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Entrevista: Sidnei Silva, a dama do ensino

Entrevista: Sidnei Silva, a dama do ensino
Diretora do Colégio Politécnico, Sidnei Silva. Crédito da foto: Erick Pinheiro / Arquivo JCS (4/2/2019)

O seu nome é sinônimo de educação de qualidade e credibilidade. Filha de um pernambucano que encontrou trabalho na Estrada de Ferro Sorocabana, a menina nascida em Mairinque conseguiu graças aos trilhos do trem estudar e se formar, mesmo com algumas dificuldades que a vida lhe deu, e realizou seu sonho de se tornar uma professora. Sidnei Silva nunca deixou de ler e estudar — adora “devorar” um livro e, principalmente, compartilhar o seu conhecimento. A menina que brincava com uma boneca feita de pano e com cabelinhos de milho, se tornou uma das mais reconhecidas e respeitadas educadoras da região.

Conheça a trajetória da diretora do Colégio Politécnico, Sidnei Silva, a nossa personagem da semana.

Onde a senhora nasceu? Como foi seu tempo de infância?

Eu nasci na cidade de Mairinque, meu pai era ferroviário e veio do Nordeste, de Caruaru, no estado de Pernambuco, para tentar a vida aqui. Tive cinco irmãos, minha mãe era dona de casa e, pelo fato do meu pai trabalhar na ferrovia, ele frequentemente era transferido de cidade. Morei em Barueri e Iperó, mas me criei em Iperó. Me lembro de ter tido uma infância muito tranquila e com brincadeiras da época. Eu lembro quando chegou o primeiro aparelho de televisão na cidade de Iperó. Eu e todas as crianças da rua ficamos na frente da casa do seu Vitano, que era o dono do aparelho, para assistir. Ele abria bem as portas da casa e ficávamos vendo. Na minha casa a televisão demorou para chegar, assim como muitas coisas que são comuns hoje em dia, como uma geladeira, pois meu pai, com seus cinco filhos, tinha o seu dinheiro muito contado para as despesas básicas da casa. Eu guardo até hoje uma boneca que eu ganhei da minha madrinha que morava em São Paulo. Era uma boneca de plástico que mexia as pernas e tinha uma mamadeira. Antes eu brincava com bonecas feitas de pano, usamos o sabugo do milho para fazer carrinhos. Graças a Deus nunca faltou nada de comida na mesa da minha casa, meus pais sempre tiveram porcos e galinhas, então tinha uma fartura muito grande.

E como foram os seus estudos?

Eu estudei com muitas dificuldades, seja por falta de recursos financeiros ou por falta do básico, como temos hoje em dia. O livro era difícil de se ter e custava caro; sempre frequentei muito as bibliotecas das escolas em que passei. Meu primário foi em Iperó, daí o ginásio tive que fazer em Boituva, pois em Iperó ainda não tinha. Lembro que viajava todo dia, depois vim fazer magistério em Sorocaba, no Estadão. Lembro que chegava muito cedo na estação ferroviária de Iperó para vir para Sorocaba, lembro de subir a pé até o Estadão, sempre conversando com os colegas de turma. Quando chegava muito cedo eu ia até a missa da igreja de São Carlos Borromeu. Quando terminei o magistério eu queria mais e resolvi cursar Pedagogia por quatro anos, Matemática por mais três anos e Estudos Sociais por mais dois anos. Fui morar no pensionato das Irmãs Carmelitas, onde é o Banco do Brasil hoje da rua XV de Novembro, pois era difícil ir e voltar para Iperó nesta época, até porque eu tinha aula em vários períodos. Durante a minha formação como professora eu tive aula de puericultura, no hospital Santa Lucinda. Como naquela época a professora quando se formava acabava indo às vezes para zonas rurais, tínhamos que aprender um pouco de tudo, inclusive a realizar partos. Para me manter na faculdade eu tive bolsa e comecei a trabalhar com a família da Laila Saker Miguel — eu dava aulas para os filhos dela.

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A senhora sempre quis ser professora? Como foi sua carreira?

