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Personagem da semana: Raissa Leme, de Sorocaba para as passarelas do mundo

20 de Dezembro de 2020 às 00:01
Manuel Garcia [email protected]
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Personagem da semana: Raissa Leme, de Sorocaba para as passarelas do mundo Raissa Leme. Crédito da foto: Acervo Pessoal / Divulgação

Uma menina cheia de sonhos que está conquistando o mundo, e que teve a sua infância humilde vivida entre a CDHU do Júlio de Mesquita, e o Bairro dos Morros em Sorocaba. Filha de um funcionário público e de uma vendedora de produtos de higiene, a bela Raissa Leme não esconde suas origens e se recorda com carinho que enquanto brincava pelas ruas da periferia de Sorocaba, foi alimentando o seu sonho em se tornar modelo. A menina cresceu, se tornou uma mulher e, após ter muitas portas fechadas em sua cara, conseguiu realizar seu sonho. Com 1,78m de altura, 83cm de busto e 61cm de cintura, Raissa conquistou seu lugar ao sol e hoje mora em Nova York. Tem sua imagem vinculada em campanhas de marcas importantes como Rag & Bone, Vogue, Harper’s Bazaar, Revlon e H&M. Conheça a história da top model Raissa Leme, a nossa personagem da semana.

Onde você nasceu? Como foi sua infância?

Nasci em Sorocaba, morei na cidade até meus 16 anos, antes da minha primeira viagem. Sou filha única por parte de mãe, uma vendedora de produtos de limpeza e de um funcionário público. Eu cresci dividida entre o Bairro dos Morros, onde a minha avó morava, e o Júlio de Mesquita, onde eu morava, na CDHU, com minha mãe. Ela queria que eu estudasse em uma boa escola e a melhor opção pública na época era o Aquiles de Almeida. Os dois bairros que convivi tinham uma situação bem difícil, cresci no meio de várias coisas, tráfico de drogas foi uma delas, porém nunca deixei me levarem para o mau caminho. Minha mãe sempre foi maravilhosa, ela acordava seis da manhã para me levar na escola, pegávamos o ônibus lotado, lembro que eu ficava com minha avó no período após aula. Dificuldades eu sempre tive, porém minha mãe sempre foi uma guerreira e nunca deixou me faltar nada. Eu sinto muita falta de andar descalça pelo bairro e ir buscar pão com muçarela na padaria. Sinto muita falta de Sorocaba. Este ano, infelizmente, devido à pandemia, não vou passar as festas nesta cidade onde eu nasci e cresci, e que, apesar das dificuldades que tive, como toda criança negra, pobre e nascida na periferia tem, fui muito feliz. Tenho um carinho gigante pela minha infância simples, andando descalça pelas ladeiras do Bairro dos Morros.

Você sempre sonhou em ser modelo?

Sim, minha mãe, outro dia achou um desenho meu da época do parquinho e eu aparecia como modelo. Com sete anos eu participei do concurso de miss em Sorocaba, eu era a única menina negra. Lembro que não ganhei o concurso, que foi no Shopping M, mas isto me fez aprender muitas coisas, como lidar com a ansiedade, e desde cedo a ouvir os “nãos”. Minha mãe sempre me apoiou no meu sonho e me incentiva a seguir em frente. Lembro dela falando “filha você pode ser o que quiser.” Não ganhei o primeiro concurso de miss, nem o segundo ou terceiro, porém, eles me ensinaram a ser perseverante.

E quando as coisas começaram a dar certo para você?

Foram vários processos durante a minha carreira, acho que por falta de informações e direcionamentos não foi fácil. Eu pensei em desistir várias vezes, mas Deus foi colocando pessoas boas no meu caminho e, aos poucos, tudo foi dando certo, eu não seria nada sem meus agentes que me ajudam a ganhar o espaço no mundo da moda.

Como foi a sua primeira viagem como modelo?

Foi para China, com 16 anos. Foi a primeira vez que peguei um avião e já enfrentei uma viagem de 25 horas. Fiquei lá por seis meses trabalhando. Lembro que minha mãe ficou com o coração na mão. Eu fui muito confiante, eu sabia que tudo ia dar certo, sabia que minha luz ia brilhar, mesmo indo para um país completamente diferente e longe de casa. Depois disto morei em Milão, Barcelona, e agora estou morando em Nova York. A saudade de Sorocaba sempre é muito grande. Já rodei o mundo, Líbano, Alemanha, Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha. O meu passaporte é bem carimbado, graças a Deus, cada carimbo representa uma conquista e um trabalho concluído.

Como é sua relação com o corpo, o mundo da moda exige muito? Você sofre muita pressão?

