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Outro Olhar

Um dia na vida de Anita

Um dia na vida de Anita
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Sexta-feira pela manhã, Anita abriu a janela e se deslumbrou com a beleza do céu amarelo de um verão gelado do quadragésimo terceiro dia do décimo quinto mês do ano da graça de 2051. Enquanto se preparava para sair, ligou a tevê e a notícia de destaque do dia era um ato oficial de comemoração pelo décimo aniversário de um período de progresso, felicidade e paz no mundo. Ainda bem que finalmente as criaturas humanas estão se entendendo, há muita harmonia e as pessoas cumprem o mandamento divino de se amar umas às outras, pensou Anita em meio a um suspiro de bem-estar.

Ao sair de casa, deixou a porta aberta. Não havia roubos, furtos, sequestros, nada disso. Toda a violência era coisa de um passado tenebroso, esquecido e enterrado.

Na rua, como habitualmente, Anita sentiu um estado de felicidade ao deparar com pessoas que se cumprimentavam, mesmo que não se conhecessem, com os rostos marcados por sorrisos. No trânsito, motoristas, pedestres, ciclistas, todos se respeitavam. Os acidentes tinham sido reduzidos a zero.

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Um cadeirante estacou no semáforo. Anita, mesmo atrasada, parou para ajudá-lo a atravessar a rua com segurança. E se despediu com um gesto de carinho no rosto dele. O cadeirante esboçou um sorriso de gratidão.

Anita ligou para o chefe e avisou que ia chegar atrasada porque decidiu passar numa escola e dar aula de matemática para um grupo de alunos carentes. A aula teria duração de uma hora e ela garantiu que a tarefa voluntária não atrapalharia o seu dia de trabalho na empresa. O chefe aplaudiu a disposição dela de compartilhar conhecimentos com quem mais precisava.

O mundo havia mudado muito nos últimos tempos. Os hospitais ofereciam atendimento de qualidade. As escolas tinham níveis de ensino dos mais competitivos. A cultura bombava com cinemas e teatros lotados, shows eletrizantes, criativos, fenomenais. As livrarias se multiplicavam em cada esquina como redutos de efervescência do pensamento. Os esportes produziam atletas em todas as modalidades. Equipes se formavam desde as periferias das cidades e as projeções de medalhas nas Olimpíadas eram as melhores.

Na sala de aula, Anita se encantou com alunos interessados em aprender matemática. Sem o uso de celulares, prestavam toda atenção nas lições. Eram estudantes conscientes de que cada equação resolvida no caderno era um passo dado em direção às oportunidades de vida. Viam Anita como inspiração a seguir e imitar. E logo estariam no lugar dela ensinando outras crianças pobres, transmitindo generosidade, edificando o futuro.

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Terminada a aula, Anita saiu da escola e caminhou para o trabalho. No trajeto, comparou os tempos atuais com os tempos antigos. Concluiu que a vida melhorou bastante também porque os governos eram mais humanistas depois que firmaram pactos de paz, de justiça, de distribuição da riqueza e de garantia de todas as liberdades civis. O exemplo de tolerância veio de cima, repercutiu em todas as camadas da sociedade e esta foi a maior revolução da história.

No trabalho, Anita teve um dia criativo. A notícia triste da manhã foi saber da demissão de um amigo por medida de ajuste na empresa. Imediatamente, ela acionou grupos de aplicativos criados para ajudar desempregados a se recolocar no mercado de trabalho. E a resposta veio rápido. Em menos de uma hora o amigo recebeu e aceitou uma nova proposta de trabalho.

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No fim da tarde, Anita terminou o dia no happy hour com amigos num bar da moda. O encontro foi regado a bom humor, música, bebidas, petiscos. Lá pelas tantas, Anita voltou para casa e dormiu um sono tranquilo.

Pela manhã, ao abrir a janela, não tinha nenhuma recordação do dia anterior. Recebeu na cara a baforada de mau cheiro contido no ar que vinha de um rio poluído, localizado bem próximo de onde morava.

Sentiu a alma infeliz, vazia, deprimida. Com o olhar no horizonte, deparou com o céu azul do inverno seco do mês do cachorro louco que se confunde com a palavra desgosto.

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