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Entrevista: Padre Flávio, gestor da Santa Casa

Entrevista: Padre Flávio, gestor da Santa Casa
Padre Flávio Jorge Miguel Júnior. Crédito da foto: Divulgação

Ele é um dos padres mais queridos e conhecidos da cidade de Sorocaba, ariano de 20 de abril com personalidade forte e raciocínio rápido, Padre Flávio Jorge Miguel Júnior aos 50 anos é admirado por muitos, seja por sua atuação no santuário de São Judas Tadeu, no qual suas missas atraem uma grande multidão, ou pelo trabalho desenvolvido a frente da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba. O menino nascido no Centro que tinha o sonho de ser veterinário, se tornou um grande administrador e homem de Deus. Conheça um pouco do Padre Flávio, o nosso personagem da semana, que em entrevista exclusiva ao Cruzeiro do Sul, falou sobre sua vida, infância, relacionamento com políticos e sobre a Santa Casa.

Onde o senhor nasceu? Como foi sua infância?

Eu nasci em Sorocaba, no dia 20 de abril de 1970, minha família morava na rua Sete de Setembro, meu pai é de família libanesa, tenho duas irmãs mais velhas, meu avô tinha uma loja a “Dois Leões”, na rua da Penha, esquina com rua Padre Luiz. Meu parto foi de parteira. Minha infância foi um pouco difícil no sentindo do mundo de criança, afinal o Centro sempre foi o Centro, com grande movimento e, para poder brincar, tinha que ir na casa da minha avó, que morava na Comendador Oeterer. Eu estudei no Getúlio Vargas, então lá eu tinha muitas atividades, frequentei muito a ACM e fui escoteiro, fui muito feliz e travesso, meu apelido era “Espanto” porque realmente era terrível, fui uma criança muito agitada.

E durante sua infância sempre quis ser padre?

Foram várias fases, a primeira fase queria ser veterinário, quando começou o projeto “TransZoo”, nos anos de 1980, eu fui fazer o curso. Naquela época eu saí várias vezes no Cruzeiro do Sul dando entrevistas sobre o assunto, lembro que nesta época acampávamos no zoo e eu ficava encantando, tenho muitos amigos que fiz naquela época que hoje são biólogos, veterinários e ativistas do meio ambiente. Eu cheguei também a trabalhar no zoo como monitor das visitas escolares. Depois comecei a fazer teatro no Getúlio Vargas, me encantei pelo mundo das artes, Sorocaba nesta época tinha vários talentos nas artes,. Cheguei a ganhar prêmio de melhor ator, em 1987 fui tentar fazer artes cênicas em Campinas ,porém não pude ir por conta de um problema familiar. Em 1989 eu prestei vestibular de Direto na Fadi Sorocaba, naquele ano eu tive uma experiência com Jesus muito grande, foi algo que mudou minha vida. Em um primeiro momento eu não queria ser padre, achava que ia ficar preso igual o corcunda de Notre Dame (Risos), até que convivendo dentro da igreja eu descobri que não era nada disto, e em 1990 entrei para o seminário, abandonei a Fadi e fiz filosofia, depois fui para São Paulo onde fiz teologia e também mestrado para poder ministrar aulas. Foi um processo que foi se construindo dentro de mim com a presença de Deus.

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E como foi sua ordenação sacerdotal, o que sentiu neste dia?

Fui ordenado em 1996, foi um momento sublime extraordinário, sou apaixonado pela vida e só sei fazer as coisas com paixão, foi um dia fascinante emocionante onde senti realmente que estava fazendo aquilo que eu queria, senti uma presença muito grande de Deus. Quando me ordenei fui para as paróquias São José Operário e Santa Rosália, depois fui para a paróquia de São Luiz Gonzaga, onde era uma realidade difícil na época pois ela tinha 11 igrejas, começava no Jardim Zulmira e ia até a Cruz de Ferro, então era muito difícil estar em todas as igrejas e administrar tudo. Junto a São Luiz Gonzaga, eu com 27 anos, também fui nomeado reitor do Seminário formando os futuros padres, além da pastoral vocacional. No ano de 2000 fui para paróquia de São Judas Tadeu no Central Parque, que era uma paróquia pequena e recém criada que no ano de 2010 se tornou um santuário e hoje é uma grande igreja.

