Outro Olhar

Setenta anos de negação

Paz e harmonia não passam de utopias em mundos marcados por desigualdades, injustiças, opressões de todo tipo
Setenta anos de negação
Ilustração: Lucas Araújo

Desde o homem da caverna, a humanidade vive em perigo. É como se esse fosse um destino. Ou como se fosse essência da natureza humana moldada pela guerra, pelo poder, pela ambição sem limite de líderes mundiais. E essa sensação de altíssimo risco nunca foi tão alarmante como agora. De quebra, as novas formas de composição das ideias e do pensamento estão entre os fatores responsáveis pela grave ameaça às aspirações de paz e harmonia. Nunca o mundo foi tão ameaçador.

Aliás, paz e harmonia não passam de utopias em mundos marcados por desigualdades, injustiças, opressões de todo tipo. Estudos amparados em pesquisas sérias identificam os problemas e propõem soluções, mas nada ou pouca coisa acontece. É como se forças ocultas dinamitassem qualquer tentativa de fazer as coisas saírem do lugar.

Essas reflexões são feitas a propósito dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, completados no dia 10 de dezembro. O documento contemplou direitos civis e políticos e direitos sociais e econômicos. Na transposição do que está no papel para a realidade, o problema é que os direitos continuam sendo negados a milhões de pessoas. E isso acontece no Brasil e no mundo.

A declaração foi elaborada após o planeta ter sofrido as catástrofes do fascismo, do nazismo, do stalinismo, de duas guerras mundiais que deixaram mais de 60 milhões de mortos, de duas explosões atômicas. Mas as intenções não foram suficientes para conter a avalanche de brutalidade que continuou a devastar o mundo em questões como a Guerra Fria, os novos conflitos que tiveram como palco de trincheiras as duas Coréias, o Vietnã, o Afeganistão, o Iraque, a Síria, israelenses e palestinos. Além do terrorismo sem freio.

A América Latina também exerceu a sua cota de brutalidades, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980. Registrem-se as ditaduras militares em países como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, El Salvador, Haiti, Nicarágua, Guatemala. Passados esses períodos, seguiram-se ondas de violência nas zonas urbanas e rurais.

No Brasil, o último relatório do IBGE mostra que em 2017 o número de cidadãos que passaram a viver com menos de R$ 140 mensais aumentou em quase 2 milhões. E o total de pessoas abaixo da linha da pobreza chegou a 15,2 milhões. No cenário da segurança pública, o Brasil ainda registrou 63.880 mortes violentas em 2017, o maior número da história, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram 175 assassinatos por dia no ano passado, equivalentes a sete por hora.

O incrível é que os dados se restringem ao perfil das estatísticas, sem produzir nenhuma reação, como se os resultados fossem fruto de elementos da natureza e não de políticas de governo.
No campo geral, o planeta ainda continua a conviver com os muros — visíveis uns, invisíveis outros — que separam ricos e pobres. E correntes migratórias procedentes de países castigados pela guerra, fome, doenças, continuam a desafiar governos como nos piores momentos das duas guerras mundiais do século 20. Para piorar, Putin e Trump, observados pela China, medem forças escorados em seus arsenais nucleares. Nada mais triste, nada mais angustiante.

E o artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos ainda diz: “Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.” Nada mais utópico quando confrontado com a realidade de guerras e violência sem controle em muitos países signatários do documento. Entre o papel e a pedra, há uma distância intransponível.

Além de negar direitos, as sociedades passaram a sepultar a história vivida e comprovada com documentos. É como se também negassem a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nada mais desproposital num tempo em que governos — e Trump é exemplo disso — se materializam nas redes sociais em busca de elogios.

Nada mais kafkiano do que a existência de governos que pulsam graças ao WhatsApp. E nada mais perigoso num mundo em que verdades e mentiras se chocam em compartilhamentos de seguidores movidos por camadas sobrepostas de transes e delírios.

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