Sim, desde criança eu sonhava em dar aula. Quando me formei, comecei a dar aulas em Iperó e Araçoiaba. Lembro que dava aulas nos três períodos, com uma dificuldade muito grande de locomoção, principalmente. Mas nunca desisti. Depois fui para Mairinque e São Roque. Cheguei em Sorocaba para ministrar aulas em 1970. Comecei na Escola de Santa Rosália e lá fiquei por 14 anos. Depois fui para a Vila Haro, em 1988 me efetivei como diretora na Escola Francisco Euphrasio Monteiro, no Barcelona. E em janeiro de 1994 eu me aposentei, porém não deixei de trabalhar, dirigi a Escola Cooperativa Aluísio de Almeida e em, 1998, comecei no Colégio Politécnico.

Como conheceu seu esposo, Elias Jammal Neto?

Quando recebi o apoio da família Saker Miguel, me aproximei muito da comunidade árabe, tinha uma amiga que fazia o curso de letras e combinamos de sair à noite. Naquela época, o ponto de encontro era uma lanchonete chamada Pilão, que funcionava na concha acústica. Minha colega o conhecia e fomos apresentados. Conversamos um pouco e fomos embora. Lembro que depois de um tempo, próximo ao Natal, fui na casa dela e estávamos nos preparando para ir ao Clube Recreativo quando ela falou que ia até a casa dele falar um “oi”. Lembro que chegando lá, cumprimentamos as pessoas e ele veio falar comigo. Ele acabou indo conosco para o Recreativo e lá ficamos dançando a noite toda, ele era um “pé de valsa”. E não nos desgrudamos mais. Nos casamos em 1971, não tivemos filhos e ajudamos a criar os dois sobrinhos dele. Vivi para o Elias, fui muito dedicada a ele. Infelizmente, ele faleceu em abril do ano passado, me deixando muita saudade e muitas boas lembranças.

Como o Colégio Politécnico entrou na sua vida?

Eu estava em casa e meu marido tinha saído para ir à farmácia. A minha vida toda morei no centro de Sorocaba. Quando meu marido entrou na farmácia, ele encontrou o Dr. Tiberany Ferraz do Santos, então presidente da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA). Ele comentou com meu esposo que estava precisando falar comigo e eles foram até minha casa. Dr Tiberany falou que tinha uma ideia de fundar um colégio, me contou todos os projetos que a FUA tinha e queria muito ampliá-los. Depois deste dia, fizemos mais algumas reuniões com vários diretores da Fundação na época. Durante estes encontros eu fui entendendo o que a Fundação queria, fui anotando e criando um projeto, queria algo interessante para Sorocaba e para os jovens, algo inovador. Eu apresentei o projeto para a diretoria e eles gostaram, falaram que iria ser feita uma apresentação para os membros da Loja Maçônica Perseverança III. Eu fui até esta assembleia, que foi realizada no jornal Cruzeiro do Sul, fui apresentada para todos os membros e eles gostaram da proposta, que foi aprovada por unanimidade. Comecei, então, a correr com todos os trâmites legais de fundação do colégio e, no dia 31 de outubro de 1998, estávamos autorizados a funcionar. A partir desta data começamos a procurar um local para sediar o colégio. Após visitar alguns locais, a FUA comprou o prédio da rua Barão de Cotegipe, 400, que algum tempo antes tinha sido usado por outro colégio e já tinha, de certa forma, algumas adaptações para receber os alunos. Graças a Deus, quando divulgamos a notícia que a FUA estava abrindo um colégio, a cidade toda acreditou e confiou na qualidade da marca Cruzeiro do Sul. Foi uma grande fila para realizar as matrículas. Desde este dia, já formamos quase 10 mil alunos, recebi muito apoio da comunidade e os números comprovam que o trabalho está sendo bem feito. O colégio atinge sempre ótimos índices de aprovação nos vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

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A senhora imaginava que o colégio ia fazer tanto sucesso?

Quando você planeja algo, sonha e quer o melhor. Eu tive muito apoio de toda cidade. Conseguimos imprimir uma marca de sucesso que é sinônimo de educação de qualidade. Hoje me sinto realizada como pessoa e como profissional.