Suas missas hoje levam uma multidão até o santuário, como é ser líder espiritual de uma paróquia tão importante?

É muito difícil, eu tenho um cuidado muito grande em cada palavra, procuro ser bem detalhista, as pessoas confiam em mim e isto é algo muito sagrado, recebo pessoas que expõem suas vidas para mim, suas intimidades e sei que o que eu falo pode mudar a vida daquela pessoa. Sou um formador de opinião e sei que é uma cruz muito pesada, procuro sempre buscar ajuda de Deus e a presença do Espirito Santo para poder levar as palavras certas as pessoas.

Como surgiu a Santa Casa para o senhor?

Em 2016 estava sendo finalizada a intervenção da irmandade pelo governo Pannunzio, e este ano foi o ano da Misericórdia instituído pelo Papa Francisco, onde foi pedido para cada diocese do mundo, abraçar uma causa para ajudar os pobres. Juntamente com o arcebispo dom Júlio, fui até o então prefeito Pannunzio, e nós colocamos a arquidiocese de Sorocaba à disposição para ajudar a Santa Casa, não queríamos ser presidentes da irmandade. No último dia do governo Pannunzio foi devolvida a Santa Casa para irmandade, pegamos uma dívida de R$ 110 milhões, descobrimos graças a uma auditoria externa que foi contratada. Quando entrou o governo Crespo tivemos um mal estar, pois ele tinha algumas ideias para o hospital, houve um desgaste, eu cheguei a ir até o Crespo e falei que queria sair, que não queria ficar no meio da guerra que estava, porém ele me pediu para ficar, pois ele iria tomar uma providência. Foi feita, então, a intervenção, que não foi nada fácil também, tivemos que convocar o Conselho e o Ministério Público, foi aí que eu fui eleito presidente do Conselho de Administração. Em maio de 2017 foi convocada uma assembleia onde foram convidados todos os membros da irmandade para comparecer e vieram pouquíssimos, foi então que começamos a fazer mudanças e colocamos membros da igreja católica na irmandade. No dia 14 de setembro, a prefeita Jaqueline Coutinho, que estava no cargo tendo em vista a primeira cassação do Crespo, me chamou até o seu gabinete porque todas as cirurgias da Santa Casa tinham parado, não tinha nem algodão ou fio de sutura, a prefeita falou que precisava urgente interromper a intervenção e devolver o hospital para irmandade. No dia 15 de setembro, dia de Nossa Senhora das Dores e das Misericórdias, santas estas que estão na origem da fundação das Santas Casas no Brasil, nos foi entregue a Santa Casa e comecei então a administrar o hospital.

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Em todo este período em que está à frente do hospital, o senhor teve, em algum momento, vontade de desistir?

Várias vezes, não vou ser hipócrita em ficar fazendo o politicamente correto, eu duvido muito de quem fala que nunca sentiu fraqueza, qualquer pessoa decente tem momentos de desânimos. Eu tive vontade de largar tudo sim, porque a estrutura no País e na cidade são terríveis de toda a natureza, forças ocultas, que hoje em dia não são tão ocultas assim, fazem sempre algo para boicotar ou atrapalhar o hospital. Existem dificuldades tremendas, problemas, dívidas antigas, lidar com conflitos interno, são mais de mil funcionários, cada um com uma personalidade e seus problemas… é são muitos problemas. Tenho problemas desde gestão hospitalar, estrutura, RH, tenho problemas também com algumas pessoas dentro do governo que nos boicotam de forma camuflada. Não é fácil, às vezes é difícil, mas todos os profetas da Bíblia tiveram momentos que queriam desistir. Faz parte momentos assim, que dá vontade de parar com tudo, porém, ao mesmo tempo penso no próximo que está na minha frente precisando de uma ajuda, penso em quanto o hospital melhorou e pode melhorar, e vem o fogo do Espirito Santo me aquecer e não me deixa desistir e desanimar. Enquanto Deus quiser vou estar ali. Tenho um lema que se for para fazer, tem que fazer bem feito. Já mudei muita coisa e muita coisa tem que mudar ainda. O hospital é muito grande e os recursos são poucos para se fazer tudo que está precisando. Estou fazendo agora a nova recepção do hospital, e falo que quando for inaugurada todos vão ver que muitos hospitais particulares não têm uma recepção como vai ficar a da Santa Casa, procuro fazer o melhor, não é porque é público que tem que ser feio, não é porque é de graça que tem que ser qualquer coisa, todo mundo gosta de um ambiente bonito, e estou tentando deixar a Santa Casa um local bonito e agradável. Quero mostrar que é possível, com honestidade e com parcerias com empresários e a comunidade, que o SUS funciona e que podemos entregar um hospital com qualidade para toda a comunidade.

