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Outro Olhar

Selfie sem segredo

Artigo escrito por Carlos Araújo, jornalista do Cruzeiro do Sul
Selfie sem segredo
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Dizer o quê? Escrever o quê? Ouvir o quê? Ver o quê? Palavras, sons, imagens. Já não fazem mais sentido, não se traduzem em coisas práticas, não indicam rumos nem esclarecem dúvidas. Sensação horrível. Nada é mais difícil do que querer se comunicar e não encontrar os meios para isso. As mentiras derrotaram as verdades e as fake news se encarregaram de destruir o resto.

As imagens poderiam servir de compensação para o vazio das palavras. Reproduções lindas, coloridas, projetadas em primeiro plano. Céu azul, as ondas verdes do mar com bordas espumantes, o verde das matas, o sol entre as nuvens e o reflexo da sombra que faz recordar o efeito do eclipse. São como quadros que se abrem diante do olhar. Quadros que desarticulam a sensibilidade mais dura, inspiram poesia, estimulam o prazer, simbolizam equilíbrio. Engano. Embora essa natureza tenha o poder de ditar a vida, ela também é frágil. Não é imune ao vazamento de óleo. Não tem como se proteger das queimadas e cogumelos de fumaça. Não escapa da ação predadora das motosserras. Não pode fugir da guerra de nervos entre quem manda e quem obedece.

Fazer o quê? Tomar cerveja, andar sem rumo pela rua, enviar um zap para uma amiga querida, descer e subir sete vezes a escadaria da catedral, ignorar ou responder ao “bom dia” de um estranho, pensar que seguir à direita ou à esquerda não vai fazer nenhuma diferença no caminho percorrido. Talvez não haja destino e andar para a frente tenha o mesmo significado que retroceder. Passado e presente pulsando na mesma frequência.

Imaginar e sonhar. Imaginar nada menos do que o impossível. Sonhar com Carla, Isabel, Vanessa. Imaginar que elas vão chegar hoje de uma longa viagem ao redor do mundo e vão matar a saudade que castiga o corpo e a alma. Ainda é possível recorrer ao sonho e à imaginação como remédio contra as dores do mundo.

Ser o quê? Essa identidade em crise. Eu podia não ser quem sou, podia ser um animal, um leão quem sabe, ou um leopardo, talvez um inseto, podia ser pulga ou barata, besouro ou formiga, ou uma planta no canteiro da cobertura do Edifício Itália, qualquer planta, não importa a espécie, ou podia ser uma árvore da Amazônia, sujeita à destruição das queimadas e condenada a acabar como vítima da ambição das mineradoras, ser cortada em toras e embarcada para o exterior, transformada em móveis para a decoração do interior de palácios e realezas, mas o fato é que eu nasci gente e esse foi o meu primeiro ato de rebelião porque como gente eu penso, e se penso eu tenho condições de me proteger e de reagir contra a natureza hostil, eu tenho como usar as forças do corpo e da alma, tenho como me defender quando for necessário e tenho autonomia para atacar se não houver outro jeito, até porque nascemos habituados à batalha da existência, eu mesmo, ao desembarcar neste mundo, recebi o selo de sobrevivente, estava tão debilitado que nem chorei no minuto seguinte após o parto, o médico disse que eu e minha mãe estivemos a um passo da morte, sobrevivemos juntos, e isso devia significar alguma coisa, eu tinha uma vida pulsante para ser curtida, uma história a ser construída, uma infância solitária, uma adolescência ridícula e uma idade adulta cheia de perigos.

De repente, o não-ser também é carregado de significados. Não ser o que poderia ter sido, não ter chegado ao lugar tão sonhado, não ter feito uma viagem, não ter encontrado a porta aberta, não ter obedecido uma ordem. Todos esses “nãos” podem ter tido elementos salvadores, por que não? Como saber? Basta lembrar que desastres aéreos habitualmente agregam a história do passageiro que sobreviveu porque, pressionado por um congestionamento de trânsito, não conseguiu embarcar no voo trágico.

Não saber o que dizer, o que escrever, o que ouvir, o que ver. Não curtir o sonho nem a imaginação. Talvez toda essa carência humana possa explicar a sensação cada vez mais presente de que quanto mais o tempo passa, mais a gente roda em círculos e não sai do lugar.

Quem sabe já estejamos perdidos nos labirintos de Quixote. Os delírios do cotidiano provam isso. A insanidade do Cavaleiro da Triste Figura criado por Cervantes nunca foi tão eterna e tão presente.

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