Outro Olhar

Receita de fingimento

Carlos Araújo

Fingir que chove lá fora e eu não tenho nada a ver com isso porque não vou sair de casa nesta sexta-feira de julho.

Fingir que a roda da história gira em torno do meu umbigo e tudo o que me interessa neste mundo é só o que me faz feliz.

Fingir que não existe dor nem amargura porque o meu conhecimento de mundo se limita ao privilégio de almejar o poder, ser ambicioso e dominar todos que cruzam o meu caminho.

Fingir que vivo num universo em que tudo está resolvido e não há nada mais a ser feito, complementado ou transformado.

Fingir que o dia e a noite foram feitos para mim, só para mim, e direcionar para o meu ego toda a luz possível, sem me importar se o universo ao meu redor vive no escuro.

Fingir que há paz, que as pessoas se amam, que o ódio vicejante das redes sociais é só uma ilusão de ótica, sem correspondência na vida real.

Fingir que as instituições funcionam, sem se importar com o fato de que muitos se decepcionam com elas, que tantos nem acreditam nelas.

Fingir que vivemos no país do futuro e que não nos escandalizamos com a estranha constatação de que o futuro nunca chega, como se jamais existisse.

Fingir que a mulher vestida de azul no semáforo deu bola pra mim só porque nossos olhares se cruzaram e ela sorriu, sem levar em conta a possibilidade de ela tão somente estar rindo da minha cara.

Fingir que temos algum poder nesse mundo dirigido por poderosos de todos os matizes e categorias.

Fingir que sou um sucesso porque tenho o privilégio de viajar ao exterior uma vez por ano e preencher todo o meu tempo com a renovação anual desta meta, como se a existência fosse um passeio e o meu destino se resumisse à condição de ser turista em tempo integral.

Fingir que estou em paz com os mandamentos divinos toda vez que, no conforto do meu carro com ar condicionado, dou uma moeda no semáforo para uma criatura que se apresenta com uma mensagem escrita em papelão: “Estou com forme. Pode ajudar?”

Fingir que os acontecimentos nos centros de poder não me atingem porque cumpro com os meus deveres de cidadão e não tenho pendências de nenhuma ordem.

Fingir que os tiroteios nas favelas não ameaçam a minha segurança porque ando em carro blindado e moro em condomínio de luxo e, portanto, tenho a certeza (perdoem a presunção) de que curto a tranquilidade da paz dos trópicos.

Fingir que não há buracos nas ruas, que não há filas nos hospitais, que não há escolas sem aulas e sem professores, que não há medo de sair à rua, que não há queda na renda familiar.

Fingir que as estatísticas negativas estão erradas e só ganham publicidade por causa de intrigas da oposição.

Fingir que eu ensino a lição de vida, que você aprende a viver e que mesmo assim está tudo certo.

Fingir que sou politicamente correto e que atingi o nirvana com todas as minhas certezas.

Fingir que os meus discursos indignados podem significar alguma coisa transformadora, sem jamais duvidar da minha capacidade de ter cometido mil erros nos espasmos da minha mente.

Fingir que vivemos no paraíso, que não há esgoto a céu aberto e que todas as crianças nascem com uma rede de proteção digna de aplauso.

Fingir que nenhuma mulher será assassinada hoje, que nenhuma criatura se meterá em corrupção, que nenhuma guerra abalará os alicerces da paz.

Fingir que a tecnologia pode resolver todos os problemas do homem e inaugurar uma nova espécie de felicidade, a felicidade tecnológica.

Fingir que não precisamos uns dos outros, que basta ter dinheiro e poder para alcançar o plano da perfeição e que tudo o mais é discurso perdido, ultrapassado.

Fingir e continuar fingindo, porque essa é a dinâmica das coisas nesse mundo, porque essa talvez seja a única válvula de escape da sociedade moderna.

Fingir, fingir, fingir, em perfeita sintonia com o grande e vasto fingimento coletivo deste mundo estilhaçado pela injustiça e a indiferença.

 

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