O senhor foi visto nas últimas eleições no programa político de quase todos os candidatos a prefeito de Sorocaba, o senhor se candidataria para algum cargo público?

Não, porque a igreja católica não permite, hoje se um padre se candidatar ele é obrigado a deixar as suas funções religiosas pelo tempo do mandato, ou seja, se eu fosse eleito para algum cargo público eu não poderia celebrar missas, casamentos, confissões durante o período do mandato. Eu tenho a vocação em ser padre, eu estudei para ser padre e é isto que quero ser, a igreja já teve o poder político em suas mãos, não foi uma fase boa, ela apanhou bastante, não foi a melhor fase de sua história e a igreja católica pagou um alto preço em estar no poder, acredito que os evangélicos vão aprender isto também. Porém, se a igreja permitisse, não houvesse incompatibilidade em ser padre e continuar a exercer as suas funções de sacerdote, e ao mesmo tempo exercer um cargo público, seja de prefeito ou vereador, poderia ser que sim, claro tudo depende também da vontade de Deus.

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Como é sua relação com o prefeito Rodrigo Manga?

Eu tenho um bom relacionamento com todos os políticos, desde o PSDB de Vitor Lippi e Maria Lúcia, até o PSOL com o Raul Marcelo. Durante a campanha à presidência da República, eu recebi em minha casa para um almoço o Eduardo Bolsonaro. Estive junto com Michel Temer quando ele era presidente, se fosse Lula ou Dilma estaria com eles também, pois fui buscar dinheiro para a Santa Casa. A relação com os políticos é importante para o hospital, tenho um bom relacionamento com todos, é uma relação boa e de respeito. O Manga antes da eleição esteve comigo e depois de eleito também, foi em minha casa para conversarmos, tenho uma boa relação com ele independente dele ser pastor evangélico, o Deus é um só e temos juntos um compromisso com a cidade, a Santa Casa tem um convênio com a Prefeitura e sou o gestor da Santa Casa, o hospital da cidade de Sorocaba, e do povo sorocabano. Nosso hospital não tem bandeira de partido todo mundo que quiser ajudar a Santa Casa, independentemente de ser de direita ou esquerda, vai ser bem-vindo.

Como está o hospital neste período de pandemia?

Hoje não são os mais pobres que utilizam a Santa Casa, com a crise da Covid-19, muitas pessoas perderam o emprego e eu tenho atendido pessoas no hospital de todos os níveis sociais, pessoas inclusive que tinham bom emprego e boa estabilidade na vida se viram sem renda e sem poder manter um plano de saúde. O hospital não para, além de toda crise da Covid-19 temos outras doenças e não podemos deixar a população sem atendimento, tenho procurado manter tudo funcionando, principalmente as cirurgias eletivas. Tem sido um desafio diário, um desgaste muito grande da equipe toda, imagine ter que trabalhar com óculos luvas e roupas especiais dentro de uma UTI Covid, tendo que tomar um cuidado muito grande para não se contaminar. Estamos fazendo o possível para levar o melhor aos pacientes. O hospital tem um corpo de funcionários maravilhoso que está sempre em contato com instituições de saúde do Brasil todo para estarmos sempre atualizados e levando o melhor à população.

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