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Outro Olhar

Os seguidores da caverna

Artigo escrito por Carlos Araújo, jornalista e escritor
Os seguidores da caverna
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

O dia não é claro, o céu não é azul, a noite não é escura. Eu não sou o que imagino ser. Minha alma é uma ilusão e o meu corpo é só a representação de um objeto descartável que se deteriora com o tempo. Passado, presente e futuro não existem, são marcações criadas pelo homem para a narrativa de histórias que vão muito além da compreensão humana.

Por isso, falam em enigmas do tempo e em movimentos de retrocesso e vanguarda. Na verdade, no tempo e no espaço, nos nossos delírios, nós nunca saímos do lugar. Jamais deixamos de ser o que éramos desde os tempos da caverna.

Inventamos a tecnologia, a energia nuclear, a internet, mas não conseguimos deter a morte. Ao mesmo tempo em que tenta ir a Marte, nos alucinantes projetos de domínio do universo, o homem continua com a primitiva capacidade de matar e espalhar destruição.

Nos instintos primitivos, não evoluiu nem um pouco. Nunca deixou de ser Abel e Caim, de ser vítima e assassino. O grotesco e o sublime caminham juntos. Inteligente e brutal, generoso e selvagem, inspiração de amor e ódio.

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As contradições se dão as mãos. Interpretam esse antagonismo como desigualdade, injustiça. Sobreposição de poder, de um lado, e submissão, de outro. Nada disso. A igualdade está na união dos extremos.

A globalização que só vale para o capital traduzido em mercadoria, dinheiro, riqueza, e não se aplica às multidões de seres humanos que fogem desesperados das guerras, da fome, da intolerância.

As relações de poder já existiam nos tempos da caverna e não mudaram, permanecem as mesmas. Não importa negar essa constatação. É risível o nosso hábito de negar evidências e vestir a máscara da esperança.

Somos capazes de negar o verão debaixo de um sol de quarenta graus, ainda acreditar nisso e fazer com que os outros compartilhem essa visão como numa rede de papagaios.

E alta noite, no desamparo do quarto e do espelho, não podemos (e não conseguimos) ignorar os vilões que habitam o nosso ser.

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A internet é o reflexo da distinção entre o real e a máscara, pois é simultaneamente fonte de benefícios que salvam vidas e território de ódio e das fake news que aniquilam qualquer ideia de verdade.

As redes sociais viralizam em guerra civil virtual e cada plataforma é um campo de batalha, cada atirador de insultos se sente um general e tem certeza de tudo, sem jamais admitir que a dúvida é consequência das nossas imperfeições. Curtem coisas boas, mas também replicam provocações.

Buscam conhecimento, mas entram em rota de colisão quando desrespeitam o outro e ainda sentem prazer nisso. É a criatura da caverna em meio à presunção de controle da história.

Uma arrogância que se esfacela ao sair à rua e ser vítima de assalto, de bala perdida, de prisão por engano. A rua é o palco da luta corporal que nos reduz à insignificância de sermos alvos na calçada, na esquina, no portão de casa.

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Nem no aconchego da sala estamos seguros. As democracias e as ditaduras de todos os matizes não conseguem resolver as tragédias da desigualdade, da injustiça, da violência sem fim.

Ainda ontem mataram uma família carbonizada nos sertões profundos, ainda ontem fuzilaram um índio na floresta, ainda ontem um sujeito enciumado matou a ex-mulher a tiros. Não conseguimos nem prever o perigo para antecipar a fuga do local de risco.

Talvez por isso a internet seja a nossa ilusão de controle, quando mal percebemos que é ela que nos guia, aprisiona, domina.

O mundo inteiro sabe disso e usa a rede mundial para nos encaminhar aos caminhos traçados por lobos e leopardos. Não é por acaso que agora os líderes mundiais governam pelo Twitter. Novo estilo de exercer o poder. Mais fácil, seguro, muito cômodo. E nós os seguimos, cegamente, como nos tempos da caverna.

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