povo feliz e trabalhador.

Estudei no colégio Anchieta, tive como professor o grande João Doreto. Lembro que depois comecei a fazer magistério no Estadão, em 1953, porém, não me adaptei ao curso, daí conheci o professor Arthur Cyrillo Freire e a Dona Tercilla, eles eram muito simpáticos e a convite deles fui estudar contabilidade na OSE.

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Naquela época o colégio funcionava em um majestoso casarão situado na esquina da rua da Penha com a Cel. Benedito Pires, no começo fui bem, depois aqueles números começaram a embaralhar na minha cabeça e achei melhor não terminar o curso.

Quando jovem eu fui trabalhar no Freitas Junior, na rua Barão do Rio Branco, lembro que o uniforme das meninas era um vestido vermelho. O comércio da cidade, naquela época, tinha lojas muito bonitas, e toda a região vinha até nossa cidade para comprar.

Crédito da foto: Arquivo pessoal

Como conheceu o Darcy, seu esposo?

Quando estava na OSE eu o conhecia de vista, sempre via no intervalo, mas nunca nos falamos, mas achava ele lindo. Um dia, eu estava indo ao Centro, em uma costureira chamada dona Leonor, que ficava próximo ao Fórum, lembro que eu estava com um vestido amarelo e estava indo justamente na costureira, para ver a roupa que ia usar na procissão de Aparecidinha, naquela época saiam vários andores com santos tanto da Catedral, quanto da Bom Jesus, e cada santo tinha uma cor de roupa diferente.

No caminho da costureira eu encontrei o Darcy, no meio da ponte sob o rio Sorocaba, e ele me olhou, veio falar comigo, depois desse dia ficamos próximos e namoramos por quatro anos. Estamos casados fazem 59 anos, isto tudo aconteceu no dia 6 de janeiro de 1958.

Nosso casamento foi bem simples, mas muito feliz, lembro que a nossa festa foi em uma marcenaria que existia na Vila Hortência, com ajuda dos padrinhos fomos ao local deixar tudo bonitinho para festa.

Deus abençoou o meu casamento, tive duas lindas filhas a Simone e a Viviane, e tenho um neto, o Matheus, que me deu uma bisneta, a Maria Eduarda. E agora em abril está para nascer o Teo meu segundo bisneto.

De onde vem a devoção por São Benedito?

Minha mãe sempre foi muito católica e ela me contou, quando pequena, a história do santo preto. Sempre me recorro a ele quando preciso de algo e ele sempre me ouve.

Lembro de quando era pequena eu ia até a Catedral com ela nas missas e rezava o terço aos pés da imagem dele. Acho que por sermos negros ele, de certa forma, aparenta estar mais próximo da nossa comunidade, cada dia que passa minha fé e devoção nele só aumentam.

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Crédito da foto: Arquivo pessoal

A Irmandade de São Benedito da igreja de Bom Jesus completou 70 anos, quais são as suas lembranças?

Em 1951 o São Benedito e a irmandade foram transferidos da Catedral para a Bom Jesus, o Frei Eugenio foi que ajudou muito neste processo, minha mãe ficou muito feliz, ela ia em todas as procissões.

O São Benedito ia sempre na frente das procissões naquela época, pois acreditava que ele indo na frente não iria chover. As festas do São Benedito sempre foram festas marcantes e regadas a muita fartura, todo mundo sempre ajudou um pouco, o santo sempre teve a simpatia do povo.

Em janeiro toda a comunidade do Além Ponte se une para prestar suas honras e homenagens ao Santo Padroeiro dos cozinheiros.

Crédito da foto: Arquivo pessoal

O Conselho Nacional das Irmandades de São Benedito foi fundado em Sorocaba, conte um pouco sobre?

O Darcy foi um dos fundadores, o conselho foi fundado pelo desejo de saber quantas irmandades do santo preto existiam e quais atividades estavam desenvolvendo em suas comunidades, quais ações sociais estavam sendo executadas.

A primeira reunião foi na Bom Jesus com as irmandades de Santos, São Paulo e Laranjal Paulistas, lembro que naquele dia trocamos informações sobre os estatutos sociais de cada uma, sua estrutura, seus eventos e nesta reunião surgiu a ideia de fazer o Conselho, Darcy meu marido, foi o primeiro presidente, lembro das primeiras reuniões e das visitas em várias irmandades da região.

Uma curiosidade é que as festas de São Benedito acontecem no Brasil o ano todo, e íamos em quase todas, uma mais bonita que a outra. Sinto saudade, uma saudade muito grande de poder viajar e ir às festas.

E a Igreja Bom Jesus dos Aflitos, o que se lembra dela?

Quando eu era pequena, a igreja ficava onde hoje é o Ginásio de Esportes, lembro de ir lá com minha mãe na igrejinha que era bem simples, depois que se mudou para o atual prédio na Nogueira Padilha.

Lembro quando foi feita a mudança, foi uma procissão com o Santíssimo Sacramento na frente de todos. Lembro do frei Eugênio Becker que fez muitas obras na igreja e assim terminou inclusive a torre inaugurada em 1956 ou 1957, não me lembro ao certo.

Lembro dos freis Odilon Stump, frei Firmato (Paulo) Rebein, frei Olivério Baxmann, frei Ernesto Buzzi, frei Luiz Carlos Squizzatto, frei Almir Ribeiro Guimarães, frei Atílio Abati, frei Antônio Lopes Rodrigues, frei Moisés Bezerra de Lima, frei Eduardo Carlos Xavier, frei Maurício José Pinheiro, frei Wilson Zanetti, frei Vilmar Alves da Silva, frei Aldolino Bankhardt, frei Carlos Alberto Guimarães e frei Silvio Trindade Werlingue.

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Minha vida foi dentro da Bom Jesus, meu marido é diácono desta igreja, tenho um amor e carinho gigante por todos que lá frequentam. Infelizmente, devido à Covid-19, não estou podendo ir à missa, mas todos os dias eu peço pro meu São Benedito saúde e que a cura chegue logo.

Quais suas lembranças do padre Castanho?

Lembro dele sentado na frente da sua casa na rua Ruy Barbosa, sempre sorridente ele fazia questão de cumprimentar e conversar com todos, adorava as crianças, mesmo com todas as dificuldades que ele tinha de locomoção não deixava seus deveres de padre de lado e sempre tinha uma palavra de conforto a todos.

Lembro do dia que ele faleceu foi um domingo de Carnaval, vi uma grande movimentação eu sua casa e recebi a notícia que ele tinha falecido, perdemos o maior escritor de Sorocaba, mas graças ao Instituto Histórico de Sorocaba Casa Aluísio de Almeida sua memória continua viva até hoje.

Tem saudades de que? E gostaria de fazer algo em sua vida que ainda não fez?

Tenho saudade da comida da minha mãe e dos meus irmãos. Não me arrepende de nada em minha vida, vivi feliz tenho uma família linda, não tenho medo de morrer pois sei que Deus e São Benedito vão estar me esperando. E 2020 foi um ano muito difícil para todos, eu gostaria de tomar logo a vacina e poder abraçar meus amigos e poder voltar a bater papo na minha calçada com as vizinhas.

Como tem sido esses dias de pandemia?

A última vez que eu sai foi no dia 14 de março de 2020, sou do grupo de risco e Darcy é mais pois ele, além da idade, tem diabetes, tenho assistido muita televisão e lido jornais, todas as quintas-feiras eu corro para pegar o Cruzeiro para ver o #TBT, pois me faz lembrar da minha juventude, as vezes pego, o telefone e ligo para alguma amiga para comentar as fotos da página.

Graças a Deus tenho uma bisneta linda que está sendo a alegria da casa, não vejo a hora de tomar a vacina. Se tudo der certo, dia 2 de fevereiro eu e Darcy vamos estar na fila do postinho para sermos vacinados e assim que tivermos imunizados quero poder voltar um pouco a vida ao normal, poder ir visitar o meu tão amado São Benedito lá na Bom Jesus. (Manuel Garcia)

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