Outro Olhar

Quase meia-noite, na padaria

Ler não é garantia de virtude. Ler muitas vezes não melhora ninguém, mas piora, porque faz o sujeito perder a inocência

No interior, a padaria cumpre o papel do que seria uma praia no litoral. Ao menos como ponto de encontro. A desvantagem é que não há o sol, nem a areia, nem as ondas do mar. A vantagem fica por conta das delícias na forma de guloseimas, apesar do perigo da ingestão de calorias a mais.

Ainda bem que as mulheres bonitas decoram o ambiente em todo lugar, seja na praia ou na padaria, e esse detalhe é uma inspiração para a poesia e um convite à vida. O que é diferente é a conversa: na praia os diálogos são soltos, enquanto na padaria assumem contornos de debate acalorado.

Veja os dois amigos que se cumprimentam próximo ao balcão de doces e salgados. Um deles se chama Ricardo e segura uma cesta de pão, queijo, coxinha, algumas frutas. O outro é Jorge, tem apenas a comanda na mão e está acompanhado de um amigo que se chama Paulo, que Ricardo não conhece. Feitas as apresentações, qual dos três tem novidade para contar? Quem se habilita é Jorge:

— Vou voltar para Belo Horizonte — ele diz.

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Ricardo não se surpreende. Todos sabem que Jorge voltaria para a capital mineira a qualquer hora, após mais de trinta anos em Sorocaba. Agora ele está aposentado e pode curtir a vida plenamente, sem se preocupar com o estresse da profissão de advogado.

— E você, o que anda fazendo? — pergunta Jorge a Ricardo.

— Escrevendo muito, como sempre — responde Ricardo.

— Ihhh!!! é escritor também — lamenta Paulo, como se estivesse diante de dois sofredores, dois perdidos, dois renegados. Jorge, além da experiência nos tribunais, também escreve livros explorando temas que o encantam, como o futebol.

Ricardo, percebendo o tom de lamentação, elabora uma defesa:

— Escrever, mais do que um prazer, é uma condenação. É como respirar, como cumprir um destino. Quem não tem talento para a bola ou os negócios, escreve. É como patinar no fim da linha. Não ganha dinheiro, mas se diverte com a imaginação.

— Vocês se sentem felizes assim, não é? – sugere Paulo. – Então está ótimo.

— Fazemos leituras do mundo – completa Ricardo. — Nem sempre é a leitura correta, erramos muito, mas vale o risco.

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Jorge pensa nos livros que terá que encaixotar na mudança para Belo Horizonte. Mais de trezentos volumes. Ricardo pensa nos livros que tem em casa e perde a conta. Paulo os vincula aos tempos modernos e chega a uma conclusão:

— Vocês são baluartes de resistência: devoram livros impressos. Quem lê hoje recorre ao Kindle, à tela do smartphone. E muita gente não lê absolutamente nada.

Ricardo e Jorge aproveitam a deixa para falar das vantagens do livro impresso sobre as alternativas digitais.

Paulo confessa uma preocupação:

— Como será o País com a geração que não lê nada?

Ricardo desconstrói o senso comum:

— Ler não é garantia de virtude. Ler muitas vezes não melhora ninguém, mas piora, porque faz o sujeito perder a inocência. A história mostra vilões eruditos, criativos, sofisticados, e reserva a compensação com criaturas humildes, analfabetas, de grande dignidade. Hitler gostava de pintura e música clássica, e há moradores de rua que, mesmo sem terem nada, se ajudam uns aos outros nas noites geladas de inverno.

Paulo insiste na projeção de futuro:

— Fico preocupado com os meus filhos. Que Brasil eles terão em dez, vinte, trinta anos? Sinto arrepios só de imaginar como será o futuro, o que seremos, se ainda seremos um país.

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— O Brasil será melhor do que é hoje se a democracia estiver garantida – intervém Jorge. — O País não tem uma história de regimes democráticos que duram muito. Sempre há uma quebra com retrocesso e o sonho da democracia é interrompido.
Paulo insinua que não é bem assim. Jorge justifica:

— A história do mundo dá exemplos de que só a democracia proporciona progresso e desenvolvimento. Vejam o Japão, a Alemanha, os EUA. Na Itália cai primeiro-ministro, sobe primeiro-ministro, mas o regime não muda. A Espanha e Portugal só começaram a se desenvolver de fato quando se livraram das ditaduras. A democracia é a janela aberta para o sol da liberdade.

Nesse instante, Ricardo se mantém em silêncio. Forjado nas desilusões de todas as utopias, nem mesmo o ideal democrático o convence de mais nada.

— Não é mero acaso que democracia rima com utopia — ele contradiz.

Agora se apressam nas despedidas. Hora de ir pra casa. É quase meia-noite e a padaria vai fechar. Amanhã tem mais.

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