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Outro Olhar

Te encontro amanhã, na batalha

O admirador sentiu um choque estético com a comparação entre o antes e o depois
Te encontro amanhã, na batalha
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Aos 33 anos, Anita Ricardo é uma musa de academia em Sorocaba. Professora de Educação Física, dá aulas como personal trainer e treina seis dias por semana. Desde os 16 anos se dedica ao corpo e à mente como conjunto de valores na construção de caminhos em busca de beleza, equilíbrio, força de viver. Preparava-se para uma competição de fisiculturismo em 2019, mas a vida tomou outro rumo. Há seis meses, descobriu um tumor agressivo no seio esquerdo e sua existência ganhou novos significados. Esta é a primeira campanha do Outubro Rosa de combate ao câncer de mama que ela vive como paciente em sua maior batalha pela saúde e pela vida.

Quem a visse de touca na cabeça em dias de inverno, imaginaria que fosse por opção. Quem a visse sem nenhum cabelo no dia em que tirou a touca, também poderia pensar que fosse uma questão estética. Quando a viu assim, um admirador perguntou a um professor da academia por que ela cortara os cabelos lindos. Os cabelos eram para ela uma identidade de beleza. E foram zerados. O admirador sentiu um choque estético com a comparação entre o antes e o depois. E ficou paralisado quando o professor lhe disse que a transformação era efeito da quimioterapia.

Sem se perdoar pela lerdeza de discernimento, o admirador, num impulso, caminhou para Anita. O choque estético também se convertia em abalo emocional. Impossível imaginar a contradição entre a beleza de uma mulher que era símbolo de saúde e a doença grave que se apresentara como ameaça real e imediata. A musa e o admirador, que até então se conheciam de vista e de cumprimentos, se olharam e se abraçaram. Naquele instante se irmanavam na dor, no sofrimento, na esperança de vitória em meio à luta pela vida.

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— Eu sempre gostei de ter muita saúde, corpão, ser vista como mulherão, disse Anita.

— Não tinha o hábito do autoexame, nada disso. Doença não fazia parte do meu mundo. Mas um dia aconteceu e o abalo na minha vida foi como um terremoto. E eu resolvi reagir e combater a doença com todas as minhas forças. A medicina e o carinho da família e dos amigos têm sido fundamentais na recuperação. E a fé em Deus é um componente especial. Estou reagindo bem, tanto é que a minha rotina de trabalho e de treinos continua a mesma. Sou capaz de dizer que, num transe emocional, eu conversei com a doença, encarei-a com toda a coragem possível e disse a ela: “Você pegou a pessoa errada.”

Desde então, a torcida por Anita é gigante. Os amigos se manifestam em abraços, em postagens nas redes sociais, em palavras de incentivo e reconhecimento da importância da luta travada.

As postagem no Instagram mostram Anita nos treinos, nas aulas com os alunos, e também em passeios nos parques, nos shoppings, nas ruas. Já divulgou imagens dos instantes de tratamento. Em outra gravação ela aparece falando a um grupo de mulheres que tentou usar peruca, não se adaptou e resolveu se aceitar assim mesmo, como está agora, e classifica a aceitação como um divisor de águas.

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Contemplar o pôr do sol, admirar as flores, curtir a poesia de Drummond, tudo isso passou a ter novos sentidos para Anita. Ela vai finalizar a quimioterapia em 16 de outubro.

Um dia desses, numa rara iniciativa, ela se rendeu ao desafio de postar uma imagem com a cara abatida, triste, como se tivesse chorado. Foi como falar que também tem direito a reconhecer que a jornada é desgastante, cansativa, cruel demais.

Porém, no vídeo seguinte resgatou o sorriso e a celebração de mais um dia. A religiosidade está presente em todos os seus momentos. A palavra “guerreira” é uma das que ela mais ouve das pessoas que a abraçam com carinho.

O admirador que se emocionou com a sua história na academia (ele é o autor desta crônica) sugeriu que ela escreva um livro contando esta experiência. Existem muitos livros sobre a doença, estudos médicos, mas nada é mais impactante do que a experiência da mulher que vive como protagonista o combate ao câncer de mama. É como fazer transmissões do cenário de guerra a partir da linha de frente dos confrontos com o inimigo.

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A dimensão da jornada de Anita faz recordar uma história do mundo antigo. A narrativa ilustra desafios que surpreendem e são verdadeiras provas de fogo. Aconteceu na região da antiga Mesopotânia, séculos antes de Cristo, era um cenário de guerra por domínios territoriais. O rei invasor tinha um exército numeroso e bem treinado, muito superior ao exército do outro rei que defendia a terra invadida. Ciente da sua superioridade, num rompante de arrogância, o primeiro rei propôs a rendição ao adversário. Era a véspera da batalha decisiva. Pela proposta, o povo dominado se tornaria escravo e o rei vencido teria a vida poupada, mas precisaria deixar o seu reino e sair pelo deserto como vagabundo. E o rei mais fraco, empunhando a espada, afrontou a arrogância do rei mais forte falando com altivez: — Te encontro amanhã, na batalha.

Muitas gerações se passaram desde o mundo antigo. Para nossa admiração, a coragem do guerreiro que não se rende ao inimigo mais forte ainda é demonstrada por mulheres como Anita Ricardo e suas companheiras de batalha neste Outubro Rosa que se traduz em exemplos de força, sensibilidade e amor à vida.

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