Após 23 anos da inauguração do Colégio Politécnico, a senhora assume mais um desafio, que foi a inauguração da sua segunda unidade, agora no Alto da Boa Vista. Como está sendo?

Inicialmente era para estabelecermos na unidade Boa Vista o Ensino Infantil e as séries iniciais do Fundamental. Porém, fomos conversando com várias pessoas e fazendo pesquisa de mercado e chegamos à conclusão de que a região do Alto da Boa Vista, tendo em vista seu grande crescimento, precisava de uma escola com a qualidade e tradição do Politécnico. Foi aí que iniciamos, neste ano de 2021, com toda a parte de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Em breve queremos atender também o Ensino Médio. É um desafio novo e eu sinto que tenho uma responsabilidade muito grande em liderar uma equipe que cuida de mais de 1.200 alunos. São famílias que acreditam no trabalho desta marca, que foi construída em todos estes anos, sempre visando ao ensino com a melhor qualidade possível. E eu peço todo dia para Deus me dar forças para poder levar sempre o melhor para todos os alunos. Eu gosto de desafios e tenho certeza que este novo desafio está sendo maravilhoso para mim.

Muitas pessoas falam que o ensino de antigamente era melhor. O que mudou no ensino em todos estes anos em que a senhora atua na educação?

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O ensino do passado era muito bom quando nos apoiamos em algumas referências e hoje é muito bom quando também nos apoiamos no que temos hoje. Antigamente, era muito difícil a comunicação chegar aos locais, a televisão era algo raro, jornal e revistas eram coisas que só pessoas com posses financeiras tinham acesso. Material escolar era muito caro, então antigamente o aluno tinha o conhecimento chegando de forma limitada. Hoje em dia, a informação chega muito rápida e de forma democrática a todos. Nós, professores, ajudamos estes alunos a processar esta informação e os fazemos entender aquilo que estão vendo, seja na televisão ou na internet. Tudo no mundo se modernizou, em nossas salas de aulas contamos com computadores com acesso à internet e podemos mostrar aquilo que estamos ensinando para o aluno de forma mais ágil e com mais detalhes. Quem diria que, hoje, até pelo celular estamos ensinando, por conta da pandemia?

Como está sendo este processo de ensino durante a pandemia?

Está sendo muito difícil. Agora com as aulas híbridas (parte dos alunos presencial e parte on-line) está sendo pior. Até para se deslocar em sala de aula os professores tem que tomar cuidado para não prejudicar os outros alunos. Minha equipe está todo dia inventando algo novo e se adaptando para levar o melhor a todos. Estamos conseguindo vencer este desafio com muita perseverança e paciência.

A diretora Sidnei é muito rígida?

O meu conceito é sim, mas minha rigidez é no sentido de querer o melhor para todos, para reinar a ordem e a harmonia. Quando começamos com o Politécnico, em 1999, eu coloquei um projeto em ação: “Você é responsável pelo seu lixo”. Eu não coloquei lixeira dentro das salas de aulas e sim alguns pontos específicos espalhados pelo colégio. Isto, no começo, causou vários questionamentos dos alunos dentro do colégio e, com um trabalho pedagógico junto a todos, conseguimos fazer isto se tornar realidade. E o melhor de tudo é quando encontro algum ex-aluno que me fala que, graças a este gesto simples, aprendeu a ser mais organizado e a ter um consumo de lixo mais consciente. Existem peraltices de alunos sim, enfrento até hoje — que escola que nunca pegou um rolo de papel higiênico dentro do vaso sanitário? Quando acontece isto, fazemos um trabalho de conscientização e conseguimos ensinar para aqueles alunos o correto. Tenho fama de ser rígida, mas meus alunos sabem que sou muito carinhosa com eles.

Como é encontrar com ex-alunos?

É muito bom. Eu tenho um carinho muito grande por todos, é como se eles fizessem parte da minha família. Tenho aqui no colégio alguns filhos de ex-alunos e fico muito feliz ao ver que, com tantos colégios na cidade, estes ex-alunos confiam seus filhos nas minhas mãos. É sinal de que estou fazendo a coisa certa e eles confiam na qualidade do meu trabalho. Adoro reencontrar, principalmente, os que eram mais levadinhos (risos).

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