Outro Olhar

O milagre do Jardim das Acácias

Confira a coluna de Carlos Araújo
O milagre do Jardim das Acácias
Arte: Lucas Araújo

A história me foi contada pelo médico Antônio Carlos Ribeiro, diretor tesoureiro da Associação Protetora dos Insanos de Sorocaba (Apis), durante entrevista para a reportagem sobre os 100 anos da entidade completados em 1º de outubro deste ano.

Aconteceu no antigo Hospital Jardim das Acácias, mantido pela Apis até cinco anos atrás. Os nomes aqui são fictícios. Alguns detalhes na reconstrução dos cenários são debitados à imaginação, mas a essência é real.

João e Rosa se conheceram nas ruas como catadores de latinhas. O destino, ao mesmo tempo que os aproximou, igualou-os na deficiência mental. Isso não lhes tirou a consciência de que precisavam trabalhar para sobreviver. E a convivência diária os levou a viverem juntos.

O carrinho que puxavam pelas ruas era de armação de ferro, revestido de papelão nas laterais. Era assim que conseguiam dinheiro para a comida. Mas nem sempre isso era possível. Nos dias em que não conseguiam juntar o suficiente, deixavam a vergonha de lado e pediam alimentos nas casas.

Precisavam de consulta médica e de remédios para controle do distúrbio mental. Se nem sempre tinham o que comer e penavam para pagar o aluguel atrasado de um barraco, remédios, médicos, isso tudo era utopia para eles. Quando tinham surtos psicóticos, eram socorridos por bombeiros em prontos-socorros da rede pública de saúde. Depois, passada a emergência, eram devolvidos às ruas.

O destino trouxe o nascimento de um filho. Deram-lhe o nome de Nino. Sem terem com quem deixá-lo enquanto catavam latinhas, habituaram-se a levá-lo desde quando era bebê. Improvisaram uma miniatura de berço no carrinho, com cobertura de papelão para protegê-lo do sol e da chuva, e assim prosseguiram na luta diária pelo ganha-pão.

À medida em que Nino crescia, fabricaram um modelo de cadeirinha que se encaixou no carrinho. Os anos se passaram. Nino cresceu o suficiente para deixar a cadeirinha e acompanhar os pais a pé.

O garoto herdou a deficiência mental dos pais. Mas o probleminha não o impedia de ajudá-los a recolher os materiais que depois seriam vendidos no ferro-velho.

Um dia, Rosa abandonou João e Nino. Talvez ela tivesse desaparecido por causa de um surto nervoso. Fosse qual fosse o motivo, pai e filho choraram muito a ausência de Rosa e se recolhiam ao silêncio como autodefesa para suportar a dor.

Naqueles dias de sofrimento, numa hora em que catavam latinhas na rua, João sofreu um ataque cardíaco. O menino, sem saber o que fazer, gritou por socorro. Bombeiros conduziram João ao pronto-socorro e Nino foi levado ao setor de promoção social do poder público.

João sobreviveu e foi levado ao Hospital Jardim das Acácias, onde ficou no pavilhão masculino de adultos. Quis o destino que Nino recebesse abrigo no pavilhão infantil do mesmo hospital.

Os pavilhões eram prédios vizinhos e independentes. Cada um era isolado por cerca de alambrado. Era um tempo em que havia pacientes que ingressavam no Hospital Jardim das Acácias em tais condições de carência, que em alguns casos não havia informações detalhadas de suas histórias e identidades.

Tempos depois, o hospital introduziu uma pioneira forma de tratamento que ampliava a convivência entre os internos. Como parte dessa medida, o alambrado do pavilhão de adultos foi retirado. Duas semanas depois, foi extinta a cerca do pavilhão infantil.

A vida sem alambrado foi um momento de grande expectativa para toda a comunidade hospitalar. Havia a necessidade de avaliar como os internos se comportariam, agora que crianças podiam interagir com os adultos.

No instante em que houve a aproximação entre adultos e crianças, um paciente adulto explodiu de alegria ao visualizar um menino entre os garotos. Era João, que acabava de reconhecer o filho Nino.

Coisa de milagre. O homem delirou em gestos de felicidade. O menino se imaginou num sonho. Até então, desde o dia do ataque cardíaco, pai e filho sofriam por não saber o destino um do outro. Os funcionários tiveram que ampará-los no abraço de reencontro.

Os dois tinham sido vizinhos de pavilhões e não sabiam disso. Faziam parte da estatística de pacientes acolhidos em tais condições de desamparo, que nem sempre havia informações sobre suas identidades. Até então nem os funcionários conheciam o vínculo entre pai e filho.

Assim contam os que preservam a memória da galeria de emoções do Hospital Jardim das Acácias.

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Carlos Araújo