Presença

Presença: Sorocabano, na TV e na cidade, durante a pandemia

Presença: Sorocabano, na TV e na cidade, durante a pandemia
Luis Galves está no ar atualmente, na TV Globo, na reprise de “Malhação – viva a diferença”. Crédito da foto: Divulgação

Luis Galves tem 27 anos nasceu em Sorocaba, na Vila Hortência. Sempre gostou das artes e conquistou os palcos de todo Brasil trabalhando como ator. Atualmente, está no ar na novela “Malhação — viva a diferença”, da TV Globo, que está sendo reprisada. Luis vive o personagem Gabriel, um adolescente que sofre bullying por conta de sua condição social.

Conheça, no perfil de hoje, a história desse sorocabano, que durante a pandemia retornou à cidade e está ajudando o pai no comércio onde cresceu.

Presença – Quem é Luis Galves?

Luis Galves – Eu tenho 27 anos, sou ator nascido e criado em Sorocaba. Tenho duas irmãs gêmeas, mais novas que eu. Meu pais são comerciantes, têm uma mercearia na rua Nogueira Padilha. Eu literalmente cresci dentro dela.

P – Como foi sua infância? O que se lembra da cidade de Sorocaba? Chegou a estudar aqui?

L.G. – Minha infância foi muito boa. Estudei no Colégio Canguru, na OSE do Centro e também no Salesiano. Passava muito tempo com meus primos. Fui filho único até meus 10 anos, quando nasceram as minhas irmãs gêmeas. Minhas lembranças são muito boas. Eu não brincava na rua porque minha mãe sempre foi muito protetora e eu sempre fui agitado, tenho algumas cicatrizes da época de infância.

P – Você sempre quis ser ator?

L.G. – Sim, desde criança eu juntava a família e fazia teatrinho, sempre gostei de dançar, cantar e contar histórias. Nunca tive medo ou vergonha de me expor. Quando lançaram as câmeras digitais eu gravava pequenos vídeos contando historinhas. Eu sempre quis ser ator.

P – Chegou estudar teatro em Sorocaba?

L.G. – Não estudei teatro em Sorocaba, meus pais na época não deixaram, queriam que eu fizesse faculdade, achavam que era essencial. Eu acabei fazendo teatro com 17 anos, no meu intercâmbio nos Estados Unidos. Na minha turma do terceiro colegial acabei fazendo de tudo na escola americana, fiz teatro, dança, aula de canto, aula de artes, que são coisas que na época não tinha nas escolas da cidade.

P – Como foi o tempo que passou no intercâmbio?

L.G. – Eu fiz intercâmbio através de uma empresa particular depois de muita pesquisa. Cheguei la e fui muito bem recebido pela família americana, eles já tinham recebido mais de dez intercambistas. Acabei fazendo meu terceiro colegial lá é fui muito bom. Fiz o musical “Os miseráveis” nas escolas dos Estados Unidos, eles fazem tudo, tem banda, tem pessoal do figurino, que escreve e atua. Acho que eles só me deixaram fazer o musical porque eu era intercambista, pois na época eu não sabia nada de teatro direito, eu não sabia cantar, não sabia atuar, o meu teste foi horrível, mas acabei fazendo e me diverti muito. Quando voltei ao Brasil acabei contando meio que sem jeito pros meus pais que queria fazer teatro, porém meu pai não deixou. Ele queria que eu me formasse em contabilidade. Acabei me matriculando no cursinho pré-vestibular e prestei Rádio e TV na Faculdade Cásper Líbero. Mas nunca fui conferir a nota pra ver se eu passei.

P – Como entrou no teatro?

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L.G. – Fiz um teste para escola de atores do Wolf Maia e acabei me formando lá em teatro. Lá consegui realizar meu sonho de estar em um palco. Realizei outro sonho também que era morar em São Paulo, cidade pela qual sempre fui apaixonado. Eu falava pra minha mãe que estava indo dar uma volta no zoológico ou no shopping e pegava o ônibus escondido e ia para lá. A cidade é incrível para as artes, tem muita coisa acontecendo, muitos teatros e eventos ao mesmo tempo. Amo poder morar hoje na capital.

P – Qual foi sua primeira peça de teatro?

L.G. – A minha primeira peça oficial foi “Nós e a guerra”, na qual eu interpretava um soldado alemão. A peça falava sobre o nazismo.

P – Qual trabalho te marcou mais?

L. G. – Foi a minha segunda peça, que foi realizada a partir de trabalho de conclusão de curso de um grupo da Escola de Atores Wolf Maya, em 2015. A peça chamava “O tambor e o anjo” e contava história de uma família na época da ditadura. Eu fazia o papel do filho de um torturador da ditadura. Eu na peça, o meu personagem, eu era da resistência. Eu na época não era politizado e tive que ler vários livros sobre o tema. Acabei por entender mais de política. O personagem era muito forte e no final ele morria. Quando minha mãe foi assistir, ela chorou muito.

P – Como foi seu primeiro trabalho na TV?

L.G. – Meu primeiro trabalho na TV foi uma série para o programa do Luciano Hulk, chamada “Herois por um dia”, que acabou sendo gravada em apenas um dia.

P – Como você foi parar em Malhação?