A questão do corpo eu nunca tive muito problema, a primeira vez que eu percebi que precisava fazer uma dieta foi agora, pós quarentena, pois não estava me exercitando, afinal de contas fiquei três meses em lockdown aqui em Nova York. Quando eu mudei para a Espanha, comecei a comer de forma mais saudável, com muita coisa verde e muito peixe. Nunca fiz dietas rígidas, sempre foi muito natural para mim. A carreira de modelo exige um ótimo psicológico, não é só simplesmente você ir e fazer a foto. Eu já recebi tanto “não”...

Ser modelo é um trabalho constante de autoconhecimento, você tem que conhecer quem você é, e sempre saber o que você quer. Hoje em dia, mesmo já sendo conhecida no meio, ainda recebo respostas negativas quando vou fazer um teste, mas nunca desisto. As modelos precisam de um apoio muito grande da sua família e amigos, e eu graças a Deus, tenho.

Como está sendo para você não poder passar o natal em família?

Está sendo muito difícil, eu esperei o ano todo, queria muito estar em Sorocaba, comer arroz e feijão com bife acebolado, e dar um abraço em todos que eu amo. Mas, graças a Deus, existe internet e até neste momento extremamente difícil eu recebo o apoio dos meus pais, e sei que estou aqui trabalhando pelo sonho que eu tinha desde os sete anos de idade. Espero poder receber a vacina o mais breve possível e poder pegar um avião e voar para os braços dos meus pais.

Você tem trabalhos espalhados por todo o mundo, pode falar um pouco das suas conquistas?

Meu último trabalho foi para a nova campanha da grife americana Rag & Bone, marca que já teve em seus outdoors modelos como Kate Moss, Candice Swanepoel e Hailey Bieber, fiquei muito feliz em poder fazê-lo com a minha amiga Samile Bermannelli, que é baiana e, assim como eu, saiu de uma periferia e conseguiu alcançar o seu sonho de ser modelo.

Já realizei trabalhos para Vogue, Harper’s Bazaar, Revlon e H&M. A carreira de modelo dá uma oportunidade incrível de conhecer pessoas novas todos os dias. Às vezes o cliente não é uma marca grande ou conhecida, mas eu me sinto tão bem em fazer o que eu amo, que cada vez que saio do estúdio de fotos parece que eu estou “flutuando”. Eu adoro conhecer a história das pessoas e também contar a minha história.

Como está sendo morar em Nova York?

Eu mudei em fevereiro, sempre foi um sonho morar nesta cidade, quando cheguei aqui a Covid 19 estava ainda concentrada na Europa e China. Passaram três semanas e foi decretado o lockdown, eu não sabia o que fazer, não sabia se voltava para a Espanha, ou para o Brasil. Foi muito louco andar por esta cidade que sempre via em filmes lotada, estar completamente vazia. Mesmo tudo estando fechado foi muito bom sentir a energia desta cidade. Os trabalhos aqui já voltaram, as marcar e as agências têm um cuidado muito grande, e seguem um protocolo sanitário rigoroso para nenhuma pessoa da equipe ficar doente.

Você já sofreu preconceito por ser negra e ter nascido na periferia?

Sim, no mundo da moda a rejeição é uma realidade principalmente para os negros. Cheguei várias vezes em agências de modelos e eles falaram que já tinham uma menina com meu perfil, eu ficava indignada pois em uma agência com mais de 200 modelos em seu catalogo, parecia que ter 1 ou 2 negros já bastava, como se fosse uma cota. Na escola eu sofria racismo por conta do meu cabelo, com oito anos o alisei pois não suportava ouvir as outras crianças falando que meu cabelo era ruim. Na Europa o racismo é muito grande, aqui em Nova York, nem tanto, pois a comunidade negra é muito grande e unida. Tem muito trabalho para ser feito, mas as pessoas estão mais mente aberta. Em 2020 apesar da pandemia vimos muitas pessoas unidas para lutar por igualdade nos protestos contra a morte de George Floyd. Meu pai me ajudou muito e me ensinou a nunca abaixar minha cabeça, e que não sou melhor nem pior que ninguém. Quando eu era pequena eu não tinha nenhuma referência de modelos negros, a única que tinha era a Naomi Campbell, hoje eu vejo várias meninas e meninos lindos em campanhas de marcas famosas. Isto me deixa muito feliz e sei que aos poucos o negro está ganhando seu espaço.

Quais são seus projetos para 2021?

Eu já estou com muita coisa engatilhada, não posso falar, por questão contratual, mas o que posso dizer é que a vacina promete movimentar muito o mundo da moda, em 2021. O ano novo promete trazer muitas campanhas e desfiles, as grandes marcas já estão com seus calendários preparados. Quero em 2021 poder continuar morando aqui, e trilhar meu caminho, desejo muito passar mais tempo com minha família e amigos aí em Sorocaba, não vejo a hora de pegar uma praia. Quero muito poder continuar inspirando as meninas negras a seguir a careira de modelo. Tenho um desejo muito grande de trabalhar pelo social e poder ajudar pessoas.

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