L.G. – Na época o Wolf Maia tinha uma agência que oferecia o trabalho dos alunos. Em São Paulo não tem muita produção de novelas, o que funciona muito é a publicidade. No meu segundo teste para publicidade eu consegui passar, foi uma propaganda pro “Big brother Brasil”. A publicidade me ajudou muito financeiramente. Fiz propaganda da Claro, Swift, Batavo. Nessas agências de publicidade às vezes aparece um teste para TV. Eu recebi um dia um teste para Malhação. Era na sede da Globo de São Paulo, quando eu pisei no estúdio de lá estava em pânico. Fiz o teste e graças a Deus eles gostaram de mim. Depois de um tempo a agência me ligou e falou que eu tinha sido aprovado para o papel. Acabei ficando muito feliz. Isso foi em dezembro, falaram que íamos começar gravar em janeiro. Porém, quando chegou em janeiro os diretores simplesmente mudaram o personagem e acabaram por não me escalar mais. Daí, em outubro eles me ligaram me escalando.Falaram que tinha gostando de mim, porém que naquela época eles acabaram por mudar o personagem, mas que me queriam eu para viver o personagem Gabriel.

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P – Como foi viver o Gabriel de Malhação Viva a Diferença.

L.G. – Eu gostei muito! O Gabriel foi um presente pra mim. Além de ser um personagem lindo, me ensinou muitas coisas. Gabriel é filho de Roney, vivido pelo grande Lúcio Mauro Filho. Ele deixa o pai chocado ao revelar ser homossexual. Gabriel sofre bullying no escola e acabou sofrendo uma agressão por conta de sua condição sexual. Era um personagem muito forte, uma das cenas mais marcantes dele foi quando apanha de seus “colegas”de escola na rua, momentos depois de fazer um discurso sobre sua condição. Além dele, também apanhou Felipe, vivido pelo ator Gabriel Calamari, que não é homossexual, mas é amigo de Gabriel e, por isso, também sofre preconceito dos colegas. Foi uma cena gravada à noite e foi muito emotiva. No final achei que ficou muito bem feita, tanto que, na época, foi muito comentada nas redes sociais pela sua autenticidade.

P – Você estava em cartaz no teatro antes do decreto da Covid-19?

L.G. – Eu nunca parei de estudar, eu saio de um curso para o outro. Após Malhação eu fui fazer um curso com um pequeno grupo de teatro que estava apresentando o espetáculo “Coronel Mostarda com a chave inglesa na cozinha”, que é inspirada em um jogo de tabuleiro. É uma peça muito divertida que acaba por surpreender o público através do improviso. Nessa peça, eu faço o Dr. Magenta. No começo éramos um grupo pequeno, totalmente independente e nos apresentamos em pequenos teatros. Conseguimos juntar dinheiro para melhorar figurino e no começo deste ano passamos a nos apresentar no Teatro do Shopping Jardim Sul. Estávamos atraindo cada vez mais pessoas para o teatro.

P – Como foi para você receber a notícia de que o teatro não iria mais poder abrir durante a pandemia?

L.G. – Foi um susto. No começo achávamos que logo iria voltar, nossa companhia também estava trabalhando com montagem de teatro para empresas, porém tudo parou e simplesmente a minha rotina, de vários trabalhos que estavam agendados, não pode mais seguir. No começo achamos que todos nós, do teatro, poderíamos fazer a peça via internet . Mas percebemos que esse espetáculo, como tem muita interação do público, não seria possível e perderia um pouco do sentido da peça.

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P – Como foi sua volta para Sorocaba durante o isolamento social? Como está sendo trabalhar na mercearia dos seus país?

L.G. – Quando começou a pandemia as minhas irmãs estavam indo para intercâmbio. Eu acabei vindo pra cidade para ficar um pouco com meus pais e dar uma assistência psicológica para eles. Quando cheguei aqui o meu pai resolveu ativar o serviço de delivery. Ele se viu cheio de encomendas eme pediu para ajudar. Atualmente, eu recebo os pedidos do aplicativo de entregas, separo e entrego para o motoboy. Está sendo muito bom para mim, eu cresci dentro do mercado, eu vou todos os dias. Voltar para o mercado está sendo um exercício, mudei minha vida completamente dos palcos para o mercado. Acho um serviço muito essencial durante a quarentena e gosto muito.

P – Você deve ter alguns amigos de teatro que estão passando por dificuldades. Como você vê o futuro das artes?

L.G. – Tenho muitos amigo que estão vivendo com ajuda de amigos ou familiares. Existem muitos teatros e espaços voltados para arte que simplesmente foram fechando, pois é um setor que não está tendo ajuda nenhuma. Quando fecha um espaço cultural, sabemos que dificilmente vai se abrir novamente. Meus amigos atores e eu temos a ciência que é um setor que vai ser um dos últimos a voltar e, mesmo assim, creio que o começo vai ser difícil. Mas o teatro vai se reinventar, a arte de se reinventar é ótima, linda e graças a Deus os artistas são muito criativos. Vamos achar uma solução.

P – Qual recado deixa para Sorocaba?

L.G. – Sorocaba, eu amo essa cidade, queria mandar um beijo para todos dessa cidade linda na qual eu nasci. Que os atores de Sorocaba tenham cada vez mais destaque e vamos todos ter paciência, que essa pandemia vai passar. Gostaria muito que essa cidade tivesse mais espaços voltado para as artes, uma cidade tão grande e importante como a nossa merece um grande teatro. Quero que os sorocabanos nunca desistam dos seus sonhos, eles são muitos preciosos. E não deixem de me acompanhar na reprise de “Malhação — viva a diferença